Eles não fazem home office: garimpeiros e grileiros seguem degradando a Amazônia (e os indígenas)

Já se somam três mortes de índios na região amazônica, vítimas do novo coronavírus. E estas mortes têm a ver com a invasão de suas terras por grileiros, fazendeiros, madeireiros e, principalmente, por garimpeiros.

Segundo nota da Funai, a primeira morte aconteceu na noite de quinta-feira, dia 9, de um adolescente indígena de apenas 15 anos, Alvanei Xirixana Pereira, morador da Comunidade Boqueira, oriundo da Comunidade Rehebe e havia passado um período na Comunidade Boqueirão, quando teria apresentado os primeiros sintomas. A funai informou que equipes de saúde já ingressaram no local para auxiliar no mapeamento daqueles que mantiveram contato com o jovem, além de realizar o isolamento do grupo para melhor acompanhamento.

Na noite de sábado, dia 11, a Funai confirmou mais duas mortes de indígenas em Manaus, capital que enfrenta uma forte elevação no número de infectados com a doença. Trata-se de um indígena da etnia tikuna, de 78 anos, e de uma indígena Kokama, de 44 anos.

Segundo dados do governo, há mais seis casos confirmados de contaminação. A Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Governo Federal, orientou indígenas a evitarem deslocamentos das aldeias a centros urbanos, assim como não permitirem a entrada de pessoas externas em suas terras.

Garimpeiros no território Yanomami

Segundo Paulo Basta, pesquisador da Fiocruz, existe forte indício do adolescente indígena ter sido contaminado por causa da ação dos garimpeiros e que, atualmente, possui 20 mil garimpeiros ilegais atuando no território Yanomami.

A situação assim, torna-se cada vez mais preocupante, principalmente com os povos indígenas que vivem em territórios invadidos por grileiros, fazendeiros, madeireiros e, principalmente, por garimpeiros. Esse pessoal, como alertou o biólogo Paulo Moutinho, não faz home office.

A presença de invasores ameaça centenas de comunidades indígenas de contágio pelo coronavírus, que estão muito apreensivas com a situação.

Além da condição especial dos indígenas, que, isolados, não desenvolvem imunidade para vírus e bactérias circulantes em áreas não isoladas, tornando-os extremamente vulneráveis, pior quando se trata de um vírus altamente poderoso e sem alternativa farmacológica de cura, mas também porque a cultura de compartilhamento dos locais onde vivem, dormem, cozinham, também dificulta o isolamento dos índios. Casas compartilhadas, utensílios que circulam entre várias pessoas e a dificuldade de acesso à itens como sabão e álcool em gel tornam o combate ao vírus muito mais complexo nessas comunidades.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), no final de fevereiro, os indígenas, que estão recebendo informações sobre a Covid-19, já estavam preocupados com o avanço e chegada da doença, e os Yanomami, em Roraima, incendiaram um helicóptero e prenderam os seus ocupantes, ligados ao garimpo clandestino. No início de março, os Kaiapó, no Pará, rebelaram-se contra chefes dos garimpeiros e exigiram a imediata retirada deles.

Segundo informa o ISA, na fronteira do Brasil com a Venezuela, o território Yanomami é a maior terra indígena do país, com área equivalente à de Portugal, vivendo cerca de 26 mil membros dos povos yanomami e ye’kwana, distribuídos em 321 aldeias. O território sempre foi alvo de garimpeiros porque é sabida a existência de ouro na região, desde a década de 1970.

O Instituto também informa que o garimpo já degradou 114 hectares de floresta, o equivalente a 114 campos de futebol, só no mês de março e 2020.

Em nota, o ISA afirma que os povos indígenas estão a mercê de cerca de 20 mil garimpeiros que entram e saem do território sem nenhum controle e que isso é o principal vetor da Covid-19 na terra Indígena Yanomami que, assim como outros grupos, devem ser urgentemente protegidos, sob risco da ocorrência de um genocídio indígena.

Diante do agravamento da situação das invasões e a escalada da pandemia em todo o Brasil, a situação demanda resposta rápida e extraordinária dos órgãos federais e autoridades responsáveis.

Megaoperação para afastar invasores

O Governo Federal informou que montou uma megaoperação para afastar invasores das terras indígenas.

A operação percorreu três terras indígenas no sul do Pará onde vivem cerca de 1.700 índios. Os fiscais cumpriram 14 dias de quarentena preventiva antes de irem para o local e seguem à risca o protocolo sanitário, principalmente quanto à necessidade de não manter contato com os índios.

Em matéria exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, é possível verificar que os garimpeiros fogem assim que notam a presença do helicóptero dos fiscais do IBAMA. Pelo ar, eles localizam e prendem os garimpeiros ilegais. Por terra, eles destroem pontes de acesso na mata e colocam fogos em equipamentos, principalmente retroescavadeiras e outros utilizados nos garimpos. Os fiscais do IBAMA também encontraram armas e munição, além de animais silvestres presos possivelmente para comércio ilegal.

Degradando a Amazônia e os índios

O estrago ambiental já foi feito, e eles estão cada vez mais próximos das aldeias indígenas isoladas.

Imagens de satélite mostram que garimpeiros estão ampliando suas operações dentro da Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, mesmo durante a pandemia do novo coronavírus.

Na reportagem do Fantástico, um fiscal do Ibama  relata que o aumento das invasões pelos garimpeiros ocorreu porque possivelmente eles acharam que ia haver um relaxamento da fiscalização por causa do novo coronavirus.

Nesse momento, a única solução é o isolamento total dos povos.

Segundo a nota da Funai a Fundação em apoio às comunidades, seguirá os protocolos de contingenciamento junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena e aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas, além de fornecer o necessário, como alimentação e combustível, para facilitar o atendimento das equipes de saúde no monitoramento dos sintomas e evitar que os indígenas saiam das aldeias.

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