Glifosato, a estrela dos agrotóxicos, proibida no Sri Lanka

Glifosato, a estrela dos agrotóxicos

O Sri Lanka proibiu a venda do glifosato após estudo que apontou o agrotóxico como responsável pelo número crescente de casos da doença renal crônica no país. O glifosato, também conhecido como “mata mato”, é o herbicida mais utilizado no Brasil e no mundo. O agrotóxico mata praticamente todos os tipos de planta, exceto as geneticamente modificadas para serem resistentes, e é comercializado pela Monsanto com o nome de “Round Up”.

“Um estudo feito por médicos e cientistas revelou que a doença renal era causada principalmente pelo glifosato,” disse o Ministro. “O Presidente Mahinda Rajapaksa ordenou a remoção imediata do glifosato do mercado após tomar conhecimento do conteúdo do relatório.”

O Ministério da Agricultura do Sri Lanka planeja cultivar arroz em 400.000 km² durante a época de chuvas, utilizando adubos orgânicos.

Um novo estudo publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health encontrou uma ligação entre o herbicida e a fatal doença crônica renal de origem desconhecida (CKDu, na sigla em inglês), que afeta principalmente os produtores de arroz no Sri Lanka e em outros países.

A CKDu foi descoberta nos campos de arroz no norte do Sri Lanka há aproximadamente 20 anos; espalhou­-se rapidamente, e hoje afeta 15% da população em idade laboral – aproximadamente 400.000 pessoas, conforme o estudo. Estima-­se que 20.000 pessoas já tenham morrido por conta da doença.

O estudo aponta que, embora o herbicida em si não seja tóxico para os rins, torna-se extremamente tóxico quando combinado com água “dura” (com alto teor de minerais dissolvidos) ou contendo metais como cádmio e arsênico, seja presentes naturalmente no solo ou adicionados na fertilização.

O novo estudo também indicou que até mesmo a Organização Mundial de Saúde já estabeleceu a correlação entre a CKDu e a exposição a pesticidas, arsênico, cádmio, bem como pouca ingestão de água e exposição a altas temperaturas. A razão pela qual não havia relatos da doença antes dos anos 90 permaneceu sem resposta conclusiva.

Pesquisadores sugerem que mudanças políticas no Sri Lanka no final dos anos 70 levaram à introdução de agrotóxicos, especialmente nas culturas de arroz. Eles acreditam que 12 a 15 anos de exposição a às substâncias, somada à sua acumulação no corpo, tenha levado à aparição da CKDu em meados dos anos 90.

As suspeitas que pairam sobre o “Round Up” incluem:

● inibição do Citocromo P450 (CYP), uma enzima para o funcionamento natural de muitos sistemas biológicos no corpo humano;

● queda nos níveis de triptofano, e consequentemente serotonina, condição associada a ganho de peso, depressão, mal de Parkinson e de Alzheimer;

● aumento de células cancerosas relacionadas ao câncer de mama;

● por ser considerado um xenoestrogênio (substância sintética que age de forma similar ao hormônio feminino estrogênio), está também associado a casos de puberdade precoce, problemas de tireóide e infertilidade;

● má-­formação de fetos e autismo.

Além disso, suspeita­-se que o herbicida – encontrado acima do limite aceitável para água potável em todas as amostras de urina colhidas de habitantes de regiões urbanas na Europa, sem contato direto com o agrotóxico, por ocasião de um estudo conduzido na Alemanha – seja a causa do desaparecimento de abelhas e de borboletas-­monarca. O glifosato também foi encontrado em 75% das amostras de ar e água da chuva colhidas no Mississipi.

A proibição do Sri Lanka representa um triunfo para Jayasumana, um pesquisador que insiste há tempos que pesticidas e metais pesados como arsênico e cádmio são responsáveis pela doença. Embora o anúncio do Sri Lanka tenha sido a medida mais drástica, até o momento, no combate da doença renal crônica, não foi o único.

O Poder Legislativo em El Salvador também baniu diversos agrotóxicos, incluindo o glifosato, em setembro do ano passado. A lei, porém, ainda não foi promulgada.

A Monsanto contesta o estudo cingalês: “não há estudos epidemiológicos sugerindo que exposição a produtos derivados do glifosato sejam associados com doenças renais no Sri Lanka ou em nenhum outro lugar,” disse o porta­voz da empresa, Thomas Helscher. “O estudo apresenta uma teoria, ainda não testada, e há significante número de publicações baseadas em dados que fazem com que a hipótese de Jayasumana seja considerada muito improvável”.

Para a Dra. Catharina Wesseling, do Programa Saúde, Trabalho e Ambiente (SALTRA), atuante na América Central, “proibir pesticidas está de acordo com o princípio da precaução, já que eles estão potencialmente relacionados à doença renal crônica.”

Estudos oficiais no Sri Lanka encontraram metais pesados e pesticidas, inclusive o glifosato, no ambiente e em amostras de urinas de pacientes renais.

Em El Salvador também foram identificados traços de metais pesados em comunidades afetadas, e o glifosato é amplamente usado no país. Dr. Carlos Orantes, diretor do programa nacional salvadorenho de pesquisa de CKDu, disse que sua equipe está desenvolvendo um mapa de áreas com água “dura” em seu país.

“Nosso objetivo principal é proteger vidas humanas”, disse Orantes, um dos proponentes da proibição dos pesticidas em El Salvador.

No Brasil, o Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública no último dia 24, tendo por objetivo forçar a ANVISA a reavaliar oito agrotóxicos, inclusive o glifosato. O órgão requereu, ainda, a suspensão de tais substâncias até a conclusão da reavaliação.

Fonte foto: Morgue File