E se o Coronavírus infectar granjas e abatedouros?

A notícia de uma tigresa infectada pelo novo coronavírus no Zoológico do Bronx, em Nova York, lança mais incertezas em relação aos desdobramentos dessa pandemia no futuro.

Ontem (6), a instituição declarou que o animal – um tigre malaio fêmea de quatro anos que atende pelo nome de Nadia – testou positivo para a Sars-Cov-2, tendo provavelmente sido contagiado por um cuidador, quando este ainda estava assintomático.

De acordo com as informações da AFP, embora esse seja o único caso positivo até agora, seis outros felinos do local desenvolveram tosse seca: dois tigres de Amur, três leões africanos e outro tigre malaio fêmea, Azul, irmã de Nádia.

“Testamos o felino com muita cautela e garantiremos que qualquer conhecimento que adquirirmos sobre a COVID-19 contribuirá para a contínua compreensão mundial desse novo coronavírus”, disse em comunicado à AFP a Sociedade de Conservação da Vida Selvagem, que administra os zoológicos de Nova York.

Ainda segundo o texto, a instituição afirma que os animais estão alertas e interagindo bem com seus cuidadores, mas permanecem sob cuidados veterinários e sendo monitorados.

Infecção de pets e problemas sanitários à vista

Até então, quatro casos de infecção haviam sido detectados entre animais, todos domésticos: dois cães e um gato em Hong Kong, além de um gato na Bélgica, contraíram o coronavírus de seus donos.

Como ressaltou o site italiano Il Messagero, a infecção de pets revela um novo front no combate ao coronavírus, despertando as autoridades para o que pode vir a se tornar um problema de difícil gestão para a saúde pública: a necessidade de administrar a infecção não só entre animais domésticos, mas também no setor pecuário.

Embora esses animais não sejam identificados como transmissores até o momento, virologistas alertam para o fato de que o vírus pode vir a se alojar em novas espécies, criando um foco de reinfecção de pessoas no futuro.

“À medida que o vírus se espalha pelo mundo, ele pode encontrar hospedeiros de reservatórios totalmente novos [fora da] China”, declarou à National Geographic o virologista Ralph Baric, da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. “Nós não sabemos. É algo em que todos os países precisam pensar à medida em que a epidemia for se amenizando.”

Propagação de doenças do setor pecuário

Uma reportagem publicada em janeiro pelo jornal britânico The Guardian já havia chamado a atenção para o enorme potencial propagador de doenças do setor pecuário, sobretudo devido à prática de exportação de rebanhos, capaz de fazer com que um vírus local se dissemine rapidamente mundo afora.

Para o ecologista Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, os animais com os quais humanos têm maior contato são os mais suscetíveis de contrair o coronavírus. O especialista integrou uma equipe que, em 2017, alertou para a presença de vários vírus tipo SARS em uma caverna de morcegos no sul da China.

matadouro

A melhor maneira de monitorar o problema, segundo Daszak, seria realizar testagens estratégicas em espécies-chave, muito embora ele tenha admitido que existe uma probabilidade mínima de que o coronavírus salte de humanos para retornar a uma espécie animal.

Mas, como se vê pelas últimas notícias, esse salto já é realidade.

Para a virologista italiana Ilaria Capua, residente nos Estados Unidos a serviço da One Health Center of Excellence na University of Florida, com o primeiro contágio da Covid-19 em um gato, o retorno das infecções aos animais não só é possível como preocupante:

“Sendo um vírus de origem animal, agora ele volta a infectá-lo. Dessa forma, seria também necessário monitorar a infecção em animais, tanto domésticos quanto os espécimes felinos e os usados para abate e consumo. E este será um enorme problema de gestão da saúde pública“, disse a especialista em uma entrevista ao Il Messagero.

Talvez te interesse ler também:

Consumo de carne e doenças: mais um motivo para rever seus hábitos alimentares

Campanha global pelo fechamento dos mercados de animais vivos. Assine a petição

Como a criminalidade está se reorganizando para evitar queda de lucro com o coronavírus

Sobre Daia Florios

Daia Florios
Ingressou no curso de Ecologia pela UNESP e formou-se em Direito pela UNIMEP. É fundadora e redatora-chefe em GreenMe Brasil.

Veja Também

produção de frango

Desmatamento: frangos alimentados de soja do Cerrado vendidos no Reino Unido

Grandes varejistas do Reino Unido, supermercados e redes de fast food, como Tesco, Lidl, Asda e …