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Ouriço-terrestre: apesar de ameaçado de extinção, cresce o interesse pela domesticação do animal

O ouriço é um pequeno mamífero coberto de espinhos e existem 16 espécies divididas em cinco gêneros, distribuídas nos continentes Europeu, Asiático, Africano e Americano. É um animal de hábito noturno e sua base alimentar são folhas e insetos, mas algumas espécies são unicamente folívoros.

Segundo a bióloga Kátia Cassaro, da Fundação Parque Zoológico de São Paulo, os ouriços-terrestres são descendentes de mamíferos primitivos que viveram no planeta há milhões de anos, são seres solitários, exceto durante o período de acasalamento.

No Brasil, existem 8 espécies de 3 gêneros diferentes popularmente chamadas de ouriço-cacheiro mas a espécie mais ameaçada é a do ouriço-preto.

O ouriço-preto

O ouriço-preto é um roedor endêmico da Mata Atlântica, predominante do norte do Rio de Janeiro até o sul de Sergipe e já foi considerado comum na região cacaueira do sul da Bahia.

O ouriço-preto possui espinhos apenas no pescoço, cabeça e membros anteriores e diferente das outras espécies, possui pelagem macia e escurecida nas costas, enquanto nas outras espécies os espinhos se distribuem por todo o dorso, até a cauda.

Talvez por esse motivo cresceu o interesse da população em domesticar o animal.

Porém, o ouriço tem hábitos muito específicos e, de atividade noturna e habitat natural de floresta, é solitário, com baixo nível de atividade diurna, ficando praticamente imóvel durante o dia. Seu abrigo preferido é a copa das árvores, ficando camuflado entre cipós e folhas secas. Fica claro, portanto, que o ambiente doméstico não é adequado para o bicho.

Em extinção

Além disso, o ouriço-preto é considerado “vulnerável” e está na lista vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) e na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção.

Além da tentativa de domesticação do animal, sua espécie é considerada vulnerável e ameaçada de extinção principalmente pela perda do habitat natural, com derrubada e queimada da Mata Atlântica e também pela caça, atividade ilícita amplamente praticada pela população, principalmente rural, que tem objetivo no consumo da carne do ouriço.

Dada a proximidade da população ao seu ambiente natural, é comum que eles entrem em contato com os animais domésticos da população, acabando se ferindo ou sendo mortos por cachorros.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) mantém um Plano de Ação Nacional (PAN) para conservação do ouriço-preto. O Instituto reuniu informações científicas que permitiram a elaboração de um diagnóstico sobre o atual status de conservação e, portanto, a proposição de um conjunto de ações que visem reverter e/ou mitigar o processo de extinção da espécie.

Ouriço como animal doméstico? Melhor não!

Diante disso tudo, surge a pergunta: é apropriado ter um ouriço como animal doméstico?

É comum encontrar na internet sites que inclusive “ensinam” os cuidados necessários para cuidar do ouriço em casa e em todos os casos, por óbvio, o ambiente, atividades e alimentação são totalmente contrários ao seu ambiente natural.

Essas “dicas” incluem convívio com outros animais domésticos, aquecimento individual em caso de temperatura baixa, terra para que possam escavar, gaiola com roda grande para exercício como utilizado para os hamester e alimentação, inclusive a base de “ração”, com informações sobre lojas de animais que já possuem esse tipo de produto.

Na internet também é possível encontrar sites de compra do animal e muitas vezes não se sabe qual a origem e procedência do ouriço, nem tampouco se a criação particular em cativeiro é autorizada ou está respeitando a legislação vigente.

É muito comum que pessoas físicas que criam os animais no quintal talvez o façam em condições precárias, o que favorece problemas de saúde com objetivo financeiro único, sem nenhum cuidado.

Por isso pense muito bem antes de aderir a essa “moda” de domesticação dos ouriços, avalie se está apto a cuidar de um animal que exige tantos cuidados e se vale a pena manter em casa um bicho de hábitos tão diversos. Avalie com cuidado se poderá trazer mais prejuízos do que benefícios ao animal.

Por sua condição de espécie vulnerável, habitat de floresta e copas de árvores, hábitos solitários e noturnos, a domesticação do ouriço-terrestre não é a atitude mais adequada que você possa fazer, para o bem-estar do animal.

Você pode pensar que o fato do ouriço ser criado em cativeiro impede o seu retorno ao seu habitat natural, porém, avalie também o fato de que o aumento da procura pela compra do animal, consequentemente, faz aumentar o interesse e continuidade desse tipo de negócio. Lei da oferta e da procura.

Se mesmo assim estiver decidido a adquirir um ouriço-terrestre, você provavelmente poderá escolher entre fazer a aquisição de uma loja de pet shop, de uma pessoa física ou de um criador credenciado, que é a melhor alternativa dentre as três.

Antes de firmar a compra, siga as seguintes orientações:

  • Peça para conhecer as instalações e a procedência do animal, se era silvestre ou nascido em cativeiro e suas condições de saúde e higiene.
  • Peça ainda uma certificação da saúde do animal, criadores confiáveis arquivam os registros médicos de cada filhote posto à venda e dos pais deles. Portanto, são aptos a informá-lo a respeito de quaisquer doenças ou problemas sofridos por ele e das vacinas obrigatórias para ouriços em sua região.
  • Quando encontrar um bom criador, peça orientações a respeito do manuseio e dos cuidados que o animal exige.

Outro ponto fundamental a se avaliar é que nem todos os ouriços vão ser animais de estimação sociáveis, alguns vão ter sempre medo dos humanos com quem convivem, o que leva a frequentes abandonos dos bichos. Considere todos os pontos positivos e negativos antes de decidir adquirir um animal exótico.

Outra questão de grande importância é não confundir com outras espécies de ouriço de origem não endêmica no Brasil, principalmente o ouriço-pigmeu-africano, o hedgehog, que atualmente está em moda.

A criação comercial, compra ou venda de hedgehog estão proibidos no Brasil, por decisão do IBAMA desde 1998, portanto, a criação, aquisição ou venda dessa espécie é crime. A introdução ilegal de espécie não nativa pode gerar desequilíbrio ambiental afetando diversas espécies em cadeia produtiva.

O conhecimento desse tipo de comércio ilegal deve ser denunciado à polícia ambiental da região mais próxima.

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Sobre Juliane Isler

Juliane Isler
Juliane Isler, advogada, especialista em Gestão Ambiental, palestrante e atuante na Defesa dos Direitos da Mulher
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