Transplante fecal
Transplante fecal

Transplante de fezes pode salvar vidas! Você sabia disso?

O assunto fezes é até hoje motivo de piada ou de nojo para a maioria das pessoas. No entanto, a medicina encontrou em nossos dejetos a solução para o problema de muitas pessoas que sofrem com problemas no intestino.

Parece mentira, mas esse assunto é tão sério que já existem até doadores de fezes pelo mundo, mas calma que a explicação para que isso possa ser possível é um pouco longa e complexa.

Acompanhem esse assunto tão interessante quanto importante:

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Como funciona o nosso aparelho digestivo

Primeiramente é importante lembrar como funciona o nosso aparelho digestivo e, para isso, o escritor e jornalista espanhol, Juan José Millás, em sua matéria para o jornal El País detalhou de uma forma bem didática, a trajetória de um simples alimento ingerido desde a boca até a sua saída pelo ânus.

“A finalidade do processo digestivo é simplesmente transformar os alimentos que levamos à boca em unidades mais simples e solúveis, capazes de serem absorvidas pelas paredes do trato digestivo e penetrar assim na corrente sanguínea para alimentar as células do corpo”.

Millás fala inclusive do quanto nossos sentimentos e emoções afetam nossa digestão quando estamos comendo, pois até mesmo o estresse pode contribuir com a acidez do estômago, fazendo com que ele fique cada vez mais ácido, causando desconforto e provocando arrotos tão ácidos quanto.

O trato digestivo é formado por boca, esôfago, estômago, intestino delgado, intestino grosso, reto e ânus. Além disso também tem o fígado, que armazena nutrientes e descarta as toxinas, juntamente com a vesícula biliar e o pâncreas, que liberam no intestino sucos essenciais para decompor os alimentos.

Parte dos glicídios, lipídios e proteínas que ingerimos é transformada em um líquido que depois é filtrado pelas paredes do tubo digestivo para chegar ao sangue que irá transportar os nutrientes para as células. O que “sobra”, ou seja, o sólido é então descartado pelo ânus e é aí que entra a outra parte da história.

Segundo o bioquímico e geneticista Carlos López Otín, do Departamento de Bioquímica da Universidade de Oviedo:

“Nosso organismo é a soma das células humanas e dos micróbios que nos habitam, cujo conjunto chamamos de microbiota ou microbioma. A soma das duas coisas é chamada holobionte. Um todo”.

Um mundo chamado microbioma

A microbiota é formada por bactérias, das quais 90% encontram-se no aparelho digestivo, concentradas no cólon. A maioria dessas bactérias são benéficas e contribuem para a sintonia de todas as funções do organismo, inclusive neurológicas.

Assim como cada ser humano possui o seu genoma, as bactérias possuem seu próprio material genômico. O conjunto dos genomas humano, bacteriano e microbiano é chamado de metagenoma, um conceito ecológico indicativo de que o corpo humano é um ecossistema habitado por diversas espécies que transformam o entorno para a sobrevivência.

“No metagenoma, podem ser produzidas variações que derivam fundamentalmente de mudanças no microbioma, que, por ser o que temos de mais abundante, influi decisivamente na saúde e na doença”.

Quando a simbiose entre as células humanas e o microbioma é alterada, ocorre a disbiose, que nada mais é do que o desequilíbrio entre as células de um organismo humano e as células bacterianas e microbianas que o habitam.

Há tempos, sabe-se que somos colonizados por bactérias, das quais a maior parte é formada durante os três primeiros anos de vida. Porém, só recentemente tomou-se conhecimento da influência que a microbiota tem sobre a saúde e a doença, a qual é estudada por uma tecnologia que analisa o metagenoma para identificar as suas variações.

Intervir no microbioma para combater doenças

Com base nos estudos do metagenoma, descobriu-se que é possível intervir no microbioma quando algumas espécies microbianas mostram que perderam influência deixando seu nicho para a ocupação de outras espécias, contribuindo para o surgimento de doenças.

Otín explica que é possível substituir as espécies danificadas utilizando métodos como o uso de prebióticos, probióticos e até com o transplante de fezes.

“Essa última técnica está em experimentação, e os resultados são preliminares. Os prebióticos são macromoléculas, fibras não digeríveis consumidas com a dieta e que favorecem a atividade da microbiota. Probióticos são microorganismos vivos ingeridos com a dieta para favorecer a saúde”.

Prebióticos e probióticos são incluídos nos iogurtes para recuperar ou modificar a flora intestinal. Um dos responsáveis por estudar e produzir bactérias que podem ajudar a equilibrar a microbiota humana é o doutor em ciências biológicas e diretor da Biópolis, empresa de biotecnologia em Valência, Daniel Ramón.

Ramón estuda as bactérias e as incorpora nos iogurtes para que depois sejam realizados exames de fezes em humanos com o intuito de identificar as bactérias que são eliminadas nela. Para isso ele utiliza uma técnica semelhante à de sequenciar o genoma humano, na qual puderam detectar que havia entre 20 a 30% de bactérias em uma amostra fecal.

Através do que se chama de “análise do microbioma fecal“, o Dr. Ramón conseguiu precisar que um indivíduo de 70 quilos tem 1 quilo de bactérias, sendo mais de 1.000 espécies de bactérias no trato digestivo responsáveis por realizar um metabolismo global saudável.

Quando isso não ocorre, é sinal de que o organismo está com algum problema. Como cada indivíduo possui um microbioma digestivo diferente um do outro, chegou-se à conclusão de que alguns possuem em suas fezes bactérias faltantes em outros. Daí surgiu então a ideia do transplante de fezes.

Como funciona o transplante de fezes?

Segundo o Dr. Daniel Ramón, as fezes de um membro próximo da família (marido ou mulher) são recolhidas. Acrescenta-se uma solução salina e coloca-se em uma batedeira. Essa mistura é então filtrada, coada e colocada em uma seringa unida a um catéter para depois ser aplicada no paciente tanto pela parte superior (sonda nasogástrica) ou inferior (colonoscopia ou enema) do aparelho digestivo.

Dr. Daniel explica ainda que, devido a esses procedimentos serem desagradáveis, começaram a vender comprimidos de “batido de fezes”. No entanto, apesar desses procedimentos serem eficazes no tratamento de Clostridium extremas, ainda são necessários mais dados clínicos, bem como a receita de um gastroenterólogo.

Os tipos de fezes variam de pessoa para pessoa e isso se dá não só pelo que comemos, mas também pelas patologias que cada um possui, bem como pela quantidade de água ingerida ao longo do dia. Até o uso de antibióticos pode afetar o trato digestivo e, consequentemente, a produção de fezes “saudáveis”.

Segundo Luiz Miguel Ariza, existe uma bactéria chamada Clostridium difficile que é resistente a muitos antibióticos e ataca a flora intestinal de pessoas debilitadas, podendo desencadear uma gastroenterite fatal, o que tem levado à morte de muitas pessoas nos EUA e na Espanha.

Para esses casos, a única forma de deter a gastroenterite fatal é através do transplante de fezes doadas por uma pessoa saudável.

Fezes são tão importantes quanto o sangue

A importância das fezes é tão grande que já existem bancos internacionais de fezes, pois elas estão sendo consideradas um produto tão precioso quanto o sangue.

Um exemplo de banco de fezes é a Advanced Bio, na Califórnia, onde as fezes são congeladas para extrair a microbiota saudável.

Quanto aos doadores, temos como exemplo o caso publicado na BBC News Brasil, da jovem Claudia Campenella, de 31 anos, que, trabalha como gerente do serviço de apoio a estudantes em uma universidade do Reino Unido e é voluntária doando suas fezes para um hospital que oferece esse serviço.

“Alguns amigos acham que é um pouco estranho ou nojento, mas eu não ligo. É muito fácil doar, eu só quero ajudar as pesquisas médicas. Fico feliz em contribuir”.

Segundo a publicação, cogitou-se o fato de as fezes de Claudia serem aprovadas para o transplante pelo fato dela ser vegana, o que a fez tomar a decisão de ser doadora. No entanto, não há evidências que as fezes dos veganos sejam melhores do que outras, mas os pesquisadores continuam investigando o que as tornam próprias para este fim.

Os pesquisadores investigam os chamados “superdoadores” e têm esperança de descobrir como funcionam as fezes dessas pessoas para melhorar o processo do transplante fecal e quem sabe até testar o procedimento para novas condições associadas ao microbioma, como o Alzheimer, esclerose múltipla e asma.

Vamos aguardar as novidades!

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Sobre Eliane A Oliveira

Eliane A Oliveira
Formada em Administração de Empresas e apaixonada pela arte de escrever, criou o blog Metamorfose Ambulante e escreve para GreenMe desde 2018.

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