©Cristian Newman/Unsplash

O amor romântico tem que acabar: só causa dor e frustração

O amor demanda esforço para conquistar e manter, é preciso muito vigor psíquico, nada comparável à essa ideia do amor romântico que vemos na TV: fácil, espontâneo, criado, inventado, inalcançável e, portanto, impossível.

Percebem por que ele tem que acabar? Sendo impraticável, é causa de sofrimento e muita frustração. O “felizes para sempre”, a “metade da laranja”, são frases prontas para se dizer em final de filme, mas depois é preciso voltar para a realidade.

Trabalho, trânsito, cobranças, boletos, filhos, roupa para lavar… Viver demanda, e não há amor que dure felizes para sempre com tudo isso.

Aqueles que tentam trazer essa perspectiva para suas vidas acabam iludidos e decepcionados.

Mas então porque insistimos nessa dialética amorosa fadada ao fracasso e que não traz felicidade?

Primeiro, é preciso entender o conceito histórico do amor romântico.

Como o amor romântico surgiu

O amor romântico não só foi inventado, como se tornou um mito. Pior, um mito fundador da nossa existência.

Mas nem sempre foi assim.

Esse amor romântico em nada tem a ver com o amor que descreveu o filósofo grego Platão em O Banquete, (428 a.c) o amor platônico é o amor ao belo, à ética, à filosofia), ou com o amor de Santo Agostinho, primeiro grande filósofo cristão (354 d.c, amor à caridade).

Nem tampouco do amor do século 900, quando o império romano germânico já estava constituído, a Europa saía da barbárie, algumas cortes começaram a se cristalizar, como as províncias francesas, donde surge o amor provençal, cavalheiresco, das sociedades de cortesia.

Isso era francês, britânico, irlandês, remonta a Guinevere, Camelotti, Rei Arthur, quando se fixou a cultura da cortesia, colocando no lugar de Deus, a mulher, a dama!

Funcionava mais ou menos assim, o cavalheiro amava a dama que por sua vez era casada com o rei, então o amor era impossível e por isso puro e sublimado. Então, ele casava com outra que não amava, para perpetuar os bens e assegurar linhagem, que por sua vez era a amada de outro cavalheiro que para assegurar linhagem casava com outra e assim sucessivamente.

Os amores impossíveis eram puros e sublimados e se construiu toda uma literatura medieval ou provençal em cima desse imaginário. A exemplo do maior clássico do amor dessa época, frustrado e infeliz, Tristão e Isolda, de Wagner.

Por volta de 1100, um famoso político padre, São Bernardo Claraval, iniciou um movimento de culto à Maria, “mariologia”, como alguns classificam.

Esse movimento foi grande, e começou a moldar um novo pensamento, do culto à mulher, mas à mulher virgem.

Ao invés de ter várias amantes, o culto a uma só, mas agora inacessível, a mãe de Deus, à virgem, idealizada.

A partir daí, por volta do século XIV, surge uma nova literatura, ainda mais rebuscada, a renascença, período histórico de retomada da cultura clássica greco-romana.

Época de Don Quixote, onde o ideal de cavalheirismo é desacreditado, ridicularizado, chegando ao nível de que a dama, a mulher, vira uma pobre Dulcineia e a figura do homem vira o eixo central, senhor de tudo e de todos, a quem se deve devoção, honrarias e pompas.

Nem deus, nem a mulher, nem a virgem maria! O homem.

Esse homem que fazia guerras, que conquistava terras, que realizava a política e dominava os bens, a propriedade e a ciência, decidiu que era chegada a hora de se colocar no topo, como donos do mundo.

Assim, coube ao homem, a partir de então, decidir, escolher, determinar quem era a mulher certa, a mulher que o serviria. E essa mulher era a mãe, a esposa, enquanto, a amante era para se divertir.

Isso funcionou muito bem, todos sabiam da existência das amantes e aceitavam, desde que não colocasse em risco o contrato dos bens e nunca fosse um problema para os casamentos.

Foi aí que surgiu a reforma protestante quando, no final dos regimes absolutistas, começam os movimentos contra os clérigos, os reis, à nobreza e ao estilo de vida que os protestantes julgavam ser de pessoas libertárias, ociosas, fúteis, desumanas e infelizes.

Nessa época, a literatura volta-se para o campo, para a vida simples, onde é possível ser feliz. Jean Jacques Rousseau causa um verdadeiro estrago na Europa com a ideia de que as pessoas podiam ser felizes escolhendo seus parceiros e ligando o prazer sexual à construção da família.

O livro Julia ou a nova Heloisa (1761) de Rousseau, foi a primeira manifestação do Romantismo, por isso ele é considerado o fundador desse movimento artístico.

A transição do amor da corte para o amor romântico foi pautado na idealização do amor impossível, onde o herói morre na guerra sem nunca efetivar a paixão, e a mocinha morre de velhice no convento, com a cara mais pura possível.

Com a revolução francesa e a ascensão da burguesia ao poder, em 1799, herdeiros do protestantismo, da família de valores conservadores do cotidiano e do feijão com arroz, vão elevar o romantismo amoroso a uma tonalidade sem tantas mortes, suspiros e amores impossíveis, construindo uma arte de romances edificantes.

Estamos falando dos folhetins europeus, contando histórias de amores possíveis, onde se luta contra o lobo mau e no final, o casal de apaixonados são felizes para sempre.

No século XX, histórias de luta do bem contra o mal, cheia de intrigas e suspenses, onde no final, a mocinha era feliz, mesmo se o mocinho não tivesse um centavo no bolso, era happy End garantido.

Mas, atualmente, no que o amor romântico se transformou?

“Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar, desesperadamente…”

Segundo o escritor, psiquiatra, psicanalista e professor da UERJ, Jurandir Freire Costa, o amor, nos moldes românticos, é paralisante e sofrido particularmente na atualidade e para as novas gerações, especialmente para as mulheres.

Pare ele o amor romântico foi criado para

“satisfazer o sonho masculino que faz da mulher objeto da fantasia dos homens, ao ponto delas acreditarem nessa crença e comprarem esse ponto de vista e passarem muitas vezes a arcar com o ônus do deleite, do gozo, daquilo que os homens inventaram”.

Segundo o psiquiatra, é comum as pessoas aderirem à crenças, inclusive limitantes ou sofridas, sem mesmo questionar a razão disso, como acontece com as religiões.

Por várias décadas no século XX muitas mulheres viviam com o ideal de casar, de felicidade, pautada no marido, acostumando-se à ideia de que após o casamento eles iriam buscar suas amantes fora do casamento enquanto a esposa se dedicava à casa, aos filhos, à família.

Essa é uma das piores formas de opressão das mulheres, porque realmente elas acreditavam que isso era felicidade.

O filósofo Friedrich Nietzsche dizia que para sabermos quem somos, é preciso por entre nós e nós mesmos a pele de pelo menos 3 séculos, o que reflete esses padrões de comportamento.

No caso do romantismo amoroso, o psiquiatra Freire aponta que 3 são os pilares que o sustentam:

  • construção cultural,
  • coesão da sociedade e
  • construção psíquica.

E 3 são os pilares que o torna absolutamente idealizado e impraticável:

  • universalidade (ou seja, o amor sempre existiu dessa forma e para todos, a toda hora e em qualquer momento),
  • espontaneidade (ou seja, não é necessário qualquer esforço, ele acontece, se mantém e se renova pelo simples fato de amar – seguindo esse raciocínio, uma mulher linda e rica poderia espontaneamente se apaixonar pelo morador de rua em péssimas condições de saúde e aparência)
  • e essencialidade (o amor é o top, top, o supra sumo, sem ele não existe felicidade).

No caso, esses 3 pilares: universalidade, espontaneidade e essencialidade, são invenções relativamente recentes que só servem para causar infelicidade e decepção, porque o amor romântico é um ideal inatingível e absolutamente opressor, quando as pessoas têm que acreditar na felicidade conforme contada nos livros, mesmo quando a realidade se mostra diversa.

Para aonde o romântico está indo?

Nos anos 60 surgiu um movimento muito forte de contracultura, de ataque à moral burguesa hipócrita e à família. Desta família onde a mulher fica em casa e o marido vai para a rua atrás da amante. Desde então, esse movimento vem crescendo e conseguindo romper a roda desse amor romântico idealizado.

Aliado ao capitalismo, ao consumo, à liquidez dos tempos, da pressa, do descompromisso, das redes sociais, do culto ao amor livre e à liberdade sexual das mulheres principalmente, parece, realmente, que o amor romântico está com os dias contados.

Mas o médico psiquiatra Jurandir Freire faz um alerta: as mulheres ainda são muito vinculadas ao afeto e atrelam a felicidade ao relacionamento amoroso. E muitas mulheres estão saindo do padrão da mulher ideal, mãe, virgem, carinhosa e do lar, não para se libertarem, mas para caírem em uma outra armadilha: a do culto ao corpo, para se transformarem nos objetos sexuais do desejo masculino.

Novamente, os homens decidindo e impondo às mulheres o que elas devem fazer para satisfazê-los.

E com isso estão sofrendo duplamente, porque acreditam que não são amadas por causa de um padrão estético de corpo.

Então hoje, muitas delas, não somente estão presas ao ideal romântico, e sofrem pelo culto ao amor, mas também acrescentaram uma nova obrigação: a corrida frustrada ao corpo ideal.

Mas há uma luz no fim do túnel, Freire indica que é preciso enxergar as pessoas como elas são, sem endeusamento, sem achar que elas são a “última bolacha do pacote”, nem “Tristão, nem Isolda”, pessoas comuns que não vão satisfazer nenhuma das fantasias do romantismo amoroso, do amor fácil e espontâneo, mas que, com muito trabalho e esforço, talvez seja possível ter um relacionamento amoroso feliz.

Esse texto foi feito tendo como referência o podcast do café filosófico, “Democratizar o amor e a amizade”, com Jurandir Freire Costa.

Para saber mais, acesse aqui este podcast no Google Podcasts.

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Sobre Juliane Isler

Juliane Isler
Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher

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