Energias limpas, energias renováveis ou energias alternativas?

Energias limpas

Quando se começou a falar de alimentos orgânicos, algum amigo mais preciosista (para não dizer “o chato de plantão”) observou que todos os alimentos são orgânicos (provêm de seres vivos, têm carbono em sua composição). Soja transgênica regada a agrotóxicos desde pequenininha também seria “orgânica” sob esse ponto de vista. Mas o nome pegou, convencionou-se chamar de orgânicos os produtos de origem agropecuária que não utilizam agrotóxicos, transgênicos, antibióticos, e que portanto são mais “naturais”. Pois bem: se eu quiser ser chatão, posso dizer que praticamente todas as fontes de energia são renováveis. Até o petróleo. Se deixarmos a matéria orgânica se decompondo por milhões e milhões de anos, eventualmente (se não formos extintos antes) poderemos renovar os estoques, certo? Mas convencionamos chamar de renováveis as fontes de energia que não demoram eras geológicas para ser se renovarem.

E eu não quero ser chatão. Por isso, para simplificar, uso a forma curta (e tecnicamente menos correta) “energias” ao invés de “fontes de energia”. E falo em energias alternativas, ou melhor ainda, energias limpas. À parte a imprecisão científica de alguns desses termos, às vezes eu opto pelas convenções mais aceitas. Porque considero que o que importa mesmo não é o nome que damos aos bois. O importante é que nossos bois não sejam poluentes, nem intensifiquem o processo de aquecimento global. Aliás, pensando nisso, não vamos nem criar bois, ok?

Mas mesmo assim, precisamos por pingos nos is. Energia limpa também pode depender do ponto de vista. Energia hidrelétrica, gás de xisto obtido por fracking e até mesmo energia nuclear estão entre as estratégias recomendadas no recente relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da ONU, na sigla em inglês) para reduzir as emissões de GEE (gases causadores de efeito estufa).

Chato ou não, eu não aceito qualquer fonte de energia como limpa. Espero que você também não, caro leitor. Houve um tempo em que a energia hidrelétrica era a nossa melhor aposta em sustentabilidade. Ainda não é uma má opção. Contudo, a construção de grandes centrais hidrelétricas, com inundação de enormes áreas de floresta, ameaçando fauna, flora, populações tradicionais, frequentemente com suspeitas de que seus licenciamentos ambientais não foram corretamente realizados, não pode ser considerada exatamente uma opção com baixo impacto ambiental, nem social.

Já as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), são outra história. Sem a necessidade de realizar grandes inundações para seu funcionamento, a tecnologia é uma alternativa a ser considerada, por ter menores impactos ambientais.

E o gás natural, é uma boa alternativa, não é? Polui menos que o petróleo... Pois é. Depende. Ou melhor, pondo os pingos nos is, não. O gás natural encontrado no subsolo não é um recurso renovável, por assim dizer. Demorou eras para ser produzido, mas até aí, tudo bem. O que pega é que, apesar de realmente a queima do gás natural, composto principalmente de metano, emitir menos CO2 que a de derivados de petróleo, os vazamentos de metano na atmosfera quando da extração, transporte e uso do gás natural fazem com que ele não seja o mocinho das energias limpas. Está mais para vilão, pois em quantidades iguais, o metano contribui mais de 20 vezes para o aquecimento global em comparação ao dióxido de carbono. E estima-se que os vazamentos do gás extraído sejam da ordem de 3%.

E o fracking? Ah, o fracking... suspeito de causar terremotos, a tecnologia consiste em injetar água em alta pressão, rochas, areia e outras substâncias (aparentemente, ninguém sabe exatamente todas – por vezes, nem mesmo as empresas que as usam), muitas das quais são tóxicas ou cancerígenas, para extrair o gás de xisto. E é sujeita a alguns outros efeitos colaterais, como por exemplo quando o gás contamina aquíferos ou lençóis freáticos: torneiras flamejantes!

É capaz de ter gente que inclua energia nuclear na lista das energias limpas. Bem, supondo que um dia consigam projetar e construir uma usina de fissão nuclear à prova de acidentes, falhas humanas, levada a cabo por empresas sérias, acima de qualquer suspeita, poderiam produzir energia praticamente sem emitir GEEs e de forma segura. Restaria “apenas” o problema do que fazer com os resíduos radioativos – que tal lançá-los no espaço sideral?

O que tiro dessa história toda? Não estou na mesma página que os cientistas do IPCC. Na verdade, eu nem esperava isso. Não estou dizendo que sei mais do que um grupo de 235 cientistas e economistas trabalhando pela ONU. Não é isso. Mas estamos falando de coisas diferentes. Tendo em vista se tratar de um grupo tão diverso e envolvido em tantos interesses econômicos e políticos, eles tiveram que focar especificamente na emissão de gases causadores de efeito estufa e dar um jeito de conciliar todos esses interesses, provavelmente alguns bem questionáveis. Já eu, estou focando em energia limpa. Mas, ao menos, já é um avanço. Um esforço no sentido de evitar ou ao menos minorar o pesadelo climático que se anuncia. O relatório também foi enfático quanto à necessidade de triplicar ou quadruplicar a produção de energia eólica e solar nos próximos 35 anos. Espero que dê resultado.

Fonte foto: freeimages.com