Tá difícil esquecer o ex? A ciência não traz o amor de volta, mas ajuda a superar a perda

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Por que é tão difícil esquecer um (ou uma) ex? A pergunta foi feita por Chermaine Lee para a BBC Future em um artigo seu que leva essa pergunta como título. Nele, Chermaine levanta estudos e opiniões de especialistas para tentarmos entender um fato que é comum a todos nós, e que nos causa uma dor para a qual buscamos um remédio milagroso. Talvez entender porque é difícil, e se é possível, esquecer um ex, teremos um alento, ainda que racional, para um grande problema da alma.

O primeiro alerta

Antes de entendermos os que os especialistas dizem sobre o tema, é preciso fazer uma reflexão: o término pode até ter acontecido repentinamente, mas a construção desse término já estava sendo projetada há algum tempo, senão anos.

Aliás, talvez tão difícil quanto o processo de luto pelo término, seja o processo de decisão que leva ao rompimento. Os afetados sentem que a relação está na corda bamba. É um prenúncio do fim.

Talvez por isso, a pergunta que deve ser feita não é porque nos separamos, mas sim, porque escolhemos nos juntar?

Há quanto tempo estou traindo o meu próprio desejo, há quanto tempo estou negociando o inegociável para manter aquele relacionamento?

Uma relação está próxima do fim, ou começou errada, quando algum dos dois começa a ceder aquilo que censurava para si mesmo em nome do outro.

Vamos usar um clichê como exemplo, porque clichês costumam ser bem didáticos. “Eu não quero ter filhos, mas meu marido quer muito”, “meu namorado quer morar na Austrália, mas eu nunca moraria longe da minha família, pais e amigos”…

Se a pessoa aceita aquilo que não deseja, ela trai seu próprio desejo e isso é aceitar o insuportável, que não vai se sustentar por muito tempo.

Então é necessário refletir sobre o que levou ao rompimento. Geralmente, se não estava bom para um, tampouco estava bom para o outro.  

É possível até que uma relação acabe justamente porque a pessoa descobriu o seu limite e, não por falta de amor.

Melhor seria conversar sobre o inegociável e aí talvez, conseguíramos evitar, não o término da relação, mas o começo, repita-se, não se trata da razão da separação, mas a razão de se unir.

Vontade de reconciliação

Mas voltando à pergunta feita por Chermaine Lee para a BBC Future, uma das respostas colocadas na reportagem, e causa do retardamento do sofrimento, é a tentação de reacender a chama, a lembrança dos momentos bons, que levam os casais a se reconciliarem uma, duas ou até várias vezes.

Pesquisas apontam que mais de um terço dos casais que coabitam e um quinto dos casais que não moram juntos, já experimentaram um rompimento e uma renovação em seus relacionamentos atuais.

Segundo Helen Fisher, neurologista do Instituto Kinsey, muitos casais reatam, ao menos uma vez, porque a parte rejeitada fica obcecada em reconquistar a pessoa que desiste, chama-se de fase de “protesto”.

Para piorar, Fisher afirma que “após a rejeição, você pode amar ainda mais essa pessoa”, porque esses sentimentos podem ativar uma região cerebral associada ao vício, com elevação dos níveis de dopamina, “associado a níveis elevados de estresse e ao desejo de pedir ajuda”, o que poderia explicar reações dramáticas na tentativa de sensibilizar o parceiro.

Para Fisher, esses casais que entram nesse circuito de obsessão e vício, não conseguem se separar e acabam retornando, até que esse ciclo termine.

Razões comportamentais também podem ser consideradas para explicar a vontade de reconciliação, dependendo do comportamento do parceiro após o fim do relacionamento. Por exemplo, se iniciou outro relacionamento, se houve traição ou se há sentimento de culpa ou rejeição.

Essas seriam as razões comportamentais que podem ser desencadeadoras de reações psíquicas, como esquecimento, perdão ou obsessão.

Rene Dailey, professora que pesquisa reconciliações repetidas na Universidade do Texas, afirma que “a sensação de falta de solução no relacionamento pode instigar os parceiros a tentar novamente”.

Dailey também remete a forma como a pessoa recebeu os cuidados quando criança e como isso se reflete no seu comportamento na vida adulta. Crianças negligenciadas, que não receberam os cuidados necessários, podem se tornar adultos inseguros, ansiosos ou com sérios problemas de manter, criar ou desfazer vínculos.

Kristen Mark, professora especializada em saúde sexual na Universidade de Kentucky, complementa esse entendimento, afirmando que a nostalgia e a solidão podem ser elementos a pautar uma reconciliação, ou seja, o sentimento de perda e tristeza que vem com um rompimento pode desencadear o desejo de volta, e não o amor em si.

Pode ser apenas medo de sofrer

Há pessoas também que tentam evitar ao máximo o sofrimento e preferem agarrar-se a um relacionamento, ainda que não seguro ou saudável.

Gail Saltz, professora associada de psiquiatria da Escola de Medicina Weill-Cornell do Hospital Presbiteriano de Nova York, reforça essa ideia, para ela

“o desejo de evitar a solidão a todo custo pode levar as pessoas de volta aos braços de seus ex-parceiros.”

Mas há casos em que é necessário encarar que a melhor solução é, de fato, o rompimento.

Mantenha distância

Se o relacionamento já não andava bem, se a conectividade não estava ativada e se o amor (leia-se, respeito e admiração) já não era a base do relacionamento, liga o modo ativar e mantenha-se afastado.

Não ligue, não procure, não olhe as redes sociais. 

De acordo com a professora Saltz, as mídias dificultam o fechamento e a mudança,

“seguir as postagens de um ex pode ser muito prejudicial.”

A neurologista e antropóloga Helen Fisher concorda que uma “regra de não contato” pode ser benéfica, e sugere um período de pelo menos 90 dias, como comprovadamente eficaz para abster-se de substâncias viciantes:

“A maneira de acelerar o conserto de um coração partido é semelhante ao tratamento do vício – você guarda as coisas deles, para de olhar para as mídias sociais e não tem contato com elas”.

É mesmo a distância que ajuda a superar o término de uma relação, segundo o especialista em neurologia comportamental Antoine Bechara, da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.

Além da distância, será que poderíamos usar remédios para acabar ou diminuir a dor?

Remédios para curar a dor da perda

Um estudo de neuroimagem examinou correlatos neurais e testou a hipótese de que as dores emocionais e sociais ativam a mesma estrutura cerebral responsável pela mediação das dores físicas.

Isso porque, em ambos os casos, o apontamento é a dor, e o cérebro usa esse mecanismo como sinal de algo está errado.

E no auge da dor, não seria ótimo se existisse uma pílula para acabar com o sofrimento?

Para um respeitado time de cientistas, esses remédios existem e alguns já estão disponíveis. 

Segundo aponta reportagem feita pela revista ISTOÉ, a proposta está sendo feita por pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e o artigo foi publicado na revista científica The American Journal of Bioethics.

O pesquisador Brian Earp, de Oxford, coordenador do grupo que estuda os tratamentos para o sentimento, acredita que “se pensarmos que é algo que emerge da química cerebral, começa a fazer sentido falar em cura”.

Brian também não descarta, inclusive, a manipulação da memória por meio do emprego de técnicas adotadas hoje no tratamento de estresse pós-traumático.

Não seria perfeito simplesmente apagar as lembranças ruins? De acordo com o pesquisador, o uso do anti-hipertensivo propranolol poderia auxiliar nesse processo.

Mas no caso do amor, esses métodos poderiam ser usados para fazê-lo desaparecer? 

A antropóloga Helen Fisher, da Rutgers University (Eua), estudiosa do amor no cérebro, acha possível apagar a lembrança de um sentimento, para ela “pode-se imaginar terapia similar sendo usada para apagar a memória do amor”.

Para os pesquisadores ingleses, antidepressivos podem reequilibrar as concentrações de serotonina e diminuir pensamentos obsessivos e interferir na liberação da dopamina, diminuindo a euforia ao ver o amado e como efeito colateral, diminuir a libido e o desejo pelo parceiro.

Outras opções seriam as medicações que impedem a ação da testosterona, provocando diminuição do desejo e a naltrexona, usada para tratar a dependência de opioides, contra a dor e contra o alcoolismo.

Larry Young, diretor da Divisão de Neurociência Comportamental do Centro de Pesquisa Yerkes, da Emory University (EUA), é um dos mais proeminentes estudiosos da neurofisiologia do amor. Pesquisa o tema há 20 anos e, através de um estudo usando ratazanas como cobaias, estudou o comportamento familiar nas suas experiências, e conseguiu manipular comportamentos de vínculos afetivos, a partir de substâncias químicas.

“Podemos bloquear qualquer um desses compostos e evitar que as cobaias construam laços ou se sintam mal quando um parceiro vai embora”, afirmou Young.

Em um dos experimentos, ele usou um composto para impedir a ação da ocitocina nas fêmeas e elas não criaram ligação com um parceiro e tornaram-se polígamas. 

Para o pesquisador,

“teoricamente, drogas semelhantes poderão ser dadas às pessoas para manipular seu amor por seus companheiros”.

Os estudiosos envolvidos defendem o uso de medicamento para os casos nos quais a relação é claramente prejudicial e precisa ter um ponto final. Essa “tecnologia antiamor” talvez possa ajudar indivíduos com dificuldade para se recuperar de uma perda ou uma separação e isso se tornar uma patologia.

Mas a dor e o sofrimento são sentimentos humanos que precisam ser tratados com a devida seriedade. Toda a comunidade científica deve se envolver nesse tipo de discussão para garantir que tudo seja feito de forma extremamente ética, e usar medicamentos apenas nos casos onde o amor é considerado patológico e com sérios riscos à saúde e à vida da pessoa, cuidando para não “medicalizar” os sentimentos.

Mas pensando em casos mais leves, que não chegam a ser patológicos, com consequências suicidadas, depressivas ou obsessivas, um grupo de psicólogos sugeriu que o paracetamol – um analgésico que atua no sistema nervoso central e é muito usado para dores em geral – poderia ser usado para aliviar a dor oriunda da rejeição e outros contratempos pessoais.

Experimentos feito com participantes que divididos, tomaram placebo e parecatamol, diariamente, durante três semanas, comprovou, através de ressonância magnética, que o analgésico reduziu os relatos de dores de ordem social, atuando em regiões do cérebro relacionadas a angústia e a dor física.

Mas cuidado. Se tomarmos uma pílula para cada decepção amorosa, pode ser que nunca saibamos lidar com as perdas, por vezes necessárias, que fazem parte da vida e que nos ensinam a lidar com a dor e angústia.

Afinal, dor e angústia são ruins?

Angústia e sofrimento são importantes

No caso de uma separação amorosa, a ativação da dor gera angústia, porque não temos controle sobre as consequências pelos atos praticados por terceiros.

Angustia, dor e medo, são sentimentos essenciais à sobrevivência e evolução. São nossas campainhas de alerta e temos de saber lidar com esses sentimentos.

Intervir para curar a dor do amor, embute o risco de tirar do ser humano uma oportunidade de evoluir.

Busque outras atividades, interesses, comece um novo hobby, faça terapia, tome o chá da vovó, sente no colo da mãe, visite ou faça uma viagem sozinho com o melhor amigo, desabafe, nem que seja no papel.

Saia do foco do rompimento da relação.

Além disso, a dor da perda nos torna criativos. Pense em toda a maravilhosa arte, música, filmes, literatura, prosa, poemas feitos sobre o amor. 

Nada disso existiria se o ser humano não fosse exposto à dor e à angústia. Esses sentimentos podem ser gatilhos da criatividade, da arte ou da produção de algo novo.

Aprender a tirar coisas boas de experiências negativas, saber lidar com erros e perdas, aceitar e vivenciar o luto em tempo, são etapas necessárias.

Viva o luto e recomece

Não é intrínseco que todo mundo passará por perdas que nos fará morrer? Renascer desta exposição à dor e à fragilidade é o que nos dá sentido à vida.

Se precisamos amar para sermos amados, também precisamos viver a dor para resistir. Se não vivenciarmos o sofrimento, não temos base para aprender a nos libertar e seguir adiante.

Vivencie a dor, chore, grite, se descabele, corra, pule e depois recomece a andar. Como dizia Raul Seixas, “não pense que a cabeça aguenta se você parar”.

Para finalizar, deixamos esse vídeo da Casa do Saber sobre o que é o luto. Perder não é morrer. Morrer é viver sem vida.

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Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher
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