Racismo institucional e genocídio autorizado de indígenas. Petição #ForaGarimpoForaCovid

Os povos indígenas estão desesperados e imploram pela atenção do governo.

“O governo está promovendo um racismo institucional dos povos indígenas e isso pode se transformar num genocídio autorizado”.

Essa foi a afirmação da coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, Sonia Guajajara, em entrevista ao podcast Geração P.

Na entrevista ela traz muitas informações e dados sobre o avanço da Covid-19 entre os povos indígenas e avalia o papel do governo federal no enfrentamento da pandemia. Ela informa também o que a APIB está fazendo como medida de prevenção e contingenciamento e apoio aos índios.

Índices de contaminados e mortos

846 contaminados e 121 óbitos de indígenas computados até 26 de maio. A maioria na região Amazônica, 89 só no estado do Amazonas, primeiro Manaus, seguido de Pará, Amapá e Roraima.

A letalidade entre os povos indígenas representa 14,3%, enquanto entre os não indígenas, o índice de letalidade é de 6,5%.

Esse recorte de mortes mostra que o índice mais que dobra entre os indígenas se comparado ao índice dos não indígenas. Estudiosos apontam que os números estão aumentando e que a tendência é que o “pico” se dê a partir da metade de junho.

O momento é muito preocupante e não tem ações concretas do governo federal para combater a pandemia.

Avaliação da atuação do governo federal

Todos estão muito preocupados com atual situação do Brasil. Embora sejam históricos os ataques, a violência, as invasões de terras, desde 2019 esses atos ilegais e criminosos aumentaram muito e não houve ações do governo federal no mesmo patamar dos ataques, sendo omisso e negligente em muitos casos.

O aumento desses crimes, trouxe junto o risco da transmissão da Covid-19.

Uma agente de saúde do povo Kokama, no estado do Amazonas, foi o primeiro caso de contaminação de um índigena no Brasil. Na ocasião, não foi notada nenhuma ação concreta do governo, não foi instalada sequer uma barreira sanitária para evitar a contaminação e o resultado foi a morte de 40 pessoas do povo Kokama, até hoje.

É um risco de genocídio porque não foi instalada barreiras ou fomentadas medidas preventivas ou apresentado um plano de ação por parte do governo. Os povos indígenas estão negligenciados por conta da omissão do governo.

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O que a APIB está fazendo

Para tentar combater a pandemia, o movimento indígena realizou em abril o acampamento “terra livre” online para debater medidas e ações, e na sequência, realizou assembleia da resistência indígena para elaboração de um plano nacional de enfrentamento.

Trata-se de um plano da APIB que consta medidas emergenciais, medidas legislativas, judiciais, fortalecimento da rede internacional e comunicação, para atingir não somente os povos indígenas, mas também alertar a população em geral dos riscos que a comunidade enfrenta.

Dentre as medidas, restaram apontadas as seguintes necessidades:

  • orientação urgente para criação de bloqueios das aldeias
  • evitar visitas
  • usar equipamentos de proteção como máscaras e álcool em gel ou água e detergente
  • cuidados com higienização
  • adoção de ações efetivas para isolar doentes e
  • utilização dos serviços de saúde, por causa da distância de hospitais e consultórios médicos.

Mortos não esquecidos

A APIB faz também um levantamento diário de como a pandemia vem afetando os índios. Essa necessidade surgiu, porque a Secretaria Especial de Saúde Indígena – SESAI, nega-se a notificar os casos de indígenas que não vivem em território indígena, omitindo os casos dos índios que moram na região urbana.

Por causa disso, está ocorrendo enorme discrepância entre os números oficiais apresentados pela SESAI de mortes e infectados pela Covid-19 e os números obtidos pela APIB e outras entidades de apoio a causa indígena.

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É uma forma de registrar esses casos e, a partir daí, exigir um atendimento igualitário. Além disso, a APIB teme que os indígenas mortos pela Covid sejam esquecidos. Por essa razão, esse levantamento deverá servir como um registro histórico em memória dos mortos.

Subnotificação dos povos indígenas

Pode-se dizer que hoje ocorre uma repetição histórica da chegada de uma doença que pode dizimar uma tribo ou comunidade inteira.

A APIB entende que a subnotificação dos casos

“é a arma que está sendo utilizada pelo governo para esconder toda a negligência aos povos indígenas”.

Para os povos indígenas, pandemia é desequilíbrio ambiental

Os povos indígenas, por suas diferenças culturais, possuem percepções diferentes acerca de uma pandemia.

Embora sejam inúmeras etnias, o que todos os povos indígenas possuem em comum? A leitura que eles fazem sobre o surgimento da doença.

Todos acreditam que doenças que surgem a partir de um vírus, possuem sua origem diretamente ligada ao desequilíbrio ambiental e afetação do ecossistema.

“É uma resposta da Terra pela forma de uso altamente predatória que o ser humano impõe à natureza”.

No final, Sonia se mostra otimista, acreditando que a pandemia trará lições aos seres humanos e que, a maioria, deverá perceber como somos dependentes e interligados, sendo absolutamente necessário desenvolver a empatia e a solidariedade e principalmente conscientização sobre a necessidade do melhor uso dos recursos naturais e desenvolvimento de novas formas de consumo.

Petição #ForaGarimpoForaCovid

Madeireiros, grileiros e garimpeiros não fazem home office, ao contrário, aproveitam da pandemia para avançarem em seus projetos de exploração de riquezas em terras indígenas, aumentando o contato e propagando a doença por onde passam.

Por isso, o povo Yanomami implora apoio e atenção da população e dos governantes. Eles criaram uma campanha chamada #ForaGarimpoForaCovid de iniciativa de suas lideranças. A campanha também conta com uma petição pública online para pressionar o governo. A meta é atingir  200 mil assinaturas.

“Nós, Yanomami, não queremos morrer. Ajude-nos a expulsar os mais de 20 mil garimpeiros que estão espalhando a Covid-19 em nossas terras.”

Assine AQUI a petição

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Sobre Juliane Isler

Juliane Isler
Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher

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