Pesquisa da Fiocruz revela que o coronavírus circulava pelo Brasil antes do carnaval

A Fiocruz publicou um trabalho na revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz  no qual os cientistas, a partir  da análise de registros de óbitos, conseguiram identificar que a transmissão comunitária da Covid-19 no Brasil começou entre meados de janeiro e início de fevereiro, portanto, antes do carnaval e um mês antes do anúncio oficial do primeiro caso, feito pelo Ministério da Saúde em 26 de fevereiro de 2020.

Método da pesquisa

Para estimar o período inicial de transmissão comunitária, os pesquisadores usaram o método de avaliação das mortes, mais precisamente, de crescimento de mortes, podendo ser considerada uma informação confiável sobre a evolução da doença através do rastreamento retroativo dos casos.

Os cientistas consideraram o tempo médio de 3 semanas entre a infeção e a morte por causa da Covid-19 e, através de um método estatístico, puderam especificar quando os primeiros casos no Brasil ocorreram.

De acordo com a pesquisa, eles estimam a data provável do início da disseminação do SARS-CoV-2 no Brasil entre meados de janeiro e início de fevereiro, considerando o acumulado de mortes relatadas durante o estágio inicial da epidemia na Europa Ocidental e nas Américas.

Diante dessa constatação, quando o Ministério da Saúde anunciou o primeiro caso no Brasil como sendo “importado” da Itália, a transmissão comunitária da doença já estava acontecendo há mais de um mês e as medidas de proteção e prevenção não haviam sido implementadas ainda.

O cenário fica ainda mais trágico ao considerar que ocorreram aglomerações de milhares de pessoas em todo o país por causa do carnaval.

A pesquisa é inédita ao apontar o início da transmissão comunitária no Brasil e acaba por reforçar as pesquisas já realizadas em outros continentes e países, que também concluíram que a transmissão ocorreu antes do que foi apontada.

Pesquisas em outros países

A maioria dos países não consegue apontar com certeza qual momento exato que o vírus começou a se espalhar em seus territórios.

As pesquisas realizadas em outros países Ocidentais, Europa, Reino Unido, EUA e países latinos identificaram a presença do coronavírus também em meados de janeiro de 2020.

Na França, especialistas encontraram a presença do vírus Sars-Cov-2 a partir de análise de amostras de sangue congeladas de pacientes que foram atendidos em dezembro de 2019, e a transmissão seria comunitária, porque o paciente não teria viajado nos últimos meses.

Os autores destacam que, em todos os países analisados, a circulação da Covid-19 começou antes que fossem implementadas medidas de controle, como restrição de viagens aéreas e distanciamento social.

Outros métodos que corroboram com os dados da Fiocruz

A Fiocruz desenvolveu outros estudos e sistemas de monitoramento que corroboraram com a pesquisa. A partir dos dados do InfoGripe, sistema da Fundação que monitora anualmente as hospitalizações de pacientes com gripe, foi possível identificar que houve um aumento significativo de pacientes com Síndrome Aguda Respiratória em meados de fevereiro, se comparado com o mesmo período no ano anterior, 2019.

Outra ferramenta da Fiocruz é o MonitoraCovid-19 que, através de análise de pesquisa molecular, detectou um caso de infecção por Sars-Cov02, entre 19 e 25 de janeiro.

Palavra do pesquisador

Segundo o coordenador da pesquisa, Gonzalo Bello, pesquisador do Laboratório de Aids e Imunologia Molecular do IOC/Fiocruz,

“esse período bastante longo de transmissão comunitária oculta chama a atenção para o grande desafio de rastrear a disseminação do novo coronavírus e indica que as medidas de controle devem ser adotadas assim que os primeiros casos importados forem detectados em uma nova região geográfica”.

A conclusão é que o vírus já estava circulando há algum tempo antes da identificação do primeiro caso ou morte, numa lacuna de no mínimo 3 semanas, por isso a importância de fazer o rastreamento e ações permanentes de vigilância molecular do vírus, tanto para mapear o comportamento dele quanto para antever precocemente um possível retorno, possibilitando a adoção de medidas preventivas necessárias.

China

Agora as perguntas que não querem calar e pedem por investigação independente já: onde e como esse vírus surgiu? Em que período? Como se deu a primeira transmissão?

Tem um lapso de tempo aí que precisa ser investigado para entendermos a pandemia. O vírus poderia estar circulando na China desde outubro de 2019 ou antes? Porque ao médico Li Wenliang, que alertou sobre o surgimento de uma pneumonia estranha, o governo chinês pediu para ele e seus colegas pararem de espalhar boatos e, posteriormente, mediante sua morte, o país pediu desculpas publicamente pelo ocorrido?

O que se sabe é que, provavelmente, tudo teve início em Wuhan, onde a doença foi identificada pela primeira em 1° de dezembro de 2019, mas o primeiro caso foi reportado em 31 de dezembro do mesmo ano. O vírus, com toda probabilidade, estava circulando antes de ter sido identificado pela primeira vez na China.

Teria ele surgido de um laboratório? Do mercado de animais vivos em Wuhan? Ou, como disserem os chineses, de militares norte-americanos?

A OMS somente decretou pandemia em 11 de março. Tem um lapso de tempo aí que poderia ter evitado toda essa crise e, principalmente, poderia ter salvado vidas.

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Sobre Juliane Isler

Juliane Isler
Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher

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