A dimensão ética da amizade: quem tem muitos amigos não tem nem um

A dimensão ética da amizade: quem tem muitos amigos não tem nem um

A amizade é tão fundamental para a nossa existência que a ela foi dedicada uma e mais datas: no Brasil, o Dia do Amigo é comemorado em 20 de julho – apesar de uma outra data também ser lembrada em homenagem aos amigos, no dia 30 deste mesmo mês, quando se comemora o Dia Internacional da Amizade.

Na verdade, todo dia é dia de lembrar da importância da amizade. Sem amigos não há vida, ou há uma vida triste. Muita gente pensa que dinheiro traz sim felicidade. De fato, dinheiro proporciona  bens e comodidades que no final se traduzem em felicidade. Mas pensem: o que adianta ser rico se não tiver com quem dividir a alegria da riqueza?

Conexão física e espiritual

A amizade é tão vital que faz bem para a saúde.

Uma pesquisa da Universidade de Oxford confirmou que os amigos ajudam a suportar melhor a dor e afastar a depressão.

A causa é que, estando junto com um amigo, endorfinas são liberadas em nosso corpo, dando-nos sensação de bem-estar.

A pesquisadora Katerina Johnson, coordenadora do estudo, explica que:

“Os resultados são interessantes também porque pesquisas recentes sugerem que o circuito de endorfinas pode ser interrompido em distúrbios como a depressão, e isso também poderia explicar por que as pessoas deprimidas muitas vezes fazem uma vida socialmente mais retraída”.

O experimento mostrou que pessoas que tinham mais amigos foram as mais capazes de tolerar a dor. Os amigos funcionariam como uma espécie de analgésico natural, por aliviarem dores físicas e emocionais.

Amigos são analgésicos naturais mais eficazes que a morfina

A dimensão ética da amizade

A amizade é coisa raríssima e o lamento filosófico de Montaigne “Ó meus amigos, não há nenhum amigo” é um testemunho disso, sobretudo, quando proliferam-se “amizades” nas redes sociais. A aparente contradição filosófica desvela que quem tem muitos amigos não tem nem um.

A amizade é um assunto tão fundamentalmente vital que existe uma tradição filosófica que se dedicou a ela: Aristóteles, o próprio Montaigne, Platão e, mais recentemente, Jacques Derrida, entre outros.

Em grego, existem as palavras “amor” (eros) e “amizade” (philia). O valor desta era enaltecido em poemas épicos e trágicos para mostrar a força de um dos vínculos mais fundamentais para o homem.

Com Aristóteles dá-se início à tentativa de definir os contornos que distinguem “eros” e “philia”, que para os gregos não eram muito nítidos.

É amor ou amizade?

Platão levanta a questão de a natureza da amizade ser a reciprocidade entre os amigos. Isso porque o amor erótico pode ser unilateral e jamais realizado; na amizade, porém, isso é inconcebível.

Logo, a amizade é uma forma de alteridade radical, porque nos coloca sempre diante de um outro, o amigo, que se apresenta como um “outro eu”.

O amigo é aquele, portanto, que nos desperta e nos captura de nós mesmos, nascendo daí um encontro ético.

O outro eu, o amigo que me interpela, me convida para um ato responsivo e responsável. Esse sair de si nunca é fácil: é um encontro com o outro que, no fundo, é um encontro consigo.

A amizade, como dimensão afetiva de acolhimento, revela-se como respeito ao outro em toda a sua alteridade. Dois sujeitos se colocam em condição de igualdade para se relevarem. Um se torna refém do outro, sem que com isso aponte o medo da captura; pelo contrário, a amizade é um ato de entrega.

Se a reciprocidade é a essência da amizade, conforme suspeitavam os gregos, ela está revestida de uma dimensão ética, pois a amizade é uma forma de con-viver, ou seja, de viver junto. Através de uma vida comum, os amigos esperam viver bem pelo bem um do outro.

Se você tem um amigo, agradeça por esse milagre e guarde-o “debaixo de sete chaves”.

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