Brasil já escolhe quem sobreviverá ao novo coronavírus: os ricos

Em alguns estados brasileiros, aconteceu o que se temia: o colapso do sistema de saúde.

Em uma transmissão no Youtube, o biólogo e pesquisador Atila Iamarino mostrou gráficos de como está a ocupação dos leitos de UTI no país. No Maranhão, por exemplo, a taxa já é de 100% e em várias outros lugares está muito próximo disso.

Para piorar, o Brasil está no escuro: como não fazemos testes de Covid-19, não sabemos a realidade dos índices de infecção e mortes no país. Como também não praticamos corretamente o distanciamento social, a nossa curva epidêmica segue crescendo sem qualquer previsão de achatamento.

Escolhas difíceis

As consequências desses passos mal dados estão se refletindo agora com os leitos lotados e os profissionais de saúde sendo obrigados, por falta de condições de trabalho, a fazerem escolhas difíceis. No estado do Rio de Janeiro, já existe uma matriz de pontuação que orienta a escolha de pacientes que terão prioridade para receber o tratamento para a Covid-19. Quem pontuar mais, ficará no fim da fila da sobrevivência.

Mas a realidade mais evidente escancarada pela epidemia do novo coronavírus no Brasil é que o principal critério que dá chance a uma pessoa sobreviver à doença é a sua classe social. Com praticamente todos os leitos hospitalares ocupados em Belém, os ricos paraenses têm usado a sua fortuna para montar uma UTI particular em casa ou usar uma UTI aérea para levá-los a São Paulo, onde estão sendo tratados em hospitais de elite.

Dinheiro para menosprezar

Os afortunados brasileiros, muitos dos quais são os defensores do fim do isolamento social, menosprezaram o poder do vírus e, agora, usam o seu dinheiro para driblá-lo, como fez o empresário Jonas Rodrigues, proprietário de uma rede de supermercados no Pará, que está sendo tratado na capital paulista. Ele contou à Época que:

“Não era muito adepto do álcool em gel. Estava trabalhando todos os dias no escritório, sem home-office, passeava pela cidade e ia às compras mesmo sendo dono uma rede de supermercado. Adoro visitar mercados pelo país afora. Se arrependimento matasse…”.

Arrependimento não mata, mas uma pandemia sem que haja responsabilidade social e do poder público sim. E é esse desfile de mortes que estamos vendo passar diariamente nas nossas timelines e nos telejornais, ainda que muita gente duvide da seriedade da situação que o coronavírus instalou no Brasil.

Em Belém as pessoas já estão morrendo em casa, número que não entra nos registros do Ministério da Saúde. E não apenas a capital paraense está vivendo esse drama. Em várias outra capitais, sobretudo onde há menos infraestrutura sanitária, doentes saem de casa em busca de atendimento hospitalar e retornam a ela porque não há mais leitos disponíveis. Em Belém e região metropolitana, a partir desta quinta-feira (7) passa a vigorar o lockdown, ou seja, o bloqueio total para tentar minimizar o caos.

E daí?

Chama a atenção de todo o mundo a negligência com a qual o governo federal está lidando com a epidemia do coronavírus, sobretudo, após a demissão do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O novo ocupante do cargo, Nelson Teich, não está conseguindo dar uma pronta resposta ao surto epidêmico no país.

De acordo com dados de ontem (6), divulgados pelo G1, o Brasil já registra 12.218 casos de infecção confirmados e 8.536 mortes por Covid-19, sendo que 615 mortes e 10.503 novos casos ocorreram em apenas 24 horas.

Diante desse cenário, Teich disse, em uma coletiva de imprensa, que o governo deveria falar “um pouco mais da doença neste momento”. O ministro ainda arrematou:

“Porque a gente tem coisas no site, a gente tem orientações, mas, intensificar essa comunicação, acho que realmente vai ser importante”.

O fato é que o Brasil perdeu o timing de dar prioridade ao problema pela inércia do governo federal e pela ausência de corresponsabilidade social para evitar mais contágios e, consequentemente, óbitos por Covid-19. Gráficos comparativos que mostram o comportamento do vírus na América do Sul e Brasil deixam claro que houve algum erro estratégico na condução do enfrentamento à epidemia no país. 

É o que aponta um estudo “Mais do que palavras: discurso de líderes e comportamento de risco durante a pandemia”, conforme divulgado por O Globo. Segundo a pesquisa, dois eventos teriam incitado a ida de cerca de 1 milhão de pessoas às ruas do país, diariamente, durante 10 dias: a manifestação de 15 de março em Brasília e o pronunciamento presidencial, em cadeia nacional, no dia 24 de março, que tratou a Covid-19 como uma “gripezinha“.

Essas atitudes teriam sido responsáveis por 10 mil infectados no período de 10 dias, isto é, 10% do número de pessoas oficialmente com Covid-19, até dados do último domingo.

Em um ensaio no qual analisa a pandemia do novo coronavírus, chamado “A cruel pedagogia do vírus“, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos comenta os coletivos mais atingidos pela crise pandêmica, sendo um deles o grupo de moradores das periferias, que estão sendo mais vitimados ainda pela exclusão e discriminação sociais.

Sousa Santos segue fazendo um alerta fundamental, que serve bem para analisarmos o que está acontecendo aqui no Brasil. Para tal, ele explica a etimologia da palavra crise, que é natural e passageira, mas que tem sido usada para instaurar uma estado de normalidade. É o que está acontecendo, agora, com a questão política e sanitária no país.

A suposta crise financeira tem servido de pretexto para cortar recursos públicos de áreas estratégicas como saúde e educação. Esse “estado permanente” de crise se fez sentir mais ainda quando a verdadeira crise se instalou: não conseguimos dar uma resposta adequada à epidemia porque caímos no buraco de que a economia está em primeiro lugar.

Brasil já escolheu quem sobreviverá

Ou seja, quem tem dinheiro hoje no Brasil, embora não esteja imune ao coronavírus, tem mais chance de sobreviver a ele porque tem mais poder de barganha para negociar com hospitais privados um leito. Se compararmos com países onde a assistência à saúde é gratuita e universal e ainda não foi tão monetizada quanto no Brasil, o número de aviões hospitalares privados sobrevoando os seus céus deve ter sido perto de 0.

Entramos numa espiral que não nos deixa ver uma luz no fim do túnel. Não temos sequer ideia de quando poderemos projetar um cenário mais animador no qual vidas serão salvas por uma ação conjunta da sociedade e governo. Como ilustra o sociólogo, a pandemia é uma quarentena dentro de uma outra quarentena. No Brasil, estamos vivendo um pesadelo dentro de outro pesadelo, sem hora para acordar de nem um deles.

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É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.