Pesquisa brasileira identifica nova tática de sobrevivência em borboletas


Todos os animais desenvolvem habilidades e táticas para viverem melhor e com mais segurança. Se nós, humanos, fazemos isso o tempo todo, outros seres também o fazem.

Uma pesquisa brasileira descreveu uma nova tática de sobrevivência descoberta em borboletas.

O estudo envolve pesquisadores da Universidade de Campinas (Unicamp) e da Universidade de Brasília (UnB) em cooperação com a (EUA), conforme divulgou a Agência da FAPESP.

A comunidade científica já sabia que várias espécies de borboletas, ao longo de seu processo evolutivo, desenvolveram a capacidade de liberar toxinas com um gosto nada palatável para evitar alguns predadores, como pássaros. Além do gosto desagradável, as toxinas também deixam um rastro em cores vivas – o que seria um tipo de aviso prévio para os predadores.

As borboletas que não tinham gosto desagradável acabaram tendo que desenvolver táticas de sobrevivência para não ficaram em desvantagem, como, por exemplo, a velocidade. Outra tática é terem um padrão de formas e cores nas asas que informa que elas são mais rápidas e, portanto, mais difíceis de serem capturadas.

O alvo preferencial dos predadores são as borboletas palatáveis e mais lentas, por motivos óbvios. Mas essas também tiveram que se virar para não virarem comida de pássaro. Tais borboletas criaram suas próprias táticas de sobrevivência, entre elas, o mimetismo de escape, uma estratégia que as permite imitar as cores das não palatáveis.

O coordenador da pesquisa, André Lucci Freitas (Unicamp), e o pesquisador Carlos Eduardo Guimarães Pinheiro (UnB) e demais envolvidos já vinham estudando as espécies Heraclides anchisiades capys (palatável e rápida) e Parides anchises nephalion (não palatável, lenta e venenosa).

evolucao mimetismo borboletas

Embora ambas as espécies apresentem diferenças, elas têm algo em comum: padrão de coloração, um exemplo de mimetismo.

Aparentemente, a espécie H. anchisiades tem a coloração de uma borboleta muito tóxica. A ave que não observar o padrão de cores tóxicas e tentar predá-la vai gastar muita energia com uma borboleta muito rápida e correr o risco de ficar sem comida. Essa estratégia de sobrevivência, que usa o mimetismo para enganar as aves, faz com que essa borboleta reduza as possibilidades de predação e possa seguir a sua vida em busca de alimento e reprodução.

De acordo com Freitas:

A borboleta veloz imita a borboleta tóxica e, dessa forma, ganha vantagens adaptativas ao associar a sua velocidade a uma característica (a toxicidade) identificada pelas aves como gosto ruim”.

Já a P. anchises é uma das borboletas que figura entre as mais venenosas da América tropical, embora seja lenta. A sua adaptação está em ter a mesma padronagem de cor da H. anchisiades, que é muito veloz.

A curiosidade é que o habitat da borboleta venenosa são os trópicos e o da mais veloz, todas as Américas. Isso fez com que o último ancestral comum da H. anchisiades mimetizasse a P. anchises, ou seja, o mimetismo ocorrido da vantagem adaptativa fez a espécie espalhar-se por toda o continente americano.

Uma segunda hipótese levantada por Freitas é de que:

“Uma borboleta muito venenosa imitaria outra muito rápida e de ampla distribuição também para minimizar as chances de predação”.

É sobre essa hipótese a que o estudo agora se dedica.

A pesquisa explica ainda que:

“Argumentava-se que o mimetismo de escape só existiria em espécies palatáveis. Nossa pesquisa sugere que, em diversos casos, uma espécie impalatável poder estar fazendo uso do mimetismo de escape. Com isso, a teoria do mimetismo muda e ganha em complexidade”.

Os pesquisadores reconhecem que a publicação deve gerar muita discussão entre os especialistas. Segundo Pinheiro, o trabalho contribui porque mostra que a coloração das borboletas está relacionada não apenas ao aspecto palatabilidade, como também à associação feita pelos predadores sobre suas cores e a dificuldade em capturá-las.

Pinheiro reconhece que:

“Além disso, mesmo algumas borboletas impalatáveis podem também ser rápidas e usar as duas estratégias para evitar ataques de aves. O estudo levanta uma série de novas hipóteses para serem testadas em trabalhos futuros”.

O título do artigo, em inglês, é: Both Palatable and Unpalatable Butterflies Use Bright Colors to Signal Difficulty of Capture to Predators (doi: 10.1007/s13744-015-0359-5), de Pinheiro CE, Freitas AV, Campos VC, DeVries PJ, Penz CM, publicado no Neotropical Entomology, e pode ser lido AQUI.

Talvez te interesse ler também:

TESTE DO NADO FORÇADO, UM DOS TESTES EM ANIMAIS MAIS CRUÉIS QUE EXISTEM

RARO, BEBÊ ELEFANTE ROSA É VISTO NA ÁFRICA – ASSISTA AO VÍDEO

AS NOVE ARANHAS MAIS EXUBERANTES DO MUNDO




Gisella Meneguelli

É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o greenMe desde 2015.


ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Compartilhe suas ideias! Deixe um comentário...