Uatu, o Rio Doce do Povo Krenak, um rio de vida que morre

Ailton Krenak explica a relação dos Krenak, cujos ancestrais foram os Botocudos dos tempos da colonização, com o Rio Doce. Para os Krenak o rio que sempre banhou suas terras ancestrais é chamado de Uatu, ou Watú, e é uma entidade viva. Como é o rio maior, é avô, respeitado e querido.

Como conta, aqui, Ailton Krenak, o Uatu é o avô e cantam para ele, assim como cantam para todas as nascentes e rios que o formam.

Nós o chamamos de Rio Doce, pelas boas águas que carregava e nos ofertava, e que forma a bacia hidrográfica mais importante do leste mineiro. Uma fonte de águas puras alimentado por inúmeras nascentes que brotam das serras plenas de mata.

Nós também o conhecemos, pleno de vida. Hoje já não é mais. O Uatu dos Krenak é um rio que sofre, que morre aos poucos, ainda tentando resistir.

Seu declínio vem de longe - desmatamentos para agricultura e pecuária, abertura de estradas, movimentação de terra que foi assoreando a sua calha antes poderosa, as minerações de ferro que comem as encostas dos seus morros impedem que as águas cheguem à calha. E as cidades que se formam nas suas margens, buscando o benefício das águas, de beber, de lavar, e de levar esgotos que ninguém quer por perto.

Afinal, todo rio vai para o mar, e o mar é tão imenso, não é?

Nos últimos 30 anos o Rio Doce sofreu muito, mas no último 5 de novembro, recebeu a imensa punhalada de uma carga imensa de lama de rejeito (dizem que 50 milhões, dizem que 62 milhões, de metros cúbicos, não importa, foi demais).

E o Rio Doce começou a agonizar, seus peixes a morrerem, seus patos e aves que deles se alimentavam, a morrerem também. A lama é tóxica - carrega com resíduos de ferro, alumínio, cromo, arsênio, fora com os agrotóxicos das terras agrícolas que foram carreadas junto com a enxurrada.

O povo Krenak chora sua morte. Já não podem lá pescar, nem tomar os banhos, inúmeros, que por costume e necessidade, tomavam diariamente. Não podem sequer caçar em suas margens, a caça, que se banhou no rio poluído, que bebeu de sua água, está contaminada.

E diz Ailton Krenak que a “Terra sempre é destruída quando os homens que nela habitam contrariam alguma lei ou norma de conduta que dá segurança ao frágil equilíbrio de nossa instável relação com todos os seres da criação que fazem a teia da vida no planeta”. Ailton é um Krenak, e é jornalista poeta, pois é preciso ser poeta para entender a verdade sobre a teia da vida, creio eu. Fala ele não só do que nos é visível aos olhos mas também, daquilo que nós só vemos com os olhos do coração, ou com a alma, como preferir.

Por isso, por conta da poética indígena, é que as águas, todas as águas, são entidades, ancestrais, que devem ser honradas e cuidadas. Delas vem a vida que nós hoje vivemos e que viverão nossos descendentes pelos tempos e tempos.

Minério só dá uma vez

O Povo Krenak, diz seu líder, teve seu território devastado por colonos e desbravadores que buscavam as riquezas do solo das Gerais. Hoje, o Vale do Aço nele habita e com ele, empreendimentos pesados, poluidores, destruidores da vida e da natureza - a mineração é necessária, dizem, mas a vida, bem, a vida é mais! A mineração destrói a terra, mata os seres vivos, consome toda a água boa, tão necessária para a vida de todos, e devolve rejeitos. Os lucros não ficam na região, nunca. Os lucros pertencem ao capitalismo. Na região devastada ficam as comunidades que se agarram, com unhas e dentes, às suas palhoças, pores do sol, amanheceres, cantos de ave, cheiro de vento. Mas, sem água, nem essas conseguem viver. E a mineração, essa consome água boa que não chega às bocas dos sedentos. Os interesses não permitem.

Este vídeo nos apresenta quem é Ailton Krenak, líder indígena, jornalista e ambientalista, e as ideias indígenas sobre como se deve viver em harmonia com a natureza.

E neste vídeo os Krenak dançam a dança do rio. Um rito de respeito às águas de onde vem a vida de todos nós.

“Como disse o líder indígena da tribo Krenak, nós somos o Rio Doce. Não tem como separar. Matando o rio, mata a gente. Esse é o sentimento. Todos estão unidos para dizer que aqui tem uma resistência que tem voz para combater essa degradação ambiental provocado por essa inversão de valores imposta, sobretudo, pela capital” - declarou Neto Barros, prefeito de Baixo Guandu (ES).

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Fonte foto: facebook