Contaminação de mercúrio em terras Yanomami é uma triste realidade

Faz dias que ando dando voltas a este assunto - contaminação de povos indígenas com mercúrio. Caso gravíssimo que a mídia investiga, o poder público diz que sim, diz que não, enfim, e não são tomadas medidas realmente eficazes para a solução, de uma vez por todas, da questão. Em resultado disso as populações Yanomamis, já seriamente contaminadas há 4 décadas, começam a apresentar câncer e outros males, de forma acentuada. Dê uma olhada, abaixo, nos dados da pesquisa da Fundação Oswaldo Crus - Fiocruz divulgada em março passado.

É comprovado pelos cientistas, a Fiocruz pesquisou, o ISA denunciou, as lideranças indígenas denunciam diariamente: Yanomamis e outros povos indígenas estão contaminados por mercúrio da extração de ouro do garimpo. Esta é uma das realidades mais desastrosas que relacionam as etnias indígenas que habitam seus locais ancestrais com a mineração irregular, de garimpeiros anônimos, ou mesmo com a dita mineração regulada pelas leis nacionais, mas que não estão minimamente preocupadas com a vida dos seres humanos do entorno de suas áreas, arbitrariamente, logradas.

São, atualmente, cerca de cinco mil garimpeiros que atuam ilegalmente na Terra Indígena Yanomami. “A terra é demarcada pelo Governo Federal, mas eles não respeitam. Eu estou muito preocupado, porque nós estimamos que existam mais de 60 balsas de garimpeiros e esse número só tem aumentado”, alerta Davi Kopenawa.

E a denúncia já é antiga, só a situação é que não muda. Veja então:

O cientista Bruce Forsberg vem, há tempos, alertando em seus estudos para um fenômeno menos conhecido: "Em fios de cabelo de pessoas que vivem no Alto Rio Negro, no estudo que fizemos no Amazonas, encontramos concentrações de mercúrio 7 vezes maior do que no Madeira ou Tapajós. E no Alto Rio Negro não temos garimpo". Bruce discute também a interação entre o mercúrio encontrado naturalmente na região e a presença de bactérias capazes de transformar o metal em compostos orgânicos. Alguns rios amazônicos possuem o metal em suas águas, nos seus lodos, etc, e se discute se todo o mercúrio lá existente é de origem natural, orgânica e quanto, da atividade garimpeira. Leia aqui também mais sobre essa discussão.

Desde fins da década de 1960 foram intensificados os estudos sobre a toxicologia desse metal no corpo humano e na cadeia alimentar. “Danos irreversíveis ao sistema nervoso, inclusive o comprometimento de áreas do cerebelo associadas a funções motoras, auditivas e visuais, são alguns dos males que o mercúrio costuma causar em seres humanos”, diz o biólogo Wanderley Bastos, da Universidade Federal de Rondônia (Unir). “Uma vez lançado no ecossistema, o mercúrio foge totalmente de nosso controle; e ainda não temos tecnologias para frear os processos biogeoquímicos de sua disseminação.”

Denúncia de Davi Kopenawa apresentada à ONU faz MP agir em Roraima

Davi Kopenawa, líder da etnia Yanomami denunciou formalmente a contaminação de mercúrio em índios das etnias Yanomami e Ye’kwana, que ocupam a Terra Indígena Yanomami (TIY), na região Norte de Roraima, causada pela mineração ilegal de outro. Esta denuncia foi fundamentada em uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que indica que o nível de contaminação em algumas pessoas chega a 92,3%. Veja aqui sobre a pesquisa da Fiocruz. Nas palavras de Davi Kopenawa ISA, o líder indígena confirma a ocorrência de garimpo ilegal dentro da TI e considera este fato o principal responsável pela contaminação dos indígenas. “São garimpeiros que contaminam nossos rios. Nós estamos denunciando isso desde 2004. Eles fazem o garimpo de ouro com pequenas máquinas manuais e estão destruindo os rios e nos contaminando”, disse.

Esta é uma situação muito antiga. Segundo Kopenawa o garimpo em terras indígenas yanomamis ocorre desde 1986 quando 45 mil garimpeiros invadiram a TI. “Só eu estou há 45 anos nessa luta. Empurraram o garimpo para a Terra Yanomami, colocando balsas e máquinas para derrubar os barrancos fazendo com que os rios ficassem poluídos e contaminados”, contou. 

E hoje grande parte, se não toda a população yanomami e de outras etnias à jusante dos garimpos, estão contaminadas com esse metal que se acumula na cadeia alimentar e provoca sérias alterações neurológicas e, inclusive, genéticas. No meu entender esse é um genocídio lento das tribos da região amazônica. Não matam com balas, não se vê sangue, mas os povos autóctones vão sendo extintos. Isso é crime!

“Os índios começaram a ter disenteria, dor de barriga e dor de cabeça. Aos poucos foi aparecendo câncer nos índios e comecei a ficar preocupado. Essa contaminação está nos deixando doentes e matando nossas mulheres e crianças”, afirmou Kopenawa.

E a Fundação Nacional do Índio (Funai) faz o quê? 

Nas palavras de Davi Kopenawa: “A Funai hoje está fraca. É o órgão que cuida do nosso povo e protege, mas está sem estrutura e sem dinheiro para ir às nossas terras e levar esses garimpeiros embora”. Fortalecer a Funai é imperativo para que se possa, realmente, fazer algo pelas etnias indígenas nas suas terras ancestrais pois, este é o órgão público designado para sua defesa e cuidados. Também é fundamental que a lei se aplique com seriedade pois, ações da Polícia Federal e do Exército Brasileiro, operações que levaram à expulsão dos garimpeiros ilegais de terras indígenas sem que ocorra prisão dos mesmo não impedem a sua volta. Davi Kopenawa fala de duas operações já realizadas, Xawara, em 2012, e Warari Koxi, em 2015: “O problema é que a Polícia Federal tira, mas não prende. Depois de um tempo, eles voltam de novo”, afirma.

A Funai afirma que está fazendo sua parte: “Para além das atividades de fiscalização ostensiva, a Funai atua no apoio e na promoção de processos de vigilância e monitoramento territorial indígena, forma que traz mais eficácia aos procedimentos relacionados à gestão do território, onde se insere o combate aos ilícitos ambientais e, ainda, a promoção de atividades lícitas e sustentáveis” mas... e o resultado real, qual é? Sem punição essas ações são pontuais e ineficazes.

Estudos da Fiocruz e do ISA

A Fiocruz e o ISA  visitaram 19 aldeias, em 2014, nas regiões de Papiú e Waikás, local das etnias Yanomami e Ye’kwana. Nesta pesquisa de campo foram coletadas 239 amostras de cabelo dos grupos vulneráveis: crianças, mulheres em idade reprodutiva e adultos com algum histórico de contato direto com a atividade garimpeira. Os indígenas da aldeia de Aracaçá são os mais contaminados, com 92% da sua população, na maioria mulheres jovens em idade fértil e crianças. Também se comprovou a contaminação dos peixes, alimento principal da dieta alimentar dessas tribos: 35 amostras de peixes foram coletadas e analisadas.

Ministério Público Federal de Roraima (MPF-RR) em ação

O MPF-RR recebeu, em 7 de março passado, copia da pesquisa da Fiocruz e ISA junto com a denúncia Yanomami apresentada à relatora especial da ONU sobre os direitos dos povos indígenas, Victória Tauli-Corpuz e à subprocuradora-geral da República, Deborah Duprat. O MPF-RR afirma que, com esses dados pretende “traçar estratégias para atuar no caso”. Já vai tarde, pois!

Sei não, sei não! Parece mais um jogo de empurra que não visa, na real, resolver o problema absurdamente urgente da saúde indígena em suas próprias terras ancestrais. Não há interesse? Nós do GreenMe temos interesse na solução, nossos mecanismos são a caneta e as palavras, escrevemos, divulgamos e, contamos com a sua tomada de consciência e mobilização. Se cada um fizer a sua parte, acreditamos que, um dia, a justiça verdadeira, aquela que respeita o ser humano e toda forma de vida, seja uma realidade nas terras brasileiras, no mundo.

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Fonte referências e fotos: ISA e Fiocruz