51 mil indígenas Guarani e Kaiowá à beira de um genocídio

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Os Conselhos Tradicionais Guarani e Kaiowá escreveram uma carta aberta anunciando que os índios estão “diante de mais um massacre anunciado com a chegada do Covid-19 em nossos Tekohás (Territórios indígenas) e apelamos pela nossa sobrevivência”.

São cerca de 51 mil índios Guarani e Kaiowá, a segunda maior população indígena do Brasil, localizados no estado do Mato Grosso do Sul.

Na carta, eles reforçam que já foram mais de 500 anos de massacres, doenças, violência e o medo persiste, principalmente, porque restam poucos anciões que guardam o conhecimento tradicional, e hoje a vida deles corre risco novamente.

A Covid-19 tem avançado sobre o maior Distrito Sanitário Especial Indígena, DSEI, onde cerca de 70% são Guarani e Kaiowá e, em três dias de testes, no dia 16 de maio, na Reserva Indígena de Dourados (RID), a mais populosa do Brasil, foram confirmados 10 casos positivos de coronavírus na comunidade.

É urgente que medidas sanitárias sejam tomadas, com barreiras para bloquear todos os acessos aos territórios.

Será que alguém será responsabilizado? Perguntam os índios.

Eles se sentem totalmente abandonados pelo Governo Federal, a Secretaria Especial de Saúde Indígena não consegue atender a demanda que é parcialmente suprida pela rede municipal de atendimento.

Os indígenas informam que os munícipios já estão fragilizados e sobrecarregados e não tem qualquer condição de atender a comunidade, que necessita de isolamento e atendimento especial e específico, e o sistema de saúde comum não tem as diretrizes e recursos para isso.

Eles imploram pelo fortalecimento do sistema de saúde municipal e oferta de leitos, além de plano de ação preventivo e fornecimento de equipamentos de proteção através da secretaria especializada de Saúde Indígena.

Eles terminam afirmando que não se trata de uma questão de saúde, é um genocídio!

A carta Guarani Kaiowá não pertence de modo algum ao campo do ficcional, é um documento real e, sobretudo, um documento traumático do real e que pode entrar para a história não só como um pedido urgente de socorro, mas, inclusive, para a literatura histórica.

É muito grave o que vem ocorrendo no Brasil.

Leia a carta na íntegra:

Nós, Conselhos tradicionais Guarani e Kaiowá Aty Guasu (assembléia Geral do Povo Guarani e Kaiowá), Kuñangue Aty Guasu (Grande Assembléia das Mulheres Guarani e Kaiowá), RAJ (Retomada Aty Jovem), Aty Jeroky Guasu (Assembleia geral dos Nhanderus e Nhandesys) viemos através desta carta anunciar que estamos diante de mais um massacre anunciado com a chegada do COVID-19 em nossos Tekohás (Territórios indígenas) e apelamos pela nossa sobrevivência.

Somos aproximadamente 51mil Guarani e Kaiowá, a segunda maior população indígena do Brasil, localizados no estado de Mato Grosso do Sul, e nos encontramos em Estado de Emergência. São 520 anos de massacres, doenças que a violenta experiência de colonização nos trouxe no Brasil. Nos restam poucos anciões que guardam o conhecimento tradicional, a vida deles e da comunidade estão em risco, e junto a perda da história de um povo. Quem será responsabilizado pela morte do nosso povo?

Em três dias de testes, a Reserva Indígena de Dourados (RID), a mais populosa do Brasil, hoje (16 de maio de 2020) confirmam 10 casos positivos de coronavírus na comunidade. Todos os territórios Guarani e Kaiowá estão sob alerta montando barreiras sanitárias, bloqueando todos os acessos aos territórios. Os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena apontam casos suspeitos em vários territórios Guarani e Kaiowá, para além das “subnotificações” em todo o Brasil.

As condições de moradia nas aldeias não permitem o isolamento domiciliar, favorecendo a transmissão em larga escala e rapidamente, e sendo a COVID-19, uma doença de alta letalidade precisamos urgentemente de pontos de apoio para isolamento dos pacientes confirmados.

Estamos diante do maior DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) do Brasil, e 70% dos usuários são Guarani e Kaiowá, e com o avanço do coronavírus nas aldeias, de acordo com o boletim epidemiológico da SESAI, a cidade de Dourados com poucos leitos disponíveis, não terá suporte para tantos indígenas infectados. A Secretaria Especial de Saúde Indígena necessita de fortalecimento URGENTE para enfrentar essa pandemia.

Os municípios encontram-se fragilizados, e mesmo assim o desejo do Governo Federal é de municipalização da saúde indígena. A situação da Covid-19 só demonstra a insuficiência dos municípios em dar conta da saúde dos povos indígenas em seus territórios, de forma que nem rede de urgência e emergência consegue disponibilizar nas aldeias mais distantes dos espaços urbanos.

As redes de contato dos casos confirmados estão sendo avaliadas para rastreio e intervenção. O caso traz preocupação considerando que Dourados possui a maior população indígena deste grupo do Estado, totalizando 17,3 mil indígenas. Toda equipe de saúde está trabalhando para conter o avanço da doença, e a partir destes primeiros casos registrados o plano de ação da saúde indígena passa para a segunda etapa, na qual será feita ampla testagem na população indígena. A SESAI faz o cuidado específico em nível de atenção básica, necessitando de forma urgente da corresponsabilidade e compromisso dos demais níveis de atenção da rede SUS (Sistema Único De Saúde).

Nós Aty Guasu, Kunangue Aty Guasu, RAJ e Aty Jeroky Guasu viemos solicitar o atendimento diferenciado especifico para indígenas, uma organização URGENTE da rede de urgência e emergência segura, respeitando as especificidades do nosso povo: ambulâncias, leitos, alternativas de isolamentos possíveis para a comunidade, proteção aos trabalhadores em contatos familiares, EPI’s e vagas em cemitérios.

Todas doações de ajudas humanitárias de sobrevivência serão bem-vindas: alimentos, máscaras de três camadas de tecido de algodão, produtos de higiene para as comunidades, caixas d’aguas para armazenamento, e sementes para o plantio em nossas roças.

Recomendamos a toda comunidade Guarani e Kaiowá que fiquem em seus Tekohas, que toda a liderança tenha a responsabilidade do bloqueio sanitário de todos os acessos de entradas aos territórios indígenas para manter a saúde do Povo Guarani e Kaiowá, permitindo apenas a entrada de trabalhadores da Saúde e ajudas humanitárias.

Agradecemos cada apoio e cumprimentamos a todos os profissionais que estão a frente dessa Pandemia Coronavírus. Somos solidários (as) às todas as famílias em luto.

Não é só uma crise de saúde, é o genocídio do nosso povo, é um tratamento desumano e racista contra as nossas vidas. É URGENTE! Pedimos SOCORRO!

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Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher
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