Dengue: o vilão brasileiro difícil de combater

Dengue vilão brasileiro

O virologista Paolo Zanotto do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e o doutorando Julian Villabona-Arenas, estiveram na bela Guarujá, litoral sul de São Paulo, desde o verão de 2012, fechando com ás “águas de março” em 2013. O propósito dos pesquisadores era acompanhar casos de dengue na região e analisar a genética dos vírus para reconstruir a malha de transmissão entre as pessoas.

As análises mostraram que dois bairros, Pae Cará e Enseada, eram os focos principais da doença, e que deles se espalhava para outros pontos da cidade.

Descobrir o ponto em que os focos principais da dengue estavam era um trabalho que, claro, atrairia a atenção das autoridades envolvidas no combate à enfermidade. Neste caso, uma funcionária do departamento de vigilância sanitária local, convocou uma unidade de fumigação, o chamado “fumacê”, para matar mosquitos nesses locais. Zanotto afirmou que a pesquisa ajudou a cidade a ir até a “cabeça do dragão e dar o tiro”. Em seguida, a dengue ficou mais fácil de se controlar, com casos isolados na região. “É isso que precisa ser feito em todos os municípios”, afirma Zanotto em entrevista na Revista Fapesp.

O trabalho dos pesquisadores ajudou a descobrir além do foco, quais os tipos de dengue que afetavam as áreas analisadas. No caso do Guarujá, na época, foram detectados quatro sorotipos do vírus. Movendo a pesquisa para Jundiaí, Grande São Paulo, foram encontrados os tipos 1 e 4, o que demonstra o perigo para a maior cidade do país, sujeita a vários tipos de vírus e com chance de infectar as mesmas pessoas várias vezes, aumentando o risco de dengue hemorrágica, situação conhecida como hiperendemicidade.

Neste ano, o mosquito da dengue, Aedes aegypti, fez um grande estrago no Brasil, principalmente na região Sudeste, que teve 66% dos casos registrados pelo Ministério da Saúde. O inverno chegou e o frio faz com o que as pessoas fiquem mais tranquilas, mas não deveriam.

“A dengue está apenas começando no Brasil”, é o que afirma Zanotto. Por conta dos números preocupantes e a situação hiperendemicidade, prevendo uma escalada da doença caso medidas preventivas não sejam adotadas. “Deveríamos fazer como o corpo de bombeiros, que age em focos de incêndio, visando contê-los antes que se espalhem e escapem do controle.”

Os estudos de Zanotto ficaram concentrados nas regiões mais pobres das cidades pesquisadas, o que não é o suficiente para totalizar os números da dengue. Ao menos é o que afirma o estudo do biólogo Ricardo Vieira Araujo, hoje funcionário da Coordenação de Mudanças Globais do Clima do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), publicado este ano na revista Brazilian Journal of Infectious Diseases.

“Eu me perguntava por que uma favela na zona sul registrava tantos casos, enquanto em outra comunidade na zona norte, por exemplo, com características semelhantes, os números eram muito menores. “Mas muitos dos pesquisadores ponderavam que as próprias ilhas estariam em regiões com indicadores socioeconômicos mais baixos, com uma densidade populacional maior. Então talvez a causa não estivesse nas temperaturas, mas nas condições sociais e demográficas.”

O estudo, então, foi mais a fundo e comprovou, com um experimento em laboratório com duas linhagens de A. aegypti: uma usada rotineiramente pelos pesquisadores e outra obtida de ovos colhidos nocampus da USP, que a influência da temperatura existia, sim. Quando alcança os 32°C, mais de 90% das larvas do inseto já viraram adultas.

Para piorar, assim como as superbactérias, o mosquito da dengue criou resistência aos inseticidas mais comuns, de piretroides, e não se assustam com qualquer tipo de repelente, podendo picar a pessoa mesmo assim. Algumas prefeituras passaram a utilizar outros químicos para enfrentar o mosquito, com maior sucesso na empreitada.

Com tanto em jogo e sem poder contar confiar 100% nos inseticidas, é hora de tomar outras providências. O leitor já deve ter ouvido falar nas ações que envolvem criar mosquitos geneticamente modificados para acabar com a ameaça da dengue, certo?

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Pois bem, o laboratório da bioquímica Margareth Capurro, do ICB-USP, concentra-se diretamente nos pequenos insetos de pernas listradas, de uma maneira inusitada: produzindo milhares e milhares deles para soltar no ambiente, mas com uma característica peculiar. Estes mosquitos geneticamente alterados acumulam uma proteína que faz as células das larvas entrarem em colapso, de maneira que não chegam à fase adulta.

Somente mosquitos machos são modificados, pois são as fêmeas que carregam o vírus e picam as pessoas, deixando-as doentes.

Porém, colocar mosquitos modificados geneticamente no ambiente é correr um risco de obter problemas ainda não conhecidos. Algumas populações são contra, como é o caso da Flórida.

Outra forma de combate é a criação de uma vacina da dengue, tão exigida pela população.

Várias estão sendo feitas agora, mas teoricamente melhor é a produzida pelo laboratório francês Sanofi Pasteur, que aguarda aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para entrar no mercado brasileiro em 2016. Entretanto, sua eficácia não convence o microbiologista Luís Carlos de Souza Ferreira, do ICB-USP, que explica que a base dessa vacina é do vírus da febre amarela. Apenas uma parte do genoma responsável pelas proteínas estruturais pertence ao vírus da dengue.

“Acreditava-se que fosse suficiente, porque é com base nessas proteínas que os anticorpos reconhecem o invasor”, explica. Mas seu grupo e outros têm mostrado que, no caso da dengue, quando os níveis desses anticorpos são baixos ou eles são pouco eficientes, os vírus remanescentes são conduzidos para as células onde se replicam. Destruir essas células é tarefa dos linfócitos T, e o alvo principal são outras proteínas do vírus – as não estruturais. “Nossas pesquisas têm mostrado que a resposta dos linfócitos T é importante na dengue”, conta. Segundo ele, isso não acontece na vacina produzida pela Sanofi Pasteur.

Fato que é que somente um conjunto de ações, pesquisa, prevenção, conscientização da população, criação de métodos para aumentar a eficiência do organismo humano no combate à dengue e ações tanto do Poder Público quanto da iniciativa privada, pode ter alguma chance de, finalmente, erradicar essa terrível doença da vida dos brasileiros.

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Fonte foto: revistapesquisa.fapesp.br