Filmes nas escolas ajudam alunos a conhecerem a nossa cultura indígena

A pesquisa de mestrado da historiadora Lais Sanchez, realizada na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, utilizou sinopses de filmes com temática indígena para incentivar os estudantes da Grande São Paulo a conhecerem e debaterem a história e a situação atual dos indígenas brasileiros. Para auxiliar os professores das escolas a debaterem o assunto, a pesquisadora selecionou cenas de filmes que motivassem os estudantes a discutirem o tema.

Na dissertação de Laís, intitulada “Ensino de história indígena através do cinema: uma experiência pedagógica”, foram selecionados nove filmes escolhidos a partir de suas possibilidades didáticas. “Foram escolhidos filmes que permitissem aos alunos entender e analisar a linguagem cinematográfica como elemento constitutivo da produção fílmica”, aponta Laís. “Também entraram na seleção filmes que apresentassem diversas imagens sobre as populações indígenas e filmes produzidos pelos próprios cineastas indígenas”.

Os filmes analisados foram:

Caramuru, a invenção do Brasil” (2001),

Como era gostoso o meu francês” (1970),

Hans Staden” (1999),

Iracema, a virgem dos lábios de mel” (1979),

Iracema, uma transa amazônica” (1975/1985),

O Guarani” (1996),

Terra Vermelha” (2008),

Uma História de Amor e Fúria” (2013),

Xingu” (2012), e

Cineastas Indígenas – Panará” (2005-2008).

Laís destaca a importância de se estudar, também, a linguagem cinematográfica para a compreensão dos filmes. “Linguagem cinematográfica é o conjunto de elementos que constroem e dão sentido ao filme”, ressalta a pesquisadora. “Para trabalhar com o cinema na sala de aula é necessário trabalhar com os alunos a aprendizagem da leitura fílmica, determinados cortes, enquadramentos, trilhas sonoras, enfim, os elementos constitutivos do filme, que apresentam informações importantes sobre a mensagem transmitida pelo filme”.

Para cada filme, foram elaboradas sinopses didáticas. “Por acreditar que cada professor enfrenta uma realidade diferente em suas salas de aula escolhi não optar pelo roteiro, e sim por uma análise detalhada de cada filme”, conta. “Com análises feitas nas sinopses, o professor poderá se orientar a partir de algumas temáticas, estabelecer recortes e ainda associar o trabalho com diversos filmes”.

Construção de imagem

Os filmes foram exibidos aos alunos, alguns integralmente e outros a partir de recortes temáticos. “Foi pedido aos alunos que elaborassem análises críticas sobre as obras, além do trabalho de aprendizagem sobre linguagem cinematográfica e discussões acerca da atualidade das populações indígenas”, afirma Lais. Um exemplo desse trabalho é a discussão sobre “Terra Vermelha”. “Sabendo que o filme é uma ficção, os alunos foram instigados a pensar sobre qual a imagem ele constrói para os grupos indígenas atuais”.

A reflexão começa com a primeira cena, ambientada no Mato Grosso do Sul. Os indígenas Guarani-Kaiowá aparecem nus, armados com arco e flecha, em um local na mata possível de ser visto por turistas, guiados pela esposa de um fazendeiro e, depois, sendo pagos pela “exibição”, colocando suas roupas, mostrando que se tratava de uma prática de encenação usual. “A partir desta cena, os alunos disseram que os índios estão representando para passar, ao grupo de turistas, a ideia de ‘isolados’ e ‘selvagens’, denunciando o estereótipo criado há muito tempo sobre os povos indígenas e que é o esperado pelos turistas”, aponta a pesquisadora.

Os aspectos cinematográficos destacados pelos alunos foram os cortes secos, o posicionamento da câmera e as mudanças de ritmo. “Por exemplo, quando a câmera acelera e apresenta a presença de Anguè, o espírito mau. Este foi um recurso fílmico bastante didático por permitir trabalhar a importância da montagem e edição das imagens, como parte da linguagem do cinema”, observa Laís. “Outro exemplo foi a trilha sonora. As músicas ‘de rádio’ que os índios ouviam foram encaradas com surpresa pelos alunos, mas depois eles entenderam como um aspecto que sugeria a assimilação da cultura não-indígena”.

De acordo com a pesquisadora, o trabalho com a linguagem cinematográfica levou os estudantes a perceberem como os discursos se constituem a partir das formas como são apresentados nos filmes. “Como resultado do trabalho muitas visões puderam ser desconstruídas e as representações indígenas foram questionadas”, destaca. “Os alunos aprenderam não só sobre as populações indígenas presentes nas produções fílmicas, mas puderam refletir sobre o silenciamento historiográfico ao qual essas populações foram submetidas”, conclui.

O estudo sobre a cultura indígena nas escolas atende à lei nº 11.645, de 2008, que determina que a cultura indígena esteja presente nos currículos das aulas de História nos ensinos fundamental e médio.

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Fonte foto: blog.brazucah