Ocupação das escolas e gestão pública de conflitos: um erro de interpretação

Nos últimos dias a dinâmica das ocupações nas escolas no Estado de São Paulo tem se acirrado: como o atual Secretário da Educação Herman Jacobus Cornelis Voorwald não conseguiu estabelecer um diálogo que levasse a uma solução racional entre as demandas dos estudantes e a proposta de reorganização os “diálogos” têm sofrido um progressivo aumento em sua agressividade.

O ponto inicial dessa fase mais delicada teve seu início no dia 29/11/2015 com a divulgação da gravação de uma reunião realizada entre o chefe de gabinete da Secretaria Estadual de Educação, Fernando Padula, com os dirigentes regionais do ensino. Nessa reunião, com ares de conferência militar, termos como “guerra” e “guerrilha” foram utilizados.

Tal áudio causou, além de indignação e dúvidas sobre a competência dos gestores à frente da pasta da educação, uma expansão das reinvindicações para as ruas. Esses eventos têm tido duas fases consecutivas de modo geral: os estudantes fazem passeatas ou trancamentos das vias de forma pacífica, tentando tornar seu movimento mais visível, e as forças públicas vão até os locais e os tiram de maneira agressiva, como estivessem lidando com adultos que cometeram algum tipo de crime.

Além disso, várias escolas têm relatado em páginas do Facebook, entre outras, como O Mal-Educado e Não Fechem Minha Escola, relatos repugnantes de violência: que não causam nojo pela violência em si, mas por ela parecer ter se tornado uma ação sistemática.

Claro que abusos já estavam sendo cometidos: relatos de homofobia como forma de coação, ameaças de expulsão e impedimentos de completar o ano letivo, trancamento de alunos por diretores, corte de água nas escolas ocupadas, indivíduos alegando serem do conselho tutelar para conseguir acesso às unidades escolares e ali cometerem atos de agressão verbal, advertência de corte de ponto aos funcionários das Unidades Escolares suspeitos ou não de apoiarem o movimento, agressões físicas a docentes (que deixaram além das sequelas físicas, abalos psicológicos em alguns), entre outros.

A questão é que após o anúncio, escolas ocupadas têm sido, sim, invadidas (como diz o jargão adotado pelas forças contrárias aos estudantes secundaristas) por desordeiros alienígenas à comunidade escolar apresentando-se como “pais preocupados”, e que, depredam o patrimônio público outrora administrado com competência pelos alunos que ali ocupavam, com a conivência de diretores e de policiais militares presentes nesse locais, demonstrado por inúmeras gravações “viralizadas” em redes sociais.

Numa dantesca piada digna de um episódio da série animada Os Simpsons, alunos que estavam praticando seu dever/direito de cuidarem de sua primeira grande instituição pública, a escola, depois de tentarem reorganizá-la, pintá-la, estabelecer atividades culturais, abri-la (de fato) para as famílias, foram convidados ferozmente a se retirarem de sua cidadania e só retornarem quando tiverem restituído seu estado apático e divorciado do valor da razão como forma de desenvolvimento metódico para o alcance de suas potencialidades.

É esse sistema que o Secretário da Educação disse em entrevista no dia 25 de novembro que se envergonhava. Então porque ele está tão reticente a negociar?

Propostas não foram enviadas disse o chefe de gabinete da Secretaria Estadual de Educação, Fernando Padula, mas pelo menos uma escola, EEPSG Sinhá Pantoja, localizada na Zona Sul da capital paulista, e que teve o maior IDESP do estado em 2013, e o terceiro melhor em 2014, entregou uma contraproposta a seu fechamento. O Chefe de Gabinete parece estar desatualizado em sua fala.

Talvez esse seja o grande erro nessa fase da chamada reorganização: Fernando Padula, Chefe de Gabinete do atual Secretário da Educação, Herman Jacobus Cornelis Voorwald, entende de “gestão de conflitos” ao pé da letra: para ele “gestão” não significa gerir, mas sim fazer nascerem conflitos.

Lamentável.

Colaborou neste texto André Oliveira, professor do ensino médio no Estado de São Paulo e Mestre em História Social pela USP.

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Fonte foto: Território Livre