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Veganofobia: por que os veganos são tão odiados?

Numa paralela constante, à medida que cresce o interesse das pessoas pelo veganismo, esse estilo de vida que vai muito além da alimentação, cresce também uma aversão, um ódio contra ele.

Algumas questões podem justificar esse comportamento por parte da população não adepta ao veganismo. Vejamos!

Por que os veganos são tão odiados?

Crueldade animal

A primeira questão que pode ser levantada é que os veganos estão aí para lembrar o tempo todo que comer carne é uma crueldade animal e isso incomoda.

Em verdade, ninguém gosta de ser lembrado e questionado que o alimento que se está comendo é resultado do sofrimento e morte de um bicho senciente.

Essa é uma verdade que incomoda e esse sentimento causa repulsa, ódio e aversão àquele que fica o tempo todo “cutucando a ferida”, como diz o ditado popular.

Incomoda porque a imensa maioria que come carne não concorda com crueldade e morte animal, o que é uma imensa loucura, um dos maiores paradoxos contemporâneos.

Carnívoros por dissociação

Já contamos aqui sobre a realização de um estudo feito pela Universidade de Oslo, Noruega, com mais de mil voluntários. O estudo é muito interessante pois fala no mecanismo psicológico das pessoas em dissociar o consumo de carne ao sofrimento animal. As pessoas simplesmente esquecem a origem da carne.

Para chegar à essa conclusão, o estudo se baseou em uma experiência prática onde em um restaurante, o menu era apresentado de duas maneiras: uma com a foto do prato de carne já pronto, e outro com a carne do animal representado vivo. Quando o menu era com a carne pronta, as pessoas escolhiam esse prato. Quando era com o animal vivo, as pessoas preferiam alimentos vegetariano ou vegano.

A conclusão foi que as pessoas não costumam associar a carne (já processada, preparada, pronta para servir) a um animal morto. Isso faz com que elas comam carne como se a carne viesse sabe-se lá de onde, mas não de um esquema cruel como é a criação de animal para abate.

Carnívoros por dissociação: a mente se recusa a associar um prato de carne a um animal vivo

Se a missão dos veganos é importunar para gerar debate, parece que o trabalho está sendo bem feito.

No entanto, no campo da psicologia, alguns estudos sugerem que as pessoas que comem carne, ainda que discordem da crueldade animal, tendem a encontrar justificativas e desculpas para seu comportamento.

Uma delas, é justamente esse ódio aos veganos, classificando-os como pessoas ruins. Sendo eles ruins, o correto é comer carne.

Uma reportagem da BBC sobre o tema, traz a informação de um estudo liderado por Julia Minson, psicóloga da Universidade da Pensilvânia (EUA), em que os participantes foram questionados sobre suas atitudes em relação aos veganos e, em seguida, solicitados a pensar em três palavras associadas a eles.

Quase metade tinha algo negativo a dizer sobre os veganos, e 45% dos entrevistados discorreram palavras bastante antipáticas com relação a eles: “esquisitos”, “arrogantes”, “militantes”, “tensos”, “estúpidos” e — por incrível que pareça — “sádicos”.

Parece que a verdadeira e principal fonte de animosidade entre veganos e onívoros, é que no fundo, esses últimos sabem e concordam com os primeiros, só não podem ou não querem admitir isso.

Consciência ambiental

Da mesma forma como acontece com a crueldade animal, incomoda, irrita e perturba a consciência das pessoas quando elas são confrontadas com o fato de seus hábitos alimentares contribuírem para a degradação ambiental.

E essa é uma triste realidade, não duvidem. O consumo de carne fomenta a destruição das matas, florestas, cerrados, tudo o que encontra pela frente.

Da mesma forma, como resposta, as pessoas costumam ficar com raiva dos veganos, porque estão a todo momento lembrando desse fato, o que causa desconforto e em alguns, e um verdadeiro ódio por conta desse discurso.

Os chatos da festinha

Happy hour do trabalho, almoço de família, churrasco dos amigos, feijoada da igreja, bacalhoada da páscoa, peru de natal, acarajé da baiana, buchada do sertão e por aí vai… Basta estar entre os presentes um vegano ou vegetariano que o cardápio tem que ser pensado, mudado, alterado para contentar a restrição alimentar.

Para piorar, como ofensa ainda maior, tem aqueles que levam sua própria comida ou marmita, até mesmo e inclusive, na casa da mãe ou da sogra.

Mas a coisa fica feia mesmo quando é festa de criança. Que terror. Que preocupação.

Tem criança quem nem vai! E tem aquelas que levam sua marmita e comem o salgadinho e doce trazidos de casa. Ou tem aqueles que acabam indo somente nas festas dos amiguinhos filhos dos amigos veganos. Não se sabe qual situação é mais triste, talvez a mais restritiva ou excludente.

De fato, essas exigências e regras – que não podem ser quebradas nunca, jamais, de nenhuma forma, sem exceção – geram um transtorno, um desconforto, situações complicadas que acabam, em contrapartida, gerando como resposta, novamente aversão e até ódio em outras pessoas.

O assunto é motivo de piada que mostra o quão “chatos” são os veganos aos olhos dos demais: “Como você reconhece um vegano em um jantar? Não se preocupe! Ele vai te contar!”

Essa necessidade de anunciar que se é vegano, como se fosse um troféu ou uma glória, pode causar irritação e até ódio nas pessoas.

Arrogância e altivez

Essa é uma linha extremamente tênue que trilha o caminho dos veganos.

Ao passo que, de fato, é elevado, é dotado de brio, é digno agir com consciência animal e ambiental, para se dizer o mínimo, porque o veganismo acaba abarcando política, feminismo, minorias, e outros temas, porém, são justamente esses predicados que podem levar à soberba e à presunção.

É comum que os veganos, não antes de discursarem, sintam-se no direito de julgar quem come carne ou não segue alguns de seus preceitos, por acreditarem serem superiores ou melhores.

Nem mesmo os vegetarianos são poupados. Dizem por aí que são até mais perseguidos pelos veganos, taxados de hipócritas.

Por óbvio, por mais correto que sejam os argumentos, esse tipo de postura não ajuda a ter empatia, pelo contrário, estimula a repulsa e o ódio do outro lado.

Seita ou religião

Com algumas exceções, veganos andam juntos, saem juntos, fazem encontros e reuniões, os amigos são em comum, criam uma comunidade, repetem o mesmo discurso e são bastante radicais.

Acabam criando bolhas e se isolando, preferindo frequentar lugares com denominações próprias que os definam, que acabam não só por excluir o diferente, mas também para informar, logo de cara, qualquer desavisado do que se trata.

Parece descrição de seita ou religião, e até poderia ser.

Veganismo é religião? O que poderia mudar se a Justiça entendesse que sim

Para apimentar ainda mais essa combinação, aos veganos, pode-se acrescentar outro atributo bem comum em seitas ou religiões, o radicalismo.

Esse talvez seja o calcanhar de Aquiles dos veganos.

Como todo radical, são extremistas, não abrem exceções, acabam por excluir e serem excluídos, o que reforça e agrava o ódio que já despertam nas outras pessoas.

O veganismo é maravilhoso, tem princípios morais, éticos, sociais, ambientais, mas as coisas poderiam ser tratadas com menos rigidez, como pouco mais de fluidez e condescendência.

O mundo não vai acabar, a moral e a ética não será derrocada, o princípio não será quebrantado, a consciência não ficará maculada, se um dia, uma ocasião, uma necessidade ou até mesmo numa festa infantil ou uma reunião familiar especial, as crianças e pessoas puderem partilhar dos mesmos alimentos, sem neurose radical.

Talvez o equilíbrio seja a palavra, existem vários motivos para não se comer carne, desde aversão ao alimento até questões morais, porém, há que haver sempre um caminho do meio, pautado no direito e respeito à liberdade e às garantias individuais.

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Sobre Juliane Isler

Juliane Isler
Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher

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One comment

  1. Avatar

    Veganismo hoje no ocidente é associado a comunismo, então tem a questão política também.
    O marxismo cultural se apoderou do veganismo. Inclusive em grupos de facebook, por exemplo, exige-se dos veganos um posicionamento esquerdista, enquanto não exigem dos esquerdistas o veganismo.

    Eu não sou esquerdista, mas sou odiado pelos direitistas assim que eles percebem que não como carne ou tenho outros valores veganos, e sou odiado pelos esquerdistas por não concordar inflexivelmente com todas as suas ideologias. Eles acham que porque eu não como carne e sou sensível ao sofrimento dos animais tenho que ser igual a eles.

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