Bacha Bazi: o drama de meninos afegãos sequestrados, abusados e forçados a se vestirem de mulher

Bacha Bazi: o drama de meninos afegãos sequestrados, abusados e forçados a se vestirem de mulher

Eles são atraídos na rua, sequestrados ou comprados por homens ricos que os forçam a dançar vestidos de mulher para satisfazer suas necessidades sexuais. São os Bacha Bazi, “os meninos para brincar”, vítimas de um tipo de pedofilia ainda tolerada no Afeganistão.

Os meninos com idades entre oito e catorze anos, são forçados a usar roupas de mulher, cantar e dançar em festas para entreter homens adultos.

Literalmente Bacha Bazi significa “meninos para brincar”, mas o seu significado verdadeiro é brinquedos nas mãos de pessoas sem escrúpulos – pedófilos – que atraem crianças e adolescentes nas ruas ou em orfanatos, ou as compram de suas próprias famílias, por conta da extrema pobreza em que vivem.

Um crime de gente poderosa

Em 2017, pela primeira vez, as autoridades locais planejavam introduzir sanções rigorosas contra esta prática muito comum especialmente no sul do país. A ideia era finalmente tipificar o crime com penas de sete anos de prisão por agressão sexual, à sentença de morte por abuso de mais de um menino.

Todo o capítulo sobre a criminalização do Bacha Bazi fora então revisado e entrado em vigor em janeiro de 2018. Um passo significativo, até porque as próprias vítimas não poderiam mais ser processadas ​​pela lei contra a prostituição ou com a acusação de homossexualidade (ambas consideradas crimes no Afeganistão).

As autoridades locais asseguravam que a nova legislação não deixaria espaço para brechas, e que a entrada em vigor das formas de escravidão sexual e de incitação à prostituição infantil, seriam severamente punidas.

Como explica Sayed Jalal Shajjan – especialista em desenvolvimento social e econômico, migração, paz e terrorismo, baseado em Cabul – a prática do Bacha Bazi foi exacerbada pela ausência de um estado de direito, um sistema de justiça fraco e a falta de vontade da comunidade internacional em combatê-lo.

As forças norte-americanas, depois de os Estados Unidos terem invadido o Afeganistão, também ignoraram o problema. Os americanos alegaram que o abuso era responsabilidade do “governo afegão local”.

Durante a Guerra Civil Afegã (1996–2001), sob as leis do Talibã, “brincar com os meninos” era crime condenável à morte. No governo pós-Talibã, não obstante a prática fosse ilegal, as leis raramente eram aplicadas porque os criminosos eram poderosos, assim os Bacha Bazi continuaram existindo.

Agora, com a tomada do Talibã no Afeganistão no último domingo (15), o crime tenderia a desaparecer pois, faz parte da história do Talibã a proibição de práticas homossexuais por incompatibilidade com a lei Sharia.

Por outro lado, em um país devastado por décadas de guerra, violências deste tipo sequer são consideradas, e poderiam estar sendo alimentadas pelo próprio Talibã, que antes de tomar Cabul permitia o Bacha Bazi nas áreas que já estavam sob seu controle. Há quem denuncie que os próprios Talibãs atraiam crianças para treinar e, uma vez na casa dos senhores ricos, estas fossem também forçadas a se tornarem “crianças-bomba“.

Uma submissão total porque nenhum dos Bacha Bazi teria a coragem de denunciar o seu carrasco, e a razão disso é muito simples: eles poderiam ser acusados ​​de homossexualidade, um crime também punível com a pena de morte.

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Quem são as pessoas que tiram vantagem de crianças inocentes?

Comandantes de polícia, militares, políticos e membros de famílias muito ricas.

Manter um Bacha Bazi é símbolo de bem-estar, os meninos são escravos da propriedade, vestidos com roupas de mulher, maquiagem e tudo o mais.

Até então, ninguém tinha tido a coragem de se opor contra eles, nem mesmo as famílias das vítimas, pobres demais e submetidas a uma condição paradoxal e repugnante denunciada em 2010 pelo jornalista Najibullah Quraishi no documentário “The dancing boy of Afghanistan”.

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Aos 18 anos os Bacha Bazi são libertados, mas depois de anos de violência que marcaram suas vidas para sempre, o futuro deles é de exclusão social e discriminação.

Veja parte do documentário no vídeo abaixo e clique aqui para ver o filme completo.

Mas é de se avisar antes que o filme é uma tristeza única e contém cenas fortes.

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Fonte foto capa: Protothema

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