Cacau em vez de garimpo ilegal para salvar a Amazônia

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O garimpo de ouro e diamante na Amazônia é uma história antiga que ganhou força no final da década de 1980, quando a crise mundial fez subir o preço do ouro e o fracasso interno fez cair o valor da moeda brasileira. 

A prática do garimpo na Amazônia é ilegal e causa consequências muito graves não só para a população indígena, como para o meio ambiente. Segundo uma reportagem do ISA (Instituto Socioambiental), os rios que banham as terras habitadas pelos índios Yanomami e Ye’kwana estão poluídos de mercúrio. 

Com isso, as comunidades indígenas precisam recorrer a poços artesianos para buscar água e quase não conseguem mais pescar, pois não há mais peixes. Além disso, o garimpo ilegal nessa região é responsável pela morte de índios por doenças como a malária. E, para piorar, uma avaliação dos órgãos oficiais identificou que havia cerca de 2 mil garimpeiros infiltrados ilegalmente na Terra Indígena, até julho de 2018.

Esse número cresceu e até novembro de 2018 já estava em 5 mil.

Para combater o garimpo ilegal, foram implantadas bases de vigilância nos principais rios da Terra Indígena Yanomami. A operação Curare IX é liderada pelo general do Exército Gustavo Henrique Dutra de Menezes e conta com a presença de soldados implantados em locais estratégicos para impedir o abastecimento da região.

Essa operação conseguiu fazer com que alguns garimpeiros deixassem a região, mas ainda não foi suficiente para acabar com o garimpo ilegal por lá. O problema é que essa atividade atrai jovens que estão em busca de dinheiro para a aquisição de bens de consumo industrializado (celulares, roupas, panelas e até alimentos).

Hoje em dia, “ninguém consegue viver sem um smartphone, relógio, roupas, tênis”, lamenta Felipe Gimenes, líder da aldeia de Waikás. Ou seja, os jovens indígenas também desejam os mesmos itens que fazem a cabeça de todo jovem branco, como eles costumam se referir.

Cacau em vez de garimpo

Pensando nisso, foi preciso pensar em uma alternativa para atrair os jovens para outra espécie de “garimpo”, porém de um produto natural abundante na região e que até então era pouco explorado por eles: o cacau.

“Também chamado “fruto de ouro”, o cacau é visto como um possível antídoto contra a invasão de garimpeiros ilegais na Terra Indígena no extremo norte do Brasil. Líderes de comunidades locais, tanto Ye’kwana quanto Yanomami, planejam produzir chocolate para o mercado internacional como alternativa de renda para que os jovens indígenas não tenham interesse em colaborar com os mineradores ilegais”.

Com o apoio do Instituto Socioambiental, a Associação Wanaseeduume Ye’kwana promoveu uma oficina na aldeia de Waikás, para ensinar aos índios as técnicas de colheita e processamento do cacau para produzir chocolates finos. Nessa ocasião foi produzida então a primeira barra de chocolate da Terra Indígena Yanomami.

Normalmente, os índios de Roraima usam o cacau aproveitando apenas a polpa e descartando as sementes. No entanto, Roberto Smeraldi, líder dos Ye’kwana, enviou o cacau da região para o Instituto ATÁ. Este por sua vez, identificou que seu formato era diferente e descobriu que a espécie Theobroma cacao trata-se de uma variedade pura, com potencial elevado para o mercado de chocolates finos.

Smeraldi procurou por César de Mendes, químico estudioso de cacau, que em 2010 abandonou a carreira acadêmica para se tornar um pequeno empresário de chocolates amazônicos.

Durante sua viagem à Terra Indígena Yanomami, coordenada pelo antropólogo Moreno Saraiva Martins do ISA, César de Mendes identificou duas variedades distintas de cacau, as quais possuem grande potencial para a produção de chocolates finos. Por isso, Mendes decidiu transmitir seus conhecimentos ensinando aos índios as 4 etapas para processar os frutos e suas sementes para a produção de chocolates finos:

  1. Quando e como colher os frutos;
  2. Fermentar a polpa junto com as sementes;
  3. Secar as sementes;
  4. Macerar depois de secas para obter o pó.

Além dos Ye’kwana, também participaram destes ensinamentos os índios da comunidade Korekorema, cujo líder e diretor da Hutukara Associação Yanomami, Resende Sanöma brincou animado sobre a atuação de César de Mendes:

“Nós não sabemos fazer chocolate. Nós conhecemos o Nescau, biscoito recheado, mas não a produção do chocolate, que é feito do cacau que nasce em nossa mata”.

Depois disso, César de Mendes levou o cacau fermentado para testar sua qualidade em Belém (PA) e acordou com os índios que a partir deste ano (2019), começarão a explorar o potencial do produto em barras. Ainda de sair, Mendes produziu a primeira barra de chocolate 70% feita inteiramente por eles na comunidade.

Essa iniciativa gerou esperança não só para os jovens índios de Ye’kwana, mas também para Júlio Davi Magalhães Rodrigues, de 38 anos, que acompanhou a invasão garimpeira no final dos anos 1980, quando era criança. Júlio morou em Boa Vista de 2010 a 2015, onde estudou Gestão Territorial Indígena na Universidade Federal de Roraima.

Nessa época, Júlio ingressou na Associação do Povo Ye’kwana no Brasil, sendo hoje o seu presidente e onde assiste esperançoso, junto aos outros índios, o projeto que considera ser o futuro contra o garimpo ilegal na Amazônia.

“Os jovens ficaram animados com as oficinas. Eles querem ter uma renda adicional. Hoje a gente não vive sem roupas e outros bens que vêm das cidades. Precisamos de um dinheiro além de nossas atividades tradicionais. Rendas para as famílias. E o cacau parece ser uma possibilidade… Se der certo, não vamos precisar ir para a cidade para trabalhar e ganhar dinheiro. Vamos ganhar aqui mesmo”. Júlio Ye’kwana

O garimpo e destruição

O garimpo ilegal ainda está destruindo a Amazônia e, uma de suas causas, é o aumento do valor do ouro. Esse aspecto econômico é pouco valorizado se comparado ao desmatamento causado pela pecuária, mas vem causando muitos prejuízos ambientais à Amazônia como o próprio desmatamento, abertura de crateras no solo, contaminação de rios, peixes e populações humanas pelo mercúrio, utilizado na extração do ouro.

Por isso, além da alternativa do cultivo do cacau, que ajuda a fomentar fontes econômicas para garantir a subsistência das populações indígenas, é necessária uma fiscalização mais acirrada para a retirada dos garimpeiros das Unidades de Conservação e Terras Indígenas.
Como falamos anteriormente, esse trabalho já vem sendo feito, mas ainda precisa de muito para conseguir exterminar de vez essa prática na região.

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Fonte e foto: Medium 

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