Significados da morte: é preciso falar sobre a morte para aceitá-la como dado natural da vida

Você acredita em vida após a morte? Ou para você quando morremos instala-se o vácuo absoluto, o nada? Será que a morte tem cheiro, som, cor?

A médica britânica Kathryn Mannix, que cuida de pacientes com doenças incuráveis, tentou explicar a sua visão da morte no livro With the End in Mind: Dying, Death, and Wisdom in an Age of Denial (“Com o fim em mente: morrer, morte e sabedoria na era da negação”, em tradução livre), até mesmo na tentativa de tocar em um assunto tabu para muitas sociedades.

Em muitas delas, a morte é tratada com eufemismos, como se a língua pudesse suavizar a única experiência pela qual todos os seres vivos têm a certeza de que irão experimentar. Expressões como “passou dessa para melhor”, o uso do verbo “falecer” no lugar de “morrer”, entre outras, dão testemunho da tentativa usada por muitas pessoas para evitar falar da morte, a “indesejada das gentes”.

No México, por exemplo, El dia de los Muertos é um dia de celebração. Os mexicanos vão para os cemitérios e levam as bebidas e comidas preferidas do morto para celebrar junto com ele os momentos compartilhados em vida. Famílias se reúnem em torno dos túmulos de seus mortos e cantam e tocam as músicas preferidas daquele que se foi. É um momento de união e celebração que garante a melhor forma de eternizar quem se foi e consolar aqueles que ficaram: mantendo na memória o morto.

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A BBC, em sua plataforma BBC Ideas, traz a opinião da médica sobre a morte, a fim de colocar em discussão algo que todo mundo sabe que existe e que está presente na vida de todos, mas que, paradoxalmente, é evitado de ser dito.

A morte é tratada como algo triste e doloroso. Claro que a morte de um ente querido traz, para quem permanece vivo, um buraco no peito, isto é, um espaço vazio que nunca será substituído por nada nem ninguém. Mas isso não quer dizer que essa dor abrupta, provocada pela morte, sobretudo quando inesperada, tenha que ser uma marca de sofrimento perene.

E é justamente nessa linha que Mannix acha que deveríamos encarar a morte: de frente. Ela acredita que no lugar da tristeza, da ansiedade e da desesperança provocadas pela morte, deveríamos aceitá-la como um dado perfeitamente natural da vida. E, para isso acontecer, é preciso que se fale da morte, e não que se usem palavras ou expressões substitutas que amenizam o seu significado.

Isso significa encarar que, assim como outros processos – como o nascimento – a morte é um estágio da vida, o qual sabemos que virá implacavelmente para todos nós. É o momento em que a vida se cansa, se esgota, até o adormecimento total.

A médica, que trata de pacientes terminais, explica que as famílias dos doentes têm muita dificuldade de lidar com a morte e com o próprio paciente.

Ela dá como exemplo o “som da morte”, que seria um tipo de ruído que o doente exprime à medida que vai ficando mais inconsciente. Ele está tão relaxado que não irá, por exemplo, pigarrear e a sua respiração vai passando por pequenas quantidades de muco ou saliva na parte posterior da garganta. Familiares tratam esse som como algo negativo, mas trata-se de um indício de que o doente está profundamente relaxado e, por isso mesmo, a saliva não o incomoda ao respirar. No final da vida, é normal que a respiração fique mais superficial.

morte transformacao

Uma morte normal é um processo tranquilo e suave, o qual muitas vezes sequer é percebido pela família – ou ignorado para não ser enfrentado.

Na opinião da Mannix, é perfeitamente possível recuperar o debate sobre a morte, como forma de nos prepararmos melhor para ela e, assim, nos auxiliar a nos consolar mutuamente.

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É doutora em Estudos de Linguagem, já foi professora de português e espanhol, adora ler e escrever, interessa-se pela temática ambiental e, por isso, escreve para o GreenMe desde 2015.