O Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago nos dias de hoje: o pior cego é aquele que não quer ver

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Que José Saramago é um dos maiores escritores da língua portuguesa não há dúvida: um inovador em estilo, forma e conteúdo, razão pela qual ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

Seus livros – como qualquer clássico – seguem sendo atuais, contemporâneos. Um deles é “Ensaio sobre a Cegueira”, que acabou ganhando uma adaptação para as telas de cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, sendo estrelado por Julianne Moore.

Escrito em 1995, trata-se de um romance que narra uma epidemia de cegueira que se espalha entre os habitantes de uma cidade, provocando um colapso social.

Segundo o autor:

“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.

Há quem diga que Saramago é um pessimista. Pode ser que ele tenha sido mesmo. Ou, então, ele apenas colocou de forma crua algo que é evidente, mas que todos se negam a ver. Ou, como disse Woody Allen em uma recente entrevista a El Pais:

O pessimismo e o realismo são a mesma coisa. Sou muito pessimista, sobre o mundo, sobre o futuro, sobre a sociedade, sobre a existência…, mas de verdade acho que é assim que o mundo é, então creio que sou realista. Não há outro remédio a não ser fazer uma avaliação pessimista do mundo. Não posso fazer nada a respeito. Honestamente, não resta outro remédio além de sermos pessimistas”.

Por que estamos cegos?

Em “Ensaio sobre a cegueira” uma história aparentemente banal ganha corpo: a de um homem em sua rotina, dentro de seu carro, que tem um ataque de cegueira. Várias pessoas o socorrem e uma “contaminação” de cegueira se espalha – uma cegueira de aspecto leitoso, branca, desconhecida.

Já instalado o pânico, o governo age colocando os infectados pela epidemia em uma quarentena, isolados do convívio social. Entretanto, a epidemia é forte demais e segue alastrando-se.

Mas uma mulher consegue salvar-se dela. Sozinha, ela testemunha os horrores que os seus olhos veem e os sentimentos que tocam aqueles que estão contaminados: desejo, vergonha, ganância, obediência, etc.

As reações advindas desses sentimentos se materializam entre aqueles que estão na quarentena, como disputas por comida, compaixão pelos enfermos, crianças e idosos, atos violentos de toda sorte.

A obra mostra como as pessoas podem reagir ante o caos, o desespero, o abandono, a impotência, levando-nos a refletir sobre qual é o fio invisível que tece o manto da civilidade e dos valores morais que nos une.

Saramago nos instiga a recuperar a luz, a lucidez, como analogia à nossa (in) capacidade de desenvolver o afeto e a empatia.

Alguma semelhança com o mundo atual?

Alguém está comovido pela morte de milhares de jovens negros no Brasil, com o extermínio dos povos indígenas, com o assassinato de Ághata e Marielle, das mulheres vítimas de feminicídio, da vendedora ambulante Josefa Severina de Souza, que, como tantos outros brasileiros, (sobre) vive com R$ 413 por mês?

Quais são as ações reais que tornam invisíveis essas vidas, suas histórias, seus laços e rastros, deixando-nos cegos diante delas? Como a cegueira nos tomou a ponto de defendermos atitudes e crenças que nos retiram o manto da civilidade? Ou será que ele jamais chegou a nos cobrir?

Em uma entrevista ao Congresso em Foco, o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) foi questionado sobre o debate que ele teve com a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), o que provocou uma chuva de críticas sobre ambos. Freixo respondeu:

“O que me estranhou não foi ter feito um debate com uma pessoa que pensa diferente. Mas muita gente ter criticado essa disposição para debater. Me parece óbvio que eu consiga sentar com uma pessoa que pensa diferente e conversar. Janaína Paschoal é uma deputada estadual. Aliás, muito bem votada. Ela tem legitimidade. Eu não concordo com muita coisa que ela pensa. Quase tudo. Mas eu preciso ser capaz de conversar com ela, de dialogar. Eu tenho um respeito muito profundo pela democracia. E respeito pela democracia não pode ser a reafirmação apenas do que eu penso”.

Freixo ainda arremata: “A gente está inaugurando um tempo muito perigoso, meio areia movediça. A verdade que podia ser é o que você quer que seja verdade”.

Ser cego não significa que você não possa ver. Dizem, aliás, que os cegos ampliam outas capacidades de perceber o mundo, vendo-o com outros olhos, às vezes, até melhor do que com os olhos apenas.

Já a cegueira seria de outra ordem, como um tipo de perturbação ou desvario que nos anestesia.

“Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem”.

(José Saramago)

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É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.
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