#Somostodosantifascistas: mas, afinal, o que é o fascismo?

#Somostodosantifascistas: mas, afinal, o que é o fascismo?

Nos últimos dias, usuários de redes sociais passaram a se manifestar contra o fascismo. Com medo de ocupar as ruas por causa do contágio do coronavírus, muitos estão usando o ativismo digital para defender a democracia.

Mesmo sob a ameaça do coronavírus, nos Estados Unidos e no Brasil muitas pessoas ocuparam as ruas nos últimos dias, manifestando em alto e bom tom, um grande grito de basta.

A morte de George Floyd por um policial, em Minessota (EUA), e a morte de negros no Brasil são o resultado de um sistema de exclusão que não foi resolvido com o fim da escravidão em ambos os países. No Brasil, as crises política e sanitária agravam ainda mais a situação social. Esse caldo fez os manifestantes irem às ruas, apesar dos riscos de contaminação que, a esta altura, parecem ser menores do que os riscos à própria democracia.

Antifascistas

A bandeira deste momento, no Brasil, é proclamar-se contra o fascismo, o que significa colocar-se contra o governo de Jair Bolsonaro e tudo o que ele representa. Uma frente ampla capitaneada pelo “Manifesto Estamos JUNTOS#” e a campanha #Somos70porcento, bem como o compartilhamento de imagens antifascistas nas redes sociais, são investidas contra a marcha autoritária que ganhou força com o  bolsonarismo.

Como avalia o pesquisador Fernando Perlatto para a Revista Escuta, o avanço do fascismo deve ser brecado pelas vias das instituições democráticas e pelo apoio popular, que precisa se manifestar em notas de repúdio e abaixo-assinados, mas, principalmente, na ocupação das ruas – com todos os cuidados que o momento impõe.

Mas, afinal, o que é o fascismo?

Embora estejamos falando de fascismo e de movimentos antifascistas, é preciso entender a raiz desse termo para compreendermos o momento atual em que a palavra está em disputa.

Império Romano

Fascismo tem sua raiz etimológica no termo latino fasces, que cunhou a expressão fasces lictoris (em italiano: fascio littorio) em referência a um símbolo usado pelo Império Romano que representa poder e autoridade.

O objeto símbolo do poder de punir no Império Romano constitui-se de um feixe de varas de madeira amarradas por tiras de couro vermelhas (fasces), representando soberania e união. Muitas vezes o feixe é ligado a um machado de bronze, que simbolizava o poder de vida e morte sobre os romanos condenados. É muito utilizado na heráldica como símbolo da força da união em torno do chefe.  O fasces era usando em rituais nos quais cada membro de um corpo de apparitores (oficiais subordinados), chamados lictores, carregava o objeto fasces ante um magistrado. 

Fonte imagem: Wikipedia

Movimento fascista

No século XX, o termo foi usado em referência ao regime fascista na Itália, liderado por Benito Mussolini. O fascismo nasceu oficialmente em 23 de março de 1919, quando Mussolini fundou em Milão o grupo “Fasci di Combattimento”, que reunia ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial (1914-18).

Nessa época, a Itália vivia um caos: estava à beira de uma guerra civil, passando por uma crise política, econômica e social. O Estado já não tinha mais controle sobre nada e, com o êxito da recente Revolução Russa em seu encalço, o fantasma da chegada do comunismo ao país foi manipulado dando espaço para o grupo de Mussolini.

Os ataques de brigadas fascistas irromperam e, depois, elas vieram a se tornar milícias paramilitares que atuavam contra políticos de esquerda, judeus, homossexuais e órgãos da imprensa. Essas milícias ficaram conhecidas como os “camisas negras”. Em 1921, o movimento se institucionalizou com a fundação do Partido Nacional Fascista (PNF), cujo símbolo era exatamente o “fascio littorio”.

O regime fascista caracterizava-se por ser totalitário, baseado em um partido único, cuja característica fundamental era a militarização da política, que tratava os seus adversários como inimigos a serem eliminados.

O fascismo foi, portanto, um movimento de massas organizado militarmente que tomou o poder na Itália transformando um regime parlamentar em um Estado totalitário, isto é, um Estado com um partido único.

Com a palavra, os especialistas: existe fascismo hoje?

Com a volta da palavra fascismo aos tempos atuais, a BBC consultou especialistas italianos para entender o significado histórico dela. Hodiernamente, o termo fascismo passou a adjetivar figuras políticas de extrema direita com tendências nacionalistas e preconceituosas de vários tipos.

A BBC conversou com o historiador Emilio Gentile, considerado na Itália o maior especialista vivo sobre o fascismo. Ele defende que é preciso não confundir as ideias ao observar um fenômeno que, na verdade, tem a ver com a crise da democracia.

Gentile esclarece que o fascismo, hoje, não existe e o que há de novo são líderes de direita nacionalistas e xenófobos:

“O fascismo sempre negou a soberania popular, enquanto o nacionalismo populista de hoje reivindica o sucesso eleitoral. Esse políticos de agora se dizem representantes do povo, pois foram eleitos pela maioria. Isso o fascismo nunca fez”.

O sociólogo italiano Domenico de Masi explica que não se pode falar de um fascismo histórico hoje, mas reconhece que uma figura como o presidente Jair Bolsonaro é um político de inspiração fascista. Quando ainda era candidato à Presidência, por exemplo, ele disse várias vezes que iria “metralhar a petralhada” – uma clara alusão à eliminação física de adversários políticos, tal como o fascismo italiano fazia.

Entretanto, de Masi destaca as diferenças entre o autoritarismo brasileiro e o europeu. Na Europa, o sentimento de inspiração fascista é fortemente alimentado pelo discurso anti-imigração, enquanto no Brasil o fenômeno começou estimulado pelo sentimento antipetismo – e, na esteira, podemos acrescentar os discursos contra qualquer diferença: regional, étnica, social, de gênero, etc.

O historiador Eugenio di Rienzo, professor de História Contemporânea da Universidade Sapienza, em Roma, explica que não se pode confundir os fenômenos:

“Não se pode fazer uma analogia entre aquele fenômeno e outro. O fascismo não se reproduz mais, é preciso cuidado com o uso da palavra, pois acaba provocando desinformação. Um racista não é sempre um fascista. O governo de (Recep Tayyip) Erdogan na Turquia é autoritário, mas não fascista”.

Di Rienzo destaca que a confusão acontece pelas semelhanças entre o fascismo e os comportamentos autoritários de líderes contemporâneos, que fazem uso da propaganda fascista, opinião com a qual Gentile concorda:

“Na verdade, faz-se propaganda de um fascismo que parece eterno, mas ao menos na Europa é um fenômeno novo que se relaciona à crise da democracia, ao medo da globalização e dos movimentos imigratórios que poderiam sufocar a coletividade nacional. Mexe com a imaginação das pessoas, mas não se trata de um perigo real”.

Como o fascismo parece continuar rondando as nossas vidas, a BBC entrevistou Gentile novamente para perguntar-lhe se seria correto definir os presidentes dos Estados Unidos, Rússia, Brasil, Hungria, entre outros, como fascistas. O especialista foi categórico: “Absolutamente, não”. A explicação para ele é que nem todo governo autoritário necessariamente é totalitário.

Aqui, é preciso fazer algumas distinções. Governos autoritários de extrema direita seriam aqueles que se opõem aos princípios de liberdade e igualdade originados da Revolução Francesa, e afirmam como valor supremo a nação. Já um regime totalitário submete a população a um sistema hierárquico militarizado que anula qualquer tipo de diferença e oposição.

Novos usos, novas forças

Em 1944, o escritor e jornalista inglês George Orwell escreveu uma obra intitulada “O que é fascismo? e outros ensaios”, cuja temática são os autoritarismos em suas distintas formas, em especial o fascismo. No texto, Orwell argumenta que o uso indiscriminado da palavra fascismo agrega a ela um significado emocional:

“Por fascismo, eles estão se referindo, de maneira grosseira, a algo cruel, inescrupuloso, arrogante, obscurantista”.

No caminho de Orwell, muitos sociólogos e cientistas políticos atuais defendem o uso da palavra fascismo para definir governos autoritários, mas nem fascistas como definição.

O poder da linguagem

Como ensina o linguista francês Patrick Charaudeau, “a linguagem é um poder, talvez o primeiro poder do homem”. Por isso, é natural que as palavras estejam em disputa pelos discursos. Os significados das palavras são instáveis e são os discursos que as reatualizam ao imprimir nelas significação. Conhecer a sua história e os seus usos é uma forma de entender como elas são disputadas e postas em cena.

Para ser um antifascista, seria prudente retomar aquele questionamento que o filósofo Michel Foucault fez no prefácio da obra Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari:

“Como fazer para não se tornar fascista mesmo quando (sobretudo quando) se acredita ser um militante revolucionário? Como liberar nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres do fascismo? Como expulsar o fascismo que está incrustado em nosso comportamento?”.

Vejam este vídeo que desenha e resume toda a questão e, como diz o post do Edivan Rodrigues – mestre e professor de Direito na Universidade Federal da Paraíba – defenda a democracia!

https://www.facebook.com/EdivanRodrigues/videos/3906741742731597/

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