Editoras falidas e livrarias fechadas. Mas será mesmo que o brasileiro lê pouco?

Recentemente, várias editoras e livrarias decretaram falência, fechando as suas portas. Aparentemente, isso seria um sintoma de que seus negócios não deram lucro porque há um mercado em crise. Se as pessoas não leem, os livros ficam encalhados nas prateleiras das lojas. Mas será mesmo que os brasileiros têm lido pouco?

Alguns usuários de redes sociais têm chamado a atenção para os seus desafios de leitura. Muitos estabelecem metas de lerem “X” livros por ano, sob a promessa de diminuírem o tempo gasto com a internet. Os clubes de leitura também ganharam as redes sociais, onde são marcados os encontros e divulgadas as listas dos livros que os membros têm de ler durante o ano.

Se essas iniciativas têm ganhando cada vez mais espaço on line e off line, talvez a questão não seja que o brasileiro lê pouco, mas sim que o modelo de negócio de algumas editoras e das gigantes de venda de livros esteja obsoleto.

O brasileiro nunca leu tanto

Segundo uma reportagem de El Pais, desde 2006 o mercado editorial brasileiro reduziu em 25%. Isso levou a uma cascada de demissões, fechamento de negócios e prejuízos para esse ramo de negócio. Apesar desse cenário, há quem defenda que o mercado editorial no país não está em crise, como o CEO do Clube de Autores, Ricardo Almeida. Para ele: “O brasileiro nunca leu tanto”.

O Clube de Autores é a maior plataforma de autopublicação da América Latina. Cerca de 50.000 autores são atendidos por ela, que ainda conecta diversos outros profissionais, como editores, revisores, designers, gráficas e livrarias. Almeida analisa que a crise acometeu o modelo das megastores – algumas das quais pediram recuperação judicial em 2018, ano em que o Clube de Autores viu seu faturamento crescer 30%.

Os dados divulgados por Retratos da Leitura no Brasil também refletem o crescimento pelo interesse da leitura no país: é mais visível pessoas lendo nas ruas, no transporte público, em filas, cafés… O número de leitores passou de 50% para 56% de 2011 a 2015, de acordo com o último relatório da Retratos, o que representa uma média de livros lidos por anos de 4 para 4,96.

De 2006 a 2018, o número de livros vendidos também cresceu, saltando de 318,6 milhões para 352 milhões, fazendo o preço médio dos livros cair em 34%. Acontece que esse crescimento não ficou apenas concentrado nas mãos das megastores, que tiveram uma queda de participação nas vendas de 53,11% em 2017 para 46,25% em 2018. Elas tiveram que começar a dividir o espaço com os clubes de leitura, que representaram 1,08% do mercado em 2018.

A crise não é de leitor, e sim de mercado

Segundo Arthur Dambros, diretor de marketing da TAG (um clube de leitura para assinantes): “A crise não é de leitor. É do mercado do livro”. A TAG, que existe desde 2014, tinha em 2015 apenas 100 assinantes; hoje conta com 45.000. O modelo de negócio da TAG é oferecer uma caixa de livros mensalmente aos seus assinantes, organizada por um curador, a preços que variam de 45,90 a 55,90 reais mensais.

Muitos dos assinantes da TAG interagem para discutir os livros em cafés ou outros espaços. Em comum, além de serem participantes de um clube de leitura, têm uma lista considerável de livros lidos anualmente.

Internet ajuda

O presidente da Câmara Brasileira do Livro, Vitor Tavares, pontua que o mercado precisou se ajustar à nova realidade.

“Num primeiro momento, todo mundo ficou muito preocupado. Mas percebemos que funcionários que deixaram grandes empresas abriram pequenos negócios, novas livrarias surgiram. A figura do livreiro como consultor literário retornou”, analisa. As vendas pela internet também aumentaram: as livrarias virtuais passaram a vender de 2,91% a 4,24%.

Outra aposta do mercado editorial são os audiolivros, mesmo esse produto sendo ainda tímido no Brasil. Para Eduardo Albano, sócio fundador e diretor de conteúdo do Ubook, é preciso despertar o público brasileiro para ouvir livros.

“Com a quantidade de pessoas que a gente vê andando de fone de ouvido na rua, parece que é uma questão de mostrar que o audiobook existe”, comenta.

Há de se levar em conta que, atualmente, os leitores têm facilmente à sua disposição os e-books, um mercado em expansão, uma vez que os leitores de livros digitais agrupam uma quantidade enorme de livros que pode ser carregada para qualquer lugar. Muitos e-books têm preços mais competitivos do que a versão em papel, além de alguns deles serem gratuitos em plataformas como a Amazon.

Repartir o bolo é sempre melhor. O modelo imposto pelas megastores vinha oferecendo aos leitores uma experiência homogeneizada. O que esses novos modelos editoriais têm mostrado é que é possível despertar o hábito da leitura a partir de experiências mais significativas para os leitores, que não apenas têm a oportunidade de descobrir novos autores, ao mesmo tempo em que têm disponíveis os clássicos, como de ampliar a sua atividade de leitura – um ato individual – para uma experiência socialmente partilhada.

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É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.