Covid-19 avança entre indígenas que trabalham em frigoríficos, verdadeiras “fábricas” de contaminação

A APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), e outras organizações indígenas estão colhendo e publicando estatísticas dos casos de Covid-19 nos povos indígenas.

De acordo com a APIB, até esta sexta-feira, 19, 301 indígenas já haviam morrido por Covid-19, enquanto 6.352 foram infectados pelo coronavírus, atingindo 103 povos.

COIAB afirmou recentemente em Nota de Repúdio que:

“Desde o início, estamos denunciando o avanço do coronavírus em direção às Terras Indígenas e os riscos de contaminação em nossos territórios. A Covid-19 entrou nas Terras Indígenas e está se espalhando rapidamente”.

Na região da Amazônia, os indígenas Arara, da Terra Indígena Cachoeira Seca do Iriri, possuem a maior taxa de contaminação por Covid-19, 46% dos 121 indígenas que lá vivem têm o vírus, mas especialistas acreditam que é provável que todos do território estejam infectados.

Na Aldeia Bororó, em Dourados, a 225 quilômetros de Campo Grande, o filho caçula abre a cova e enterra o pai, primeiro indígena morto vítima da Covid-19. Ele pertencia a etnia Guarani Kaiowá e a morte foi confirmada nesta última sexta-feira, 19, sendo a 40ª vítima fatal da doença que já matou 41 em Mato Grosso do Sul.

 

Em caso de aldeias e povos isolados, a doença está sendo trazida por algum agente invasor, normalmente, grileiros, posseiros, madeireiros e garimpeiros ilegais que, em terras indígenas invadidas, levam a doença aos povos. Já denunciamos aqui o risco que os povos indígenas estão correndo:

Eles não fazem home office: garimpeiros e grileiros seguem degradando a Amazônia (e os indígenas)

Covid-19: a situação é muito grave para os Indígenas do Xingu

Em outros casos, onde os indígenas vivem próximos a centros urbanos, dependem do trabalho urbano para sobrevivência ou dependem dos serviços urbanos, o agente contaminante pode ter sido levado pelos próprios indígenas infectados para dentro da comunidade.

Já denunciamos a morte de bebê indígena e da dificuldade dos povos em receber o amparo dos órgãos governamentais, até mesmo alimentos.

Pedido de ajuda: povos indígenas estão morrendo não somente de Covid, mas também de fome

Mas de todos os agentes externos, tem um grande agente responsável pela disseminação do coronavírus entre os indígenas, os frigoríficos.

Frigoríficos: “fábricas” de contaminação

Os frigoríficos, de forma geral, se tornaram propagadores do vírus, tanto entre indígenas como entre não indígenas.

Rio Grande do Sul tem 80 indígenas com coronavírus, a maioria foi contaminada em frigoríficos da JBS.

O coordenador do Conselho Estadual de Política Indígena (Cepi) e do Conselho Distrital Sul da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ligada ao Ministério da Saúde, Cacique Deoclides, destacou que o vírus está entrando nas aldeias da região norte do estado através dos indígenas que trabalham nos frigoríficos da JBS.

A empresa foi procurada para aumentar o período de isolamento dos indígenas, já que o Ministério Público do Trabalho já havia determinado afastamento de 15 dias desses trabalhadores específicos.

Na região, em torno de 300 indígenas estão vinculados aos frigoríficos da JBS.

Segundo a socióloga da Secretaria do Planejamento, Fernanda Codesola, houve um aumento de 183% nos casos na primeira semana de junho e,

“se considerarmos os primeiros casos em maio, em pouco mais de um mês aumentou mais de mil por cento o número de casos”.

A situação é muito preocupante

Outro caso noticiado, trata-se de um índio Guarani que contraiu a Covid-19 e é 1º caso na região de Foz do Iguaçu

Trata-se de um homem de 32 anos, um dos 45 indígenas da comunidade Ocoy, que trabalham no frigorífico da Lar Cooperativa Agroindustrial, em Matelândia, uma das maiores cooperativas do agronegócio no Brasil.

O indígena entrou para a estatística como o primeiro caso do novo coronavírus entre indígenas no estado do Paraná, em São Miguel do Iguaçu, município situado na região de Foz do Iguaçu.

Essa semana já foram positivados mais três indígenas e 8 ainda aguardam resultado, inclusive um bebê de 45 dias, internado na quinta-feira, 18.

Os indígenas, vivem, em sua maioria, de pequenas lavouras, produzindo para a subsistência, numa situação muito vulnerável, por isso, parte significativa da população, principalmente mais jovem, precisa trabalhar, e os frigoríficos, pela grandiosidade, conseguem empregar centenas de pessoas e suprir a demanda da população indígena em busca de trabalho.

O cacique Celso Jopoty Alves, informou que procurou o Ministério Público Federal (MPF), e na sexta-feira, 19, foi realizada uma reunião com representantes dos governos estadual e municipal, liderança indígena e Ministério Público do Trabalho para debater a situação da comunidade e encontrar soluções, principalmente quanto ao afastamento dos indígenas do trabalho, os quais, inclusive, foram considerados grupo de risco em resolução do governo federal.

Protocolo do governo

O Ministério da Saúde elaborou um Protocolo de Manejo Clínico da Covid-19 na Atenção Especializada, e considerou “a população indígena aldeada ou com dificuldade de acesso”, grupo de risco, portanto integrantes da parcela da população que deveria ser protegida.

Mas infelizmente, ao que sê, muitas empresas não estão cumprindo com a determinação governamental, e os indígenas não têm sido dispensados do trabalho, colocando em risco a saúde de todos.

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Sobre Juliane Isler

Juliane Isler
Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher

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