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“Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia.” — Albert Camus, em O Mito de Sísifo.
ChatGPT © Sanket Mishra/Pexels
O The Guardian divulgou uma notícia sui generis: os pais de um rapaz de 16 anos, Adam Raine, processaram a OpenAI (criadora do ChatGPT) pelo suicídio do filho.
Segundo a ação judicial, Adam manteve meses de conversas com o chatbot, discutindo métodos de suicídio, recebendo orientações e até ajuda para escrever uma carta de despedida. A família alega que o modelo de IA, na época, possuía falhas de segurança claras e contribuiu para o desfecho trágico.
O modelo continua sendo alvo de críticas. Recentemente, cunhou-se o termo “psicose de ChatGPT” após diversos casos de comportamentos extremos (“foraclusão”) terem sido reportados.
No caso de Adam, a OpenAI afirmou estar profundamente entristecida e anunciou medidas para melhorar seus sistemas de segurança e controles parentais. Mas o caso levanta questões complexas sobre responsabilidade legal e ética em interações entre humanos e inteligências artificiais.
Muitas questões jurídicas precisam ser debatidas, mas vamos ao ponto filosófico.
Será que os pais podem responsabilizar terceiros por danos ou pela morte de um filho? E mesmo adultos, poderiam processar uma IA por terem recebido, aceitado ou seguido os “conselhos” fornecidos por ela?
Receitas de bolo que não funcionam, tudo bem, mas quando o assunto é suicídio, a questão se torna muito mais profunda.
Ser ou não ser não é mais a questão; viver ou não viver tornou-se, sobretudo, a questão hoje.
Blade Runner antecipou essa pergunta de forma única: no filme, humanos e replicantes convivem em uma tensão constante sobre consciência, valor da vida e responsabilidade. Replicantes têm memórias implantadas e sentimentos, mas ainda assim são tratados como “outros”. Humanos, por outro lado, criam e controlam essas vidas, mas nem sempre assumem as consequências de suas escolhas.
Assim como no caso do ChatGPT, a pergunta filosófica se repete: quem é responsável quando criamos sistemas ou seres com poder de influenciar decisões humanas vitais?
Estamos prestes a colher toda a complexidade filosófica que plantamos.
E então, o que você acha? Alguém poderia se responsabilizar pela nossa irresponsabilidade social?
É hora de falarmos seriamente sobre a questão de Camus. Principalmente porque a pergunta vem de um livro que trata do mito de Sísifo, no qual se questiona qual é o sentido da vida: empurrar uma pedra ao topo de uma montanha que retorna sempre, sem nenhum aparente sentido?
Sísifo e o suicídio nos perguntam se a vida vale a pena ser vivida. Ou seja, o único problema filosófico realmente sério, hoje e sempre, continua sendo o suicídio. Vale a pena viver?
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Categorias: Sociedade
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