Agrotóxico e exploração: o novo colonialismo europeu sobre os latino-americanos

Agrotóxico e exploração: o novo colonialismo europeu sobre os latino-americanos

Um atlas inédito que acaba de ser publicado mostra um novo tipo de colonialismo europeu sobre os países latino-americanos: a expansão agrícola, a exploração da Amazônia e o uso de agrotóxicos proibidos na União Europeia.

O estudo da pesquisadora brasileira Larissa Bombardi evidencia como as populações dos países integrantes do Mercosul vêm sendo tratadas pela União Europeia (UE) como cidadãos de segunda classe, ao vender agrotóxicos proibidos pelo bloco aos países da América do Sul.

A situação tende a piorar caso seja firmado um acordo comercial entre os dois blocos que prevê a redução de 90% das tarifas sobre agrotóxicos. Bombardi, que vem sendo ameaçada por causa da sua pesquisa, teve que deixar o Brasil para concluí-la na Bélgica.

A referência a um neocolonialismo europeu se deve ao fato de que, historicamente, os países americanos sempre venderam produtos agrícolas para a Europa, que exportava tecnologias avançadas, gerando uma desigualdade nas relações econômicas. Com o Acordo de Associação entre Mercosul e União Europeia, o cenário deve se agravar ainda mais.

Geografia da assimetria

A Agência Pública e Repórter Brasil tiveram acesso ao atlas “Geografia da assimetria: o ciclo vicioso de pesticidas e colonialismo na relação comercial entre o Mercosul e a União Européia”. Apresentado ao Parlamento Europeu no mês passado, o prejuízo mais alarmante para os países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) é a expansão da fronteira agrícola, principalmente, na floresta amazônica.

O acordo, que foi assinado pelo presidente Jair Bolsonaro em 2020, está em processo de ratificação. Após a sua conclusão, serão eliminadas as tarifas de importação para mais de 90% dos agrotóxicos e será criada uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.

Quem mais irá lucrar com o tratado será o setor agropecuário, em prejuízo do meio ambiente. Bombardi explicou para a reportagem que:

“A tendência é reforçar ainda mais um quadro que já está elevado: se formos exportar mais soja, café e madeira, o impacto ambiental será ainda maior. Por exemplo, o aumento da produção da soja tem se dado com o aumento da área, e é evidente que se houver demanda para mais produção agropecuária, teremos avanços sobre áreas que não estavam sendo destinadas para cultivos”.

Além dos danos ambientais, a pesquisadora alerta para os prejuízos sociais. O modelo neocolonial de exploração, que na verdade é bem antigo, se baseia na exportação de bens básicos e de importação de produtos industrializados e tecnologias pelos países americanos, aprofundando as desigualdades históricas ente norte e sul.

Outro aspecto social é o impacto na saúde dos povos sul-americanos, que são vítimas de violência química, devido ao grande número de pessoas envenenadas por substâncias tóxicas proibidas na União Europeia.

É preciso entender que o Mercosul expandiu as áreas agrícolas e o uso de agrotóxicos para atender as demandas externas para produzir commodities. Os dados do atlas mostram que o cultivo de soja e o uso de agrotóxicos cresceram, respectivamente, 53,95% e 71,46% entre 2010 e 2019 apenas no Brasil. O número de pessoas intoxicadas no país entre 2010 e 2019 é de 30 mil, segundo um levantamento da Agência Pública e da Repórter Brasil.

Basf, Bayer e Syngenta: europeus

Os principais laboratórios fabricantes de agrotóxicos, Basf, Bayer e Syngenta, são europeus. Eles têm lucros bilionários vendendo seus produtos a países com legislações ambientais mais brandas do que os seus. A pesquisa de Bombardi estima que, em 2018 e 2019, a União Europeia exportou para o Mercosul cerca de 7 milhões de quilos de agrotóxicos proibidos em sua região, por estarem relacionados a problemas de saúde como câncer, malformação fetal e anomalias hormonais.

Confira AQUI a reportagem completa de Pedro Grigori para a Repórter Brasil.

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