Paulo Freire não é só um nome, é um dos métodos de aprendizagem mais conhecidos no mundo

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Vira e mexe o nome do educador brasileiro Paulo Freire aparece na boca de quem não tem qualquer apreço pela educação. O mais interessante é que aqueles que o criticam, na maioria das vezes, sequer o conhecem.

Entretanto, Paulo Freire é motivo de orgulho para os brasileiros que conhecem a sua obra e a sua vida. Não é à toa que ele é o pesquisador brasileiro mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo. Suas pesquisas sobre alfabetização e aprendizagem estão no currículo de todas as escolas de Educação e Pedagogia do mundo.

Mas por que Paulo Freire é tão criticado? A razão é que a sua obra e o seu ideal representam um perigo para a classe política brasileira – ela mesma constituída por uma maioria de iletrados que parece querer que o resto da sociedade permaneça na sua mesma mediocridade intelectual.

Métodos de ensino-aprendizagem

Os pais que podem escolher uma escola para os seus filhos, em geral, optam por uma escola privada, sem se questionarem qual é a metodologia adotada por ela. Muitos critérios entram em jogo: preço, proximidade de casa, círculo de amigos, qualidade… Mas nem sempre essa qualidade é associada à concepção educacional da escola. Entender o método de ensino de uma escola deve ser, também, um critério para essa escolha tão importante.

Mais quais seriam eles?

Tradicional

É o tipo mais comum aplicado na maioria das escolas. O professor é aquele que transmite o conhecimento para um aluno que, passivamente, o aprende. Na escola clássica tradicional tem lição de casa, provas e aquele conteúdo que prepara o aluno para fazer as provas de ingresso nas universidades.

Waldorf

A waldorf foi desenvolvida em 1919 e é considerada um dos maiores movimentos educacionais do mundo. Suas escolas também são chamadas de steinerianas, por causa do seu fundador, o alemão George Steiner, cujo método está presente em mais de 60 países.

A metodologia Waldorf preza muito pelo desenvolvimento lúdico da criança e não busca a qualificação profissional do aluno como princípio fundamental, sendo esta uma consequência natural dos ciclos de aprendizagem.

Montessori

Maria Montessori foi uma mulher à frente de seu tempo e de uma grande sensibilidade. Sua célebre frase é: “ensina-me a fazer sozinho“. O método montessoriano de ensino parte basicamente do princípio de que as crianças são capazes de aprender sozinhas através de sua curiosidade natural e de estímulos necessários, encontrados nos jogos educativos desenvolvidos pela própria Maria Montessori para o processo de ensino-aprendizagem.

Existe um “Método Paulo Freire”?

Paulo Freire ficou conhecido no mundo todo pelo êxito que conseguiu alfabetizando adultos na cidade Angicos, no Rio Grande do Norte. Em 1962, era diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife, quando desenvolveu a sua proposta em Angicos, durante 45 dias, com um grupo de 300 cortadores de cana e um conjunto de professores orientados por ele.

Freire nutria uma crítica ao sistema tradicional de alfabetização empregado no Brasil. Dizia ele:

“Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”

Isto é, quem está sendo alfabetizado precisa entender o contexto social daquilo que está aprendendo.

Por isso, Paulo Freire é não somente um educador, mas, também, um humanista, porque considera o educando o centro do processo de ensino-aprendizagem.

É preciso colocar os pingos nos “is” para entender o trabalho educacional de Paulo Freire. Embora se diga que há o “Método Paulo Freire”, o educador nunca criou um. Por isso, muitos estudiosos da área de alfabetização e letramento preferem chamar os fundamentos que edificaram o seu trabalho de “proposta”, como esclarece o Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Universidade Federal de Minas Gerais (Ceale/UFMG), um dos mais importantes do Brasil na área.

O educador brasileiro, que viveu de 1921 a 1997, propôs um “Círculo de Cultura”, que consistia em reunir uma turma de alfabetizandos sob a orientação de um professor que os incentivava a narrarem as suas vidas a partir de suas comunidades de pertencimento. O Círculo não era apenas simbólico, mas espacial, já que os estudantes e o professor ficavam dispostos em “roda” na sala de aula, favorecendo a interação entre eles.

A teoria de Paulo Freire tinha como conceitos basilares a linguagem e o diálogo. Toda a sua pesquisa e prática buscavam levantar e organizar o léxico dos alunos em eixos temáticos significativos para as suas vidas, a partir dos quais o material didático ia sendo construído para a aprendizagem da leitura e da escrita.

Alfabetização em etapas

A proposta de alfabetização de adultos freireana é constituída de três etapas, sempre interativas e de participação conjunta de alunos e professores.

1. Etapa de Investigação:  ocorre a busca conjunta das palavras e temas mais significativos da vida do aluno, dentro de seu universo vocabular e da comunidade onde ele vive.

2. Etapa de Tematização:  ocorre a tomada de consciência do mundo, pela manipulação de conceitos e significados das palavras geradoras, chegando-se aos temas geradores que nortearão o processo.

3. Etapa de Problematização: o professor desafia e inspira o aluno a superar uma visão naturalizada do mundo para construir uma atitude consciente sobre ele.

Estas três etapas são divididas em cinco fases de aplicação, que abrangem por ordem: levantamento do universo vocabular do grupo; escolha das palavras selecionadas, com critérios de riqueza e dificuldade fonética; criação de situações existenciais que representem a vida típica do aluno; criação das fichas-roteiro para os debates; criação das fichas de palavras para a decomposição das famílias fonéticas que correspondem às palavras geradoras.

Alfabetização revolucionária

Ao mesmo tempo, a partir da tematização de suas próprias vidas, os estudantes tomavam consciência delas e podiam apropriar-se de uma visão crítica dos significados sociais. Ou seja, a proposta de alfabetização de Paulo Freire era e é muito revolucionária, porque ela deu condições de analfabetos se alfabetizarem ao mesmo tempo em que se tornavam sujeitos críticos – algo absolutamente perigoso para uma elite desinteressada na emancipação popular para o exercício da cidadania.

Tudo isso começou a acontecer na década de 1960. O sucesso da proposta alfabetizadora de Paulo Freire foi tão grande que ganhou reconhecimento nacional, em 1963, com o Programa de Educação de Adultos, coordenador pelo próprio educador. Mas isso se deu em um contexto progressista, que foi violentamente reprimido no ano seguinte, em 1964, com a ditadura militar. Consequentemente, o projeto de um Brasil alfabetizado não se realizou.

O destino de Paulo Freire, o maior educador brasileiro e de prestígio internacional, foi o exílio, visto que os militares consideraram a sua proposta educacional “subversiva”.

Paulo Freire sobrevive, entre aqueles que admiram e reconhecem o valor de sua obra, que se manifesta na maioria dos livros didáticos destinados à Educação de Jovens e Adultos (EJA), sobretudo, no processo de alfabetização.

Ele não foi o único brasileiro incompreendido e perseguido pelos seus ideários educacionais. O intelectual baiano Anísio Teixeira, seu contemporâneo, também foi por várias vezes difamado pela elite, pela Igreja e pela política brasileiras. Pior ainda do que Freire, Anísio caiu no ostracismo. Quase ninguém sabe quem ele foi e qual a sua importância para a educação no Brasil, sobretudo, para o ensino superior brasileiro.

Ter memória é ter uma história para contar. No lugar de palavras vazias dirigidas a quem contribuiu para construir uma história para nos orgulharmos, precisamos é de muita história para estratificar uma memória nacional que nos faça mais conhecedores de nossa realidade, para que possamos transformá-la – como tinha por objetivo a educação na qual Paulo Freire acreditava. Mas isso é muito revolucionário, e o que é revolucionário é considerado um perigo para certas pessoas.

Paulo Freire é o patrono da educação brasileira. Escreveu obras fundamentais como  Pedagogia do Oprimido, Educação como Prática da Liberdade, Pedagogia da Autonomia, entre outras. Foi um homem que tinha como princípio o respeito ao ser humano e guiava a sua proposta pela premissa do “aprender junto”.

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Fonte foto: Painel na Secretaria de Educação em Campinas

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É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.
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