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Inveja masculina: ela existe é mais comum do que você imagina

Talvez você nunca tenha ouvido falar na expressão inveja masculina. Ela pode parecer estranha à primeira vista e a razão disso é que a inveja sempre foi um sentimento associado às mulheres.

O fato de a inveja estar associada às mulheres trata-se de uma estratégia sexista que as coloca em um lugar de inferioridade em relação aos homens, uma vez que a mulher – o ser da falta – estaria sempre em busca de algo que não lhe pertence para ser completada. Nesse sentido, a inveja não faria parte do universo emocional do homem, visto ser ele um sujeito “completo”.

Sentimento universal

Acontece que a inveja é um sentimento universal que gera angústia e raiva perante o que o outro tem, sejam coisas, sejam vínculos afetivos. Ela gera frustração, rancor, ressentimento por ser uma vontade não realizada, pela incapacidade de aquele que a sente, não ter o que deseja.

O caso Marta

O Plano Feminino discutiu a inveja masculina à luz do caso da jogadora de futebol da seleção brasileira  feminina Marta. O futebol é muito emblemático para a discussão da inveja masculina por ser um tema, geralmente, do universo masculino, ou seja, os homens acham que sabem de futebol mais do que as mulheres – em muitos casos, aliás, eles acham que as mulheres não entendem absolutamente nada do esporte.

Através de vários comentários acerca do desempenho de Marta e da sua exigência de equiparação salarial, é fácil identificar a inveja dos homens atrás dessas falas, que revelam o sentimento de “torcer contra” a seleção feminina de futebol.

O caso de Marta mostra o que acontece quando uma mulher não se sujeita às regras sociais de gênero e toma um lugar de liderança em uma sociedade machista. Em um modelo cuja masculinidade patriarcal está em ruínas, muito homens, ao invés de aproveitarem o momento para reverem seus papéis sociais, atuam com mais reatividade, o que significa para as mulheres violência, simbólica e física.

Como achar um homem que preste?

O psicólogo Marcos Lacerda analisou a inveja masculina em seu canal no Youtube Nós da Questão. Em um vídeo intitulado “Como achar um homem que preste?”, questão comum de ser colocada por algumas mulheres, Lacerda propõe em sua análise um deslocamento do problema da mulher para o homem. Quando uma mulher indaga “como achar um homem que preste?”, ela está dando ênfase à sua incapacidade de relacionar-se com um homem.

O que Lacerda mostra é que o problema não está nas mulheres, mas sim nos homens, já que eles sentem inveja de mulheres bem-sucedidas.

A inveja masculina é um tabu, pois ninguém fala sobre isso, todavia é preciso chamar a atenção para o fato de ela ser uma forma de violência contra as mulheres, inclusive em seu próprio silenciamento. Parte dessa violência é incutir nas mulheres o sentimento de que elas são as culpadas pelo seu fracasso na vida afetiva.

Transformação e liberdade

Nesse sentido, não são as mulheres que têm o “dedo podre”. O que está podre é a construção social do masculino. Uma vez que o edifício dessa construção está cheio de fissuras, alguns homens ainda estão tentando mantê-lo de pé mesmo com todo o perigo de ele desmoronar – algo que seria libertador para as mulheres e, também, para os homens.

Em nossa estrutura social machista, na qual homens e mulheres estão inseridos, não existe um homem que preste, mas existem homens disponíveis a passar por uma transformação. Esse é um desafio para a nossa sociedade, na qual ser mulher, mais do que ser alvo de inveja, pode ser, sim, um motivo para perder a vida.

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Sobre Gisella Meneguelli

Gisella Meneguelli
É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.

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