Cura da AIDS: segundo paciente possivelmente curado do HIV


Após quase 12 anos depois da cura do primeiro paciente, pesquisadores confirmam que a cura para a infeção pelo HIV é possível.

A notícia, publicada no The New York Times, conta o caso dos dois pacientes. Um deles quis manter-se anônimo, sendo chamado de “paciente de Londres”.

O outro é Timothy Ray Brown, de 52 anos, que recebeu um tratamento para combater células cancerígenas, mas este acabou eliminando também o vírus HIV do seu organismo.

Apesar dessa descoberta, os pesquisadores tiveram muitos fracassos com outros pacientes. No entanto, atribuíram o sucesso com Brown e o “paciente de Londres”, devido à uma condição diferenciada: ambos tinham câncer.

Novos relatórios ainda serão publicados, mas os cientistas estão descrevendo o caso como uma remissão a longo prazo. Em entrevistas, a maioria dos especialistas está chamando de “cura”, com a ressalva de que é difícil saber como definir a palavra quando há apenas dois casos conhecidos.

Ambos os marcos resultaram de transplantes de medula óssea, mas os transplantes foram destinados a tratar o câncer nos pacientes, não o HIV. Segundo os pesquisadores, é improvável que o transplante de medula óssea seja uma opção de tratamento realista no futuro próximo.

Drogas poderosas estão agora disponíveis para controlar a infecção pelo HIV, enquanto os transplantes são arriscados, com efeitos colaterais severos que podem durar anos. No entanto, os especialistas afirmam que rearmar o corpo com células imunes modificadas para resistir ao HIV pode ter sucesso como um tratamento alternativo.

“Isso vai inspirar as pessoas que a cura não é um sonho”, disse Annemarie Wensing, virologista do Centro Médico da Universidade de Utrecht, na Holanda.

O novo paciente optou por permanecer anônimo, mas declarou ao The New York Times:

“Sinto-me responsável por ajudar os médicos a entender como isso aconteceu para que eles possam desenvolver a cura. Eu nunca pensei que haveria uma cura durante a minha vida”.

Os pacientes de Berlim e Londres

Na conferência de 2007, um médico alemão descreveu a primeira cura em Timothy Ray Brown, chamado inicialmente de “paciente de Berlim”. Essa notícia, exibida em um cartaz na parte de trás de uma sala de conferências, ganhou pouca atenção de início. Porém, quando ficou claro que Brown estava curado, os cientistas tentaram duplicar seu resultado com outros pacientes com câncer infectados pelo HIV.

Em cada caso, o vírus voltava com força, muitas vezes cerca de nove meses depois que os pacientes pararam de tomar medicamentos antirretrovirais, ou então os pacientes morreram de câncer. Os fracassos fizeram com que os cientistas pensassem que a cura de Brown fosse apenas um acaso.

Brown teve leucemia e, após a quimioterapia não ter conseguido impedir o câncer, precisou de dois transplantes de medula óssea. Os transplantes eram de um doador com uma mutação em uma proteína chamada CCR5, que fica na superfície de certas células do sistema imunológico. O HIV usa a proteína para entrar nessas células, mas não consegue se agarrar à versão mutante.

Brown sofreu bastante durante o tratamento. Ele recebeu drogas imunossupressoras de um tipo que não são mais usadas e sofreu complicações intensas durante meses após o transplante. Ele foi colocado em coma induzido em um ponto e quase morreu.

Os médicos começaram a questionar o fato do paciente precisar quase morrer para o tratamento funcionar, mas o paciente de Londres mostrou que isso realmente não era mais necessário.

O paciente de Londres tinha um linfoma de Hodgkin. Em maio de 2016, ele recebeu um transplante de medula óssea de um doador com a mutação CCR5. Além disso, recebeu também drogas imunossupressoras, mas o tratamento foi menos intenso, de acordo com os padrões atuais para pacientes transplantados.

O paciente de Londres deixou de tomar medicamentos anti-HIV em setembro de 2017, tornando-se o primeiro paciente livre de vírus por mais de um ano, depois de Brown.

Embora o paciente de Londres não estivesse tão doente quanto Brown, o de Berlim, o procedimento também funcionou, pois o transplante destruiu o câncer sem efeitos colaterais prejudiciais. As células imunes transplantadas, agora resistentes ao HIV, parecem ter substituído totalmente suas células vulneráveis.

A maioria das pessoas com a mutação resistente ao HIV, é de descendência do norte da Europa. O IciStem mantém um banco de dados de cerca de 22.000 desses doadores. Os cientistas estão rastreando 38 pessoas infectadas pelo HIV que receberam transplante de medula óssea, incluindo seis de doadores sem a mutação.

O paciente de Londres tem 36 anos e está nesta lista. Outro paciente, de número 19 na lista, é conhecido como “paciente de Düsseldorf” e está sem remédios contra o HIV há quatro meses.

Os cientistas analisaram repetidamente o sangue do paciente em Londres em busca de sinais do vírus. Eles viram uma indicação fraca de infecção contínua em um dos 24 testes, mas dizem que isso pode ser o resultado de contaminação na amostra.

O teste mais sensível não encontrou nenhum vírus circulante. Anticorpos para o HIV ainda estavam presentes em seu sangue, mas seus níveis diminuíram ao longo do tempo, em uma trajetória semelhante à observada em Brown. Isso não garante que o paciente de Londres esteja fora de risco, mas as semelhanças com a recuperação de Brown deixam os pesquisadores otimistas.

A cura definitiva?

A maioria dos especialistas que conhecem os detalhes concorda que o novo caso parece ser uma cura legítima, mas alguns não estão certos de sua relevância para o tratamento da AIDS em geral. De acordo com eles, uma possibilidade é desenvolver abordagens de terapia genética para eliminar o CCR5 nas células do sistema imunológico ou em suas células-tronco. Resistente à infecção pelo HIV, essas células modificadas devem, eventualmente, limpar o corpo do vírus.

A CCR5 é uma proteína que He Jiankui, um cientista na China, afirmou ter modificado com edição genética em pelo menos duas crianças, em uma tentativa de torná-las resistentes ao HIV – uma experiência que desencadeou a condenação internacional.

Várias empresas estão buscando terapias genéticas, mas ainda não tiveram sucesso. A modificação deve ter como alvo o número certo de células, no lugar certo – apenas a medula óssea, por exemplo, e não o cérebro – e ajustar apenas os genes que direcionam a produção do CCR5.

Muitas equipes estão trabalhando para que possam ser capazes de desenvolver um sistema de entrega viral que, quando injetado no corpo, procura todos os receptores CCR5 e os elimina. Ou então, uma célula-tronco doadora que é resistente ao HIV, mas poderia ser administrada a qualquer paciente.

No entanto, existe uma ressalva importante que é a do paciente ainda estar vulnerável a uma forma de HIV chamada X4, que emprega uma proteína diferente, o CXCR4, para entrar nas células.

Segundo o Dr. Timothy J. Henrich, Especialista em AIDS na Universidade da Califórnia, São Francisco:

“Isso só vai funcionar se alguém tiver um vírus que realmente use apenas o CCR5 para entrar – e isso é provavelmente cerca de 50% das pessoas que vivem com o HIV, se não menos”.

Ou seja, mesmo que uma pessoa abrigue apenas um pequeno número de vírus X4, eles podem se multiplicar na ausência de competição com outras espécies de vírus HIV. De acordo com a notícia, há pelo menos um caso relatado de um indivíduo que recebeu um transplante de um doador e recuperou com o vírus X4.

Como precaução contra o X4, o paciente Brown está tomando uma pílula diária para prevenir a infecção pelo HIV. Ele diz que está esperançoso de que a cura do paciente de Londres seja tão durável quanto a dele.

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Eliane A Oliveira

Formada em Administração de Empresas e apaixonada pela arte de escrever, criou o blog Metamorfose Ambulante e escreve para greenMe desde 2018.


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