Escravidão contemporânea: um mercado de horrores - migrantes vendidos e comprados na Síria

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Escravidão contemporânea

Vendidos como escravos em um verdadeiro mercado ilegal, onde centenas de jovens africanos que viajam para a Líbia, acabam sendo os protagonistas de histórias de horror.

A documentar esse mercado de horrores foi a Organização Internacional para as Migrações, que reuniu numerosos testemunhos sobre o que está acontecendo na Líbia e no Níger. Histórias que mostram que existe um 'mercado' de escravos em pelo século XXI.

Entre as testemunhas encontra-se S.C., um imigrante senegalês que depois de meses de cativeiro na Líbia, conseguiu voltar para casa.

Suas palavras, recolhidas pela OIM, misturam sentimentos de medo e sofrimento e, embora agora o jovem esteja seguro, ele não consegue parar para pensar sobre o que aconteceu.

Histórias de escravidão contemporânea

Partido do Senegal, S.C. chegou a Agadez onde encontrou traficantes e lhes pagou uma soma de US$ 320 para chegar à Líbia depois de dois dias de viagem no deserto, a bordo de uma caminhonete. Apesar dos pesares, a viagem nem foi tão difícil em comparação com o que acontece com os outros migrantes abandonados, atacados ou assassinados por bandidos. Quando S.C chegou ao seu destino Sahba, no sudoeste da Líbia, ele foi acusado pelo motorista da caminhonete de não ter pagado o montante acordado com o traficante, e foi levado junto com todos outros companheiros de viagem, a uma área de estacionamento onde ele pode testemunhar um verdadeiro 'mercado de escravos'.

"Naquele lugar, migrantes subsaarianos eram comprados e vendidos pelos líbios, com o apoio de pessoas de origem ganense e nigeriana que trabalhavam para eles", diz o IOM, mencionando a testemunha.

O jovem migrante foi comprado e, em seguida, transferido para uma casa particular, uma espécie de prisão, juntamente com mais de 100 migrantes reféns.

Ali, os sequestradores forçavam os migrantes a chamarem suas famílias em casa e frequentemente eram espancados durante o telefonema, para fazer com que seus entes queridos tomassem conhecimento da tortura.

À S.C. foi solicitado o pagamento de 300 mil francos CFA, cerca de US$ 480. Dinheiro que ele não tinha, por isso fora comprado por um outro líbio, que resultou em um outro cárcere, ainda maior.

Para deixar aquele local, um novo preço de 600 mil francos lhe foi proposto, ou seja, quase mil dólares para pagar via Western Union ou Money Gram uma pessoa chamada "Alhadji Balde', com sede em Gana.

S.C., dsse à OIM, ter conseguido levantar algum dinheiro graças à ajuda recebida da família e trabalhando como intérprete para aos próprios sequestradores.

Assim ele conseguiu evitar mais alguma tortura mas, entre as condições sanitárias ao limite e o fato de que a comida era dada apenas uma vez por dia, sua vida não era, por assim dizer, mais fácil.

Alguns migrantes que não conseguiram pagar as somas requeridas foram mortos ou deixados à propria sorte para morrerem de fome. Quando alguém morria, voltava-se ao mercado para comprar outras pessoas.

Um mercado ilegal, que também forçava mulheres a se tornarem escravas sexuais.

"Falei com muitos migrantes sobre essas histórias, todos eles confirmaram o risco de serem vendidos como escravos em praças ou em outros lugares em Sabha, tanto por parte dos condutores de pick-ups, quanto por moradores locais, os primeiros que compram migrantes para ajudar em tarefas diárias e então, em vez de pagá-los, os vende a novos compradores", disse um funcionário da OIM em Niger.

"Alguns migrantes especialmente nigerianos, ganenses e gambianos são forçados a trabalhar para os sequestradores como guardas das casas de detenção ou o mesmo no ’mercado'," acrescenta.

Os escravos da Líbia

Os testemônios da OIM na Líbia são semelhantes aos de Níger. Entre estes encontra-se Adam, sequestrado juntamente com 25 outros compatriotas da Gâmbia, enquanto partiam de Sabha em direção à Tripoli.

Agredido o tempo todo, Adam conseguiu pagar as somas exigidas somente após 9 meses de tortura, e com o dinheiro que sua família conseguiu tendo que vender a própria casa.

Assim ele foi levado para Tripoli, abandonado na rua, e graças à intervenção da OIM, após três semanas de hospitalização, Adam está bem. Ele pesa 35 quilos e seu corpo ainda está coberto de feridas da tortura.

Uma outra história de crueldade envolve uma jovem mantida em cativeiro por sequestradores somalis em uma espécie de galpão localizado não muito longe do porto de Misrata.

Reclusa durante três meses e vítima de estupros e violência física de todos os tipos e, apesar de seu marido ter pagado elevadas somas de dinheiro, sua liberdade ainda está longe de acontecer.

"A situação é desesperadora. Quanto mais a OIM se empenha na Líbia mais se percebe o quanto o país é um vale de lágrimas para os migrantes. Algumas histórias são realmente terríveis e as últimas provas relativas ao "mercado de escravos", se juntam à longa lista de atrocidades”, diz Mohammed Abdiker, diretor do Departamento para Operações de Emergência da OIM.

Sabemos que os migrantes que caem nas mãos dos traficantes são forçados a viver em um estado de desnutrição grave e a enfrentar abusos sexuais. Às vezes riscam de serem mortos. No ano passado, em apenas um mês, 14 migrantes morreram em um destes lugares por causa de doenças e desnutrição. Existem notícias da existência de valas comuns no deserto".

Para isso, a organização continua a dar voz a estas vítimas, que muitas vezes conseguem voltar para casa, graças à sua intervenção.

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