Os maiores frigoríficos do país estão envolvidos com fazendas irregulares e lavagem de gado, revela a Repórter Brasil

Os dois maiores frigoríficos do país, a JBS e a Marfrig, negociaram de forma indireta com uma fazenda cujo proprietário é acusado de ser o mandante de uma das maiores chacinas registradas na Amazônia, que resultou na morte de nove homens em Colniza, no Mato Grosso, em abril de 2017.

Os repórteres André Campos, da Repórter Brasil, e Dom Phillips, do jornal britânico The Guardian, tiveram acesso a documentos de órgãos de controle sanitário que comprovam que a fazenda Três Lagoas, registrada em nome de Valdelir João de Souza, repassou 143 vacas ao sítio Erança de Meu Pai (sic), de Maurício Narde, sendo 80 fêmeas com idade entre 13 e 24 meses e 63 fêmeas com mais de 36 meses. Apenas 11 minutos depois, o mesmo número de animais, com exatamente as mesmas características, foi vendido para a JBS.

A negociação aconteceu em 9 de maio de 2018, quando Valdelir de Souza, apontado como o mandante da chacina de Colniza, já estava foragido. Além disso, sua fazenda apresenta irregularidades por se localizar em uma área destinada a assentamentos rurais – embora Souza não conste na lista de beneficiários da reforma agrária.

Há registro de uma outra transação nos mesmos moldes menos de dois meses depois, no dia 25 de junho de 2018, desta vez envolvendo a fazenda Morro Alto, de José Carlos de Albuquerque, que abasteceu uma unidade de abate da Marfrig, em Rondônia, com 153 bovinos negociados com Souza. Na ocasião, a Morro Alto também constava na lista de fornecedores da JBS.

Lavagem de gado

Segundo especialistas ouvidos pelos jornalistas da Repórter Brasil e do The Guardian, os indícios apontam para um esquema conhecido como “lavagem de gado”, que consiste em transferir gado de uma propriedade com desmatamento ilegal para uma outra com “ficha-limpa”, camuflando, assim, a verdadeira origem dos animais e driblando as regras de dois acordos assumidos pelos grandes frigoríficos brasileiros.

Um se refere ao compromisso com o “desmatamento zero” na Amazônia e o outro – o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) da Carne, pacto firmado em 2009 – diz respeito ao monitoramento dos fornecedores, que podem ser cortados da lista de parceiros comerciais caso suas fazendas apresentem problemas socioambientais, como desmatamento ilegal ou trabalho escravo.

“Não faz nenhum sentido um animal ficar 11 minutos em uma fazenda para depois ir para o frigorífico. Essa história tem todos os componentes de um processo de triangulação para lavagem de gado”, avaliou Mauro Armelin, após analisar os documentos enviados pela Repórter Brasil. Ele é diretor da organização Amigos da Terra, que se dedica a estudar a cadeia produtiva da pecuária.

“Provavelmente foi uma triangulação apenas no papel, ou seja, tudo indica que os animais foram enviados diretamente ao frigorífico sem passar por uma segunda propriedade”, completou.

O que dizem os envolvidos

Os repórteres tentaram obter uma declaração de Souza por meio do escritório de advocacia que o representa, mas sem sucesso. No entanto, em uma entrevista à Gazeta Digital, concedida em 19 de abril de 2019, ele alegou ser inocente e que não se entregaria por temer ser assassinado na prisão pelos reais responsáveis pelo crime.

Em declaração à Repórter Brasil, a JBS declarou que considera irresponsável vincular o nome da empresa com o de Souza, afirmando que ele nunca constou na lista de fornecedores, alegando ainda não “adquirir animais de fazendas envolvidas com desmatamento de florestas nativas, invasão de terras indígenas ou áreas de conservação ambiental, violência rural, conflitos agrários e que utilizam trabalho forçado ou infantil”.

A empresa afirmou também que atualmente trabalha em parceria com o Ministério Público Federal para aprimorar seus mecanismos de controle tanto no que se refere à proibição da comercialização de animais provenientes de fazendas irregulares, quanto a “triangulações de gado na sua cadeia produtiva”.

A Marfrig, o outro frigorífico envolvido no imbróglio, destacou em nota oficial suas estratégias de sustentabilidade, baseada em cinco pilares, entre os quais constam o controle de origem dos animais.

Leia na íntegra as reportagens da Repórter Brasil e do The Guardian

Veja aqui as respostas dos envolvidos

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Jornalista e mestre em Ciência da Religião. Tem 18 anos de experiência em produção de conteúdo multimídia. Coordenou diversos projetos de Educação, Meio Ambiente e Divulgação Científica.
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