Vai faltar leito: o coronavírus é real

Agora que o coronavírus desembarcou no Brasil, o que podemos esperar?

Não se sabe, ainda, como o vírus se comportará em terra brasileira, mas o certo é que o número de casos vem aumentando de forma exponencial, assim como no resto do mundo.

Após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar esta semana que o novo coronavírus se transformou em uma pandemia, o alerta em todos os países do mundo é quanto ao colapso de seus sistemas de saúde.

O que o Ministério da Saúde está fazendo é certo?

Felizmente, aqui no Brasil temos saúde pública e um sistema que, apesar de todas as críticas que podem ser feitas a ele, funciona com profissionais capacitados. O Ministério da Saúde, antes mesmo de o coronavírus alarmar a população brasileira, já vinha seguindo as recomendações da OMS e atuando de forma preventiva.

Entretanto, os especialistas ouvidos por El Pais apresentaram algumas divergências em relação à atuação do Ministério da Saúde. Um dos críticos da pasta é o virologista Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, que, em um artigo publicado na Folha de S. Paulo, diz que o coronavírus pode matar cerca de 250.000 pessoas no Brasil se não for devidamente contido. Para o especialista, o país está perdendo tempo em não alertar a população sobre a necessidade de evitar o contato social, o único caminho para evitar a propagação rápida da doença.

Por outro lado, o infectologista Guilherme Henn, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, acredita que o efeito colateral de evitar a exposição social pode aumentar o tempo de transmissibilidade do coronavírus, pois a população ficaria sem contato com ele e, portanto, não criaria defesas naturais.

Nesse mesmo sentido, o infectologista Juvêncio Furtado analisa que o Ministério da Saúde está agindo com cautela, pois é preciso primeiramente entender o problema para depois reagir a ele. O Brasil tem clima tropical e dimensões continentais, logo uma medida a ser tomada nas regiões Sul e Sudeste talvez não seja a mesma a ser adotada no Norte, por exemplo. O especialista avalia que o SUS, por ter uma ampla capilaridade, tem total condições de atender os infectados – a não ser que haja uma transmissão fora de controle.

A BBC News Brasil entrevistou o infectologista Marcos Boulos, do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), para entender melhor os riscos que chegam ao Brasil e como o país deve se preparar para lidar com eles.

De acordo com Boulos, a primeira medida a ser notada será o fim da burocracia da entrada de medicamentos no país, que são barrados na alfândega, pois, quando se declara uma pandemia, significa que todos os países do mundo estão no mesmo barco.

“Hoje, a vigilância serve para todas as pessoas e deixamos de fazer buscas individualizadas. Tratamos todas as pessoas como possíveis contaminados”, explicou o infectologista.

Escolher quem curar

Uma situação como essa causa um colapso nos sistemas de saúde, por melhor que ele seja. Nenhum país está efetivamente preparado para uma pandemia. É o que está acontecendo na Itália, onde o número de casos confirmados ultrapassou os 15 mil e já foram registradas mais de mil mortes. As equipes de saúde ali estão fazendo escolhas difíceis: “escolhemos quem curar“. Ou seja, o tratamento está sendo aplicado de acordo com a chance de sucesso, isto é, a idade do paciente, se ele tem outras doenças, a gravidade do seu estado e a possibilidade de reverter o seu quadro clínico.

Isso porque, se o vírus causar insuficiência respiratória no paciente, além de o procedimento de intubação para ventilação dos pulmões ser invasivo e durar semanas – o que precisaria de um bom estado de saúde do paciente para poder suportar a intervenção – a questão é saber se os sistemas de saúde possuem maquinários e pessoal suficiente para atenderem a alta demanda que o vírus pode requerer para a reanimação dos enfermos.

Pode faltar leito! Se na Itália está faltando, não podemos imaginar o que aconteceria em países com sistemas de saúde mais frágeis.

Escolas fechadas, eventos cancelados

No Brasil, em breve, veremos eventos serem cancelados, a fim de evitar aglomerações de pessoas. Boulos alerta que os governos federal, estadual e municipal já podem tomar medidas nesse sentido, como já vem sendo feito na França. O Paris Saint-Germain, time do jogador brasileiro Neymar, vai jogar uma partida com portões fechados.

No início de abril, o Brasil vai receber um evento de grande porte, o Lollapalooza, que pode ser adiado caso o governo queira – o que seria, aliás, uma atitude responsável, já que as pessoas devem evitar qualquer reunião com mais de 50 pessoas.

Algumas universidades já estão estudando adiar o início do ano letivo para evitar aglomerações. Segundo a Folha de S. Paulo, a USP e a Unesp ainda não adotaram a medida, enquanto a Unicamp está estudando se volta atrás em sua decisão de suspender as aulas até 29 de março. Entretanto, as viagens de servidores da instituição foram provisoriamente canceladas.

Boulos adverte que a taxa de mortalidade do coronavírus será altíssima e que, ainda, não se sabe como o vírus se comportará futuramente. Pode ser que ele se torne menos grave, como aconteceu com o H3N2, responsável por uma pandemia em 1968, e o H1N1, em 2009.

Pecar por excesso

O professor e virologista da UFMG Flávio da Fonseca disse ao G1 que “temos que pecar por excesso e não por falta”. O especialista integra o grupo de pesquisadores convocado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações para ajudar na detecção e diagnóstico do coronavírus.

“A gente acompanha a evolução do vírus no mundo inteiro, e a capacidade de dispersão é muito elevada. Em outros países, o vírus se espalhou de forma intensa. Não tem como pensar que no Brasil será diferente. Deve se alastrar rapidamente”, adverte Fonseca.

O centro tecnológico de vacinas da UFMG (INCT-Vacinas), no qual Fonseca trabalha, é referência no teste de diagnóstico chamado sorológico, que consegue atender e diagnosticar com rapidez um grande número de pessoas, como é feito nos casos de dengue.

“Pessoas vão gripar e vão ir atrás de diagnóstico. O sistema público e privado precisa gerar condições rápidas de resultado. A situação angustiante é porque o tempo é curto. Precisaríamos de meses para a pesquisa. Estamos trabalhando na pressão”, informa o especialista.

Leitos insuficientes

Num cenário de pandemia, nenhum sistema de saúde está preparado. Ele funciona para demandas rotineiras, e não emergências desse porte. Quando chega uma pandemia, o trabalho é feito no sentido de minimizar os problemas, esclarece Boulos.

E não interessa se uma pessoa tem plano de saúde, porque os hospitais privados começarão a ter filas de horas. Será preciso criar uma estrutura para aumentar os leitos de UTI para acelerar os atendimentos, sobretudo, para os idosos. Todas as cirurgias programadas serão canceladas na rede privada, que já foi acionada pelo Ministério da Saúde.

Para tentar reduzir o colapso do SUS, critérios terão de ser estabelecidos, como o atendimento prioritários a casos considerados mais graves. Nesse sentido, a população também precisa ter bom senso.

O Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo fez uma reunião com especialistas para esclarecer as equipes sobre o coronavírus. Eles recomendam que as pessoas idosas evitem qualquer tipo de exposição, porque a mortalidade é maior nesse grupo, assim como homens maiores de 65 anos e fumantes.

Somente na grande São Paulo, a previsão é de que haja 45 mil casos nos próximos 4 meses. Não há leitos suficientes para todos os pacientes infectados pelo corona, nem respiradores para atender tamanha demanda. Os pacientes precisam usar o equipamento o quanto antes, inclusive porque ele evita a contaminação. A média de tempo para a recuperação mecânica dos pacientes é de 3 semanas.

A expectativa é de que o auge da contaminação tenha duração de 3 a 4 meses, conforme aconteceu na China, onde o número de casos tem diminuído. Tanto o país oriental quando a Itália fizeram uso de medidas drásticas para enfrentar o coronavírus. Então, temos, também, que nos preparar para elas.

Mudança de paradigma

A pandemia provocada pelo coronavírus pode deixar, mais do que pânico, uma lição para a humanidade: não importa a sua condição social, seu gênero, sua sexualidade, sua nacionalidade, pois o vírus não se importa com isso. Qualquer um pode ser uma vítima dele.

Já é evidente a recessão econômica global que o vírus está provocando: as bolsas de valores do mundo todo despencando, dólar subindo, serviços deixando de ser oferecidos, enfim, a economia mundial foi atingida em cheio pela pandemia, que está forçando as pessoas a adotarem novos hábitos, que passam longe dos padrões de consumo a que as sociedades capitalistas contemporâneas se acostumaram.

A especialista em previsão de tendências Li Edelkoort disse ao Deezen que essa é uma importante oportunidade para a humanidade redefinir os seus valores, visto que o coronavírus está promovendo uma “quarentena de consumo”, provocando um profundo impacto cultural e econômico. Como as pessoas estão deixando de viajar e estão consumindo menos, o vírus está interrompendo as cadeias globais de produção e distribuição de mercadorias.

Diante do caos social e de uma iminente ameaça de morte, é preciso se (re)descobrir outros hábitos e valores: ler um livro, estar em casa em companhia da família, ver a paisagem da janela ou a tempestade que se aproxima. Até o tempo da vida – sempre tão acelerado – muda.

Edelkoort destaca como até o ar, na China, mudou em dois meses: imagens mostraram que o céu estava mais limpo e menos poluído, visto que as emissões de carbono e a poluição causada pela indústria chinesa diminuíram desde que o vírus chegou ao país.

“Isso significa que o vírus mostrará como a desaceleração e o desligamento podem produzir um ambiente melhor que certamente será visível em larga escala”, assevera.

Se não perdermos a memória, quem sabe do caos pode irromper um pouco mais de beleza para o mundo, que, muito antes da propagação do coronavírus, já havia entrado em colapso mas ninguém parecia ver. Seria a nossa oportunidade de repensar um novo sistema e um novo modus vivendi.

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Sobre Gisella Meneguelli

Gisella Meneguelli
É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.

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