Positividade tóxica: a vida nem sempre é uma festa!

Será que a vida contemporânea é sempre uma festa, como a Paris das memórias do escritor norte-americano Ernest Hemingway?

Certamente, você já deve ter lido a palavra “tóxica” sendo usada como adjetivo em vários textos que circulam na internet: masculinidade tóxica, pessoas tóxicas, relacionamento tóxico, palavras tóxicas e por aí vai a lista, que tem mais um uso qualificativo para a palavra: positividade tóxica.

Se nas expressões anteriores a palavra tóxica se refere a relações abusivas, pessoas que são negativas ou se aproveitam de outras, homens que perpetuam a lógica de dominação machista, chegando a cometer crimes e abusos contra as mulheres, que relação poderia haver entre algo positivo e tóxico?

Essa relação está bem aos nossos olhos, o tempo todo. Basta entrarmos nas nossas redes sociais para sermos bombardeados com uma diversidade de casos de positividade tóxica.

O que é positividade tóxica

Aquelas pessoas interessantíssimas e com vidas incríveis esbanjando felicidade 100% do dia são um exemplo prototípico de positividade tóxica. Tais pessoas são tão felizes que nem parecem de verdade. E, talvez, não sejam mesmo. Quer dizer, as vidas que elas apresentam em fotos editadas são uma parte ou, às vezes, apenas uma edição muito bem feita mesmo de suas vidas.

Quem trabalha com imagem, atualmente, faz uso de redes sociais. Afinal, likes são cifras. Claro que há muitas pessoas, incluindo famosos, que usam suas redes sociais para publicar, também, conteúdos mais engajados – para além das selfies egoicas.

Mas é preciso entender que por trás daquela celebridade existem especialistas em mídias digitais que pensam em cada detalhe do que é publicado. Enquanto esse profissional cria um mundo de aparência para o seu empregador parecer a pessoa mais feliz do mundo, proporcionalmente os seguidores dessa personalidade se sentem a última bolacha do pacote.

A vida não é só isso…

Alguém poderá dizer: se for para eu ver alguma mazela, assisto ao jornal das 20h. Nada contra seguirmos pessoas que fazem coisas interessantes, visitam lugares incríveis, usam roupas da moda, levam uma vida saudável, mas a vida não é só isso – como também não se parece com a vida da família do comercial de margarina.

Talvez o “pulo do gato” das mídias sociais em relação às propagandas televisivas seja o superefeito de realidade. A televisão, de certa forma, faz uma mediação mais distanciada da “vida real”, como se houvesse uma barreira mais explícita entre o que é mostrado na telinha. Já as mídias sociais são acessíveis a qualquer um, gente como a gente, logo o efeito de realidade sobre essas vidas, que parecem ser mais interessantes do que as nossas, são supervalorizados.

A psicóloga Erika Marakaba fez um post no seu Instagram que inspirou uma reflexão de Ana Beatriz Rosa para o Huffpost sobre a questão da positividade tóxica.

De acordo com a psicóloga, quanto mais ignoramos quem somos, mais nos perdemos entre vidas que não dizem respeito às nossas. Por isso, praticar o autoconhecimento, a fim que conheçamos as nossas reações em diferentes momentos da vida, a qual não é sempre mil maravilhas, pode ser um bom remédio para a positividade tóxica.

É preciso que nós nos conectemos com as experiências da vida real (aquela que vivemos) e com o que sentimos para, ao invés de sentirmos inveja ou achemos que a grama do vizinho é mais verde, nós saibamos diferenciar essa realidade de uma vida imaginária ou produzida como um fim meramente comercial para ser publicada nas redes sociais.

Então, essa vida positiva e incrível que bombardeia o perfil de gente de carne e osso, que tem alegrias, problemas e dilemas cotidianos, pode ser, psicologicamente, bastante tóxica para quem não está conectado consigo.

O direito de ser humano

“Good vibes” são bem-vindas, mas o clima de “shiny happy people” o tempo todo cansa. As pessoas têm mau humor, ficam cansadas, estressadas e mesmo aquelas que procuram um certo equilíbrio, sendo saudáveis, espiritualizadas, praticantes de atividade física etc., em algum momento também se enfastiam com isso tudo. Há momentos que bebemos mais do que a cervejinha do fim de semana, comemos além da conta, vamos menos à academia, ficamos doentes, xingamos, enfim, agimos como pessoas “normais”, isto é, como qualquer pessoa reage a diferentes situações em variados momentos da vida.

Isso não quer dizer que o nosso mau humor ou os nossos problemas sirvam para justificar que maltratemos o primeiro que nos diz bom dia. Mas que seja uma possibilidade de dimensionar a nossa vida em relação a nós mesmos, aos nossos interesses e ao que nos importa de fato.

Será que realmente eu quero levar a vida daquela moça que faz yoga todo dia às 5h da manhã e é vegana? Quando nos conhecemos, a resposta vem prontamente. E, talvez, ela seja um sonoro “não”, embora a moça tenha a minha admiração.

Para Erika, o discurso do #GoodVibesOnly se transformou num tapa-buraco para os nossos anseios em acreditar que existe uma solução imediata para tudo:

“É um discurso que oferece uma esperança imediatista, como a nossa cultura é. Eu não tenho que sofrer ou me abalar pelas coisas; se eu tiver crenças positivas e mantiver um pensamento positivo, tudo vai fluir bem. Mas esqueceram de avisar que isso não existe na realidade”.

As redes sociais criam uma espécie de pressão para sermos felizes. Essa cobrança gera uma baita frustração e infelicidade, além de um esgotamento psicológico derivado da tentativa de ser o que não se é, como se isso fosse possível.

A positividade tóxica pode estar minando as emoções de muita gente que está bloqueando a sua percepção de felicidade, deixando de vivê-la de verdade em sua própria vida.

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Sobre Gisella Meneguelli

Gisella Meneguelli
É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.

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