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Conte-me o seu problema e eu lhe direi que chá você deve tomar

Um tratado médico datado de 3.700 a C., escrito pelo imperador chinês Shen Wung, é um dos mais antigos documentos conhecidos sobre as propriedades medicinais das plantas.

Os egípcios, 1.500 a. C. já utilizavam ervas aromáticas na medicina, e os sumérios da Mesopotâmia possuíam receitas valiosas que só eram conhecidas por sábios e feiticeiros.

O médico e filósofo grego Hipócrates, conhecido como o “Pai da Medicina ocidental” disse há mais de 2.500 atrás “faça do alimento o seu medicamento” ou “o homem é uma parte integral do cosmo e só a natureza pode tratar seus males”.

É sabido que os primeiros medicamentos foram obtidos através do uso e processamento de vegetais. Para se ter uma ideia, quando o ácido acetilsalicílico, a popular aspirina, foi sintetizado em 1897, seria a primeira vez na história da indústria farmacêutica que um composto não obtido diretamente de um vegetal seria comercializado.

E mesmo a aspirina tem sua origem numa planta, a Spiraea ulmaria, de onde se extrai o ácido salicílico, sendo que para o medicamento se tornar próprio ao consumo humano, precisou ser misturado ao acetato.

Desde então, os processos de fabricação de remédios se sofisticaram e as plantas se transformaram em verdadeiras fábricas de remédio. 

Mas, muito antes da indústria farmacêutica existir, pode-se dizer que o uso de plantas como medicamento é provavelmente tão antigo quanto o aparecimento do próprio homem e esse conhecimento foi passado de geração em geração.

É muito comum recebermos ou indicarmos um chazinho bom para alguma coisa, seja calmante, para dor de cabeça, para cólicas e uma infinidade de sintomas.

Mas será que esses chás realmente funcionam?

Algumas ervas, de fato, possuem suas funções medicinais comprovadas e, sobre outras tantas, há comprovação de que possuem substâncias tóxicas, que em altas quantidades podem desencadear problemas à saúde das pessoas.

Foi pensando nisso que destacamos aqui um guia para uso de ervas, consideradas medicinais, que não oferecem contraindicações e que são amplamente difundidas por seus efeitos benéficos à saúde.

Essas plantas, inclusive, podem ser adquiridas facilmente em mercados públicos, lojas de ervas, serem colhidas diretamente no campo ou cultivadas em jardins, hortas, e até em vasos.

Confira!

Ervas para recompor a energia e a vitalidade

  • Fruto do cacau (pó)
  • Fruto do guaraná (pó)
  • Erva mate (folhas)
  • Ginseng (pó ou raiz)
  • Ginseng da siberia – Eleuterococo (pó ou raiz)
  • Raiz de ouro – Rodiola (pó ou raiz)
  • Chá da índia ou Camellia sinensis (folhas)

O chá da índia pode ser feito de várias maneiras, que praticamente mantêm as mesmas substâncias, mas em concentrações diferentes por causa dos processos de preparação.

Obviamente que no chá preto, haverá maior concentração de cafeína e teobromina.

Os chás mais conhecidos da planta Camellia sinensis são:

Chá branco

Caracteriza-se por ter as folhas jovens que não sofreram os efeitos da oxidação.

Chá verde

A oxidação das folhas é interrompida pela aplicação de calor.

Chá Oolong

A oxidação é interrompida em um ponto intermediário entre o de origem ao chá verde e ao chá preto;

Chá preto

A oxidação é em grande quantidade.

Vivemos numa época muito estressante, na qual a correria do dia a dia nos coloca cada vez mais cansados, sem energia e sem ânimo.

No Brasil, estudos indicam que há espécies produtoras de alimentos estimulantes contendo os alcalóides cafeína e teobromina como o café, o fruto do cacau, a erva-mate, o fruto do guaraná e o chá-da-índia. (RESENDE, Marcos Deon Vilela de. Software SELEGEN – REML/BLUP. Embrapa, 2002.)

Os trabalhos clínicos sobre o ginseng da sibéria, o ginseng e a rhodiola, também conhecida como raiz de ouro, uma raiz de origem siberiana, indicam que essas plantas são de propriedades adaptógenas relacionadas com os seus efeitos neuroprotetores e sobre as funções cognitivas em caso de fadiga.

Ervas para controle da ansiedade e mau humor

  • Cidreira-de-arbusto ou falsa melissa (folhas, flores e caule)
  • Erva-doce-brasileira (folhas, flores, caule e óleo)
  • Mulungu – (folhas, flores, frutos, cascas e raízes)
  • Passiflora – (flores)
  • Erva-de-são-joão – (parte superior da planta, flores, ramos)
  • Colônia (folhas e flores)

Para a Organização Mundial de Saúde – OMS, saúde é: “Um bem-estar físico, mental e social e não apenas ausência de doença”.

Pensando nisso, muitas ervas e plantas são utilizadas com indicações calmantes, relaxantes e inclusive no controle de ansiedades e estresse.

A cidreira-de-arbusto, a erva-doce e o mulungu, espécie endêmica no Brasil, encontrada no cerrado, Amazônia e Mata Atlântica, possuem ação calmante, entre muitas outras que podem ser destacadas isoladamente a cada uma.

Porém, nesse guia, vamos nos ater apenas a uma propriedade medicinal de cada planta, nesse caso, o efeito calmante.

A passiflora (espécie de flor do maracujá) como plantas de efeitos fitoterápicos no combate ao cansaço, estresse, diminuição da ansiedade e até antidepressivo.

A erva-são-joão é muito utilizada no tratamento da depressão leve e moderada. Na Alemanha, ela é o antidepressivo mais utilizado, representando mais 25% dos antidepressivos prescritos.

A maioria dos pesquisadores acredita que as hipericinas presentes na planta sejam responsáveis pela atividade antidepressiva, mas o mecanismo ainda não é totalmente conhecido.

Contudo, a planta só deve ser utilizada após orientação médica, pois ela possui uma série de efeitos colaterais e pode causar problemas de saúde.

A colônia ou Alpinia zerumbet é aplicada no tratamento da hipertensão arterial e dos estados de ansiedade, agindo como calmante.

Ervas para dormir melhor

  • Valeriana (raiz)
  • Kava-kava (rizoma)

Todos os chás indicados para controle da ansiedade, por serem calmantes, também podem auxiliar para uma melhora na qualidade do sono.

Algumas plantas medicinais e fitoterápicos podem ser utilizados com segurança e eficácia para o tratamento de distúrbios do sono. Os fitoterápicos que possuem mais estudos são a Valeriana officinalis e o Piper metysticum G. Forst.

Com relação à Valeriana officinalis ou simplesmente valeriana o marcador químico é o ácido valerênico, o fitoterápico usado como sedativo moderado, hipnótico e no tratamento de distúrbios do sono associados à ansiedade.

Já a Piper metysticum G. Forst popularmente conhecida como Kava-Kava é recomendada em estágios leves a moderados de insônia em curto prazo (1-8 semanas de tratamento), o uso crônico pode causar hepatotoxicidade. É contraindicado no caso de afecções hepáticas, gestação e lactação.

Ervas para inflamação da garganta e tosse

  • Aroeira (entrecascas)
  • Barbatimão (cascas)
  • Cajueiro (folhas, cascas e óleos)
  • Chapéu-de-couro (folhas, flores e raízes)
  • Gengibre (rizoma)
  • Romã (Fruto, casca do fruto, casca do caule e raízes)
  • Vassourinha ou vassoura de botão (Folhas, flores, ramos e raízes)
  • Hortelã de folha grande
  • Eucalipto (folhas e cascas)

A aroeira atua como adstringente, antialérgica, anti-inflamatória e cicatrizante.

Por via oral, pode atenuar e até curar gastrite e úlceras do estômago e do duodeno.

Por via local, é indicada no tratamento de ferimentos infeccionados da pele e de mucosas, como gengivites, faringites e amigdalites, e infecções do aparelho genital feminino.

É útil no caso de cervicite (ferida no colo do útero) e de hemorroidas inflamadas. A aroeira é de fato uma planta poderosa!!!

A planta barbatimão também é utilizada no combate à inflamação da garganta.

As folhas do cajueiro têm ação anti-inflamatória, adstringente, antidiarreica, antiasmática, depurativa e tônica, porém, em casos de feridas e úlceras da boca e afecções da garganta, o chá da entrecasca não deve ser bebido, deve ser usado como antisséptico em bochechos.

O chapéu-de-couro também possui ação anti-inflamatória e combate às infecções da garganta. O chá deve ser utilizado em bochechos e gargarejos.

O gengibre tem ação antimicrobiana, estimulante, digestiva antiemética, anti-inflamatória, antirreumática, antiviral, antitussígena, antialérgica, cardiotônica, e ainda age nos casos de trombose e inflamação de garganta, sendo útil no para combater doenças da boca e rouquidão.

A casca do fruto tem ação adstringente, antimicrobiana (no caso de staphylococus), e antiviral (em vírus do Herpes genital).

Em geral, é indicado para o tratamento de dores de garganta, rouquidão, inflamação da boca, e locais infectados pelo Herpes.

Para a tosse, vassourinha ou vassoura de botão é a planta indicada. É indicada nos tratamentos caseiros das afecções das vias respiratórias, em especial tosses originadas de gripes mal curadas, com presença de catarro.

A hortelã de folha grande age como antisséptico bucal, demulcente e balsâmico.  Pode ser usada para tosse, rouquidão, e inflamações da boca e garganta.

O eucalipto é indicado como antisséptico, anticatarral, antiasmático e digestivo.

Ervas para auxiliar na digestão

  • Boldo, falso-boldo, sete-dores ou malva amarga (folhas e ramos)
  • Carqueja (folhas e ramos)
  • Alecrim (folhas e ramos)
  • Erva-doce (folhas, flores e ramos)
  • Jurubeba (folhas, flores e raízes)
  • Macela (folhas, flores e ramos)

O falso-boldo ou sete-dores ou malva amarga é indicada para males do fígado, problemas de digestão, gastrite, dispepsia e azia.

O boldo é um poderoso digestivo, antitóxico, combate a prisão de ventre e é usado também nas febres intermitentes.

Extremamente popular no Brasil, a carqueja ajuda na má digestão atuando nas células hepáticas aumentando a produção da bile.

A carqueja também está lotada de componentes amargos, o que também favorece o trabalho do fígado e a digestão. Também possui efeito diurético.

O alecrim pode ser usado como cicatrizante e antimicrobiana. Age também aumentando o volume da secreção biliar e estimula a eliminação de gases do aparelho digestivo, aliviando a sensação de empachamento.

A erva-doce apresenta função digestiva combatendo cólicas, além de ser um poderoso antiespasmódico.

A jurubeba é utilizada em casos de anemia, distúrbios hepáticos e de vesícula, problemas digestivos (gastrite).

A macela age como antidispéptico, antidiarreico, e nos casos de perturbações gástricas alimentares, como azia e enxaqueca.

Ervas para dores de cabeça e enxaqueca

  • Macassar (Folhas, flores e ramos)
  • Macela (folhas, flores e ramos)
  • Saião, coirama ou folha da fortuna (folhas e resinas)

A macassar atua como anti-hipertensivo, no combate à enxaqueca, problemas cardíacos e de labirintite, além de servir ao banho de cheiro.

A macela também é utilizada para combate à enxaqueca.

Saião, coirama ou folha da fortuna tem ação cicatrizante, anti-inflamatória, antimicrobiana, também pode ser usada no combate a dor de cabeça.

Ervas para cólicas menstruais

  • Arruda (folhas e raízes)
  • Mil-folhas (folhas e flores)
  • Calêndula (folhas e flores)
  • Canela (casca, caule)

A arruda é conhecida por atuar em problemas menstruais, principalmente cólicas. Alguns acreditam que auxilia na regulação do ciclo. Não é recomendável para gestantes.

A mil-folhas tem ação diurética, anti-inflamatória, antiespasmódica e cicatrizante. Usada em cólicas menstruais e no combate à indisposição, flatulência, diarreia.

A calêndula também pode ser utilizada no combate às cólicas.

A canela há quatro mil anos, na China, já era empregada para tratar problemas gastrointestinais e cólicas menstruais.

Ervas para diarreia

  • Goiabeira (brotos novos, folhas e frutos)
  • Cajuzeiro (folhas e ramos)
  • Capim santo (folhas)
  • Carrapicho (folhas e ramos)
  • Cidreira (folhas e ramos)

Todas essas ervas têm propriedades que auxiliam no combate à diarreia.

Dicas para fazer o chá perfeito

Há 3 procedimentos mais comuns para a preparação do chá:

  • infusão,
  • decocção e
  • maceração.

Por infusão

É preparado juntando-se água fervente aos pedaços de erva, na proporção de 150 ml para 10g da planta fresca ou 5g da planta seca.

Misture por um instante, cubra e deixe em repouso por 10 minutos, até atingir temperatura apropriada à ingestão.

Os chás indicados para resfriado, gripe, bronquite e febre devem ser bebidos ainda quentes.

Aqueles indicados para problemas do aparelho digestivo, como indigestão, mal-estar e diarreia, devem ser bebidos na temperatura ambiente ou gelados.

No caso de chás contra diarreia, como exemplo o de olho de goiabeira, adicione um pouco de açúcar e uma pitada de sal comum a cada xícara, e consuma de duas em duas horas.

Preferencialmente, os chás devem ser preparados em doses individuais e devem ser usados logo em seguida.

Caso necessite de várias doses, prepare uma quantidade maior para consumo no mesmo dia.

Use material bem limpo no preparo, mantenha o recipiente que armazena o chá bem fechado e conserve-o na geladeira, usando todo o conteúdo em até 24 horas.

Por decocção ou cozimento

Coloque a planta na água fria e leve ao fogo durante 10 a 20 minutos, ou até obter fervura, dependendo da consistência da parte da planta empregada.

Após o cozimento, deixe em repouso por período de 10 a 15 minutos e coe em seguida. Esta forma não deve ser preparada com folhas aromáticas ou com cascas de cumaru, porque os princípios ativos são voláteis e perdem sua ação.

Esta é a forma mais adequada para preparações com cascas e raízes.

Por maceração

Mergulhe a planta amassada ou picada, bem limpa, em água fria por período de 10 a 24 horas, dependendo da parte utilizada.

No caso de sementes e partes tenras da planta, o tempo de espera é de 10 a 12 horas.

Já no caso de talos, raízes e cascas duras, o tempo mínimo é de 22 a 24 horas.

Após este período, coe e consuma.

Para saber mais

Para saber mais, inclusive textos com fotos e ilustrações das plantas, acesse aqui este arquivo da Embrapa.

Sobre Daia Florios

Daia Florios
Ingressou no curso de Ecologia pela UNESP e formou-se em Direito pela UNIMEP. É redatora-chefe e co-founder de GreenMe Brasil.

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