Povo Munduruku luta contra as barragens que matarão o Rio Tapajós

Povo Mundukuru

O povo Munduruku se reuniu durante a XI Assembleia da Etnia na aldeia Dace Watpu, em Itaituba, no passado dia 24 de setembro. Lá estiveram presentes 400 lideranças das aldeias do alto e médio curso do Rio Tapajós para reafirmarem sua luta contra os projetos de hidrelétricas que o Governo Federal pretende implantar na calha do Tapajós e em alguns de seus afluentes num total de 48 barragens.

Para os Munduruku, guerreiros que resistem desde o século XVIII às tentativas de colonização branca, o Rio Tapajós e suas matas é o local que lhes foi destinado para viverem e protegerem. Segundo a mitologia Munduruku, essa é a missão desse povo, proteger essa terra sagrada, suas águas, seu ar, suas matas, seus animais. Hoje o Tapajós e seus afluentes são os únicos rios considerados “virgens” no nosso país.

As belezas do Tapajós e o jeito bom de se viver você poderá ver no vídeo abaixo:

Na assembléia mencionada estiveram presentes também pesquisadores, apoiadores não-índios, os pariwat, e o Procurador da República no Pará, Felício Pontes Jr.

“O senhor presenciou uma criança cantando. Aquilo nos emocionou muito. Ele foi ensinado pelos pais, que estão na luta para defender o futuro dele. Aquela criança simboliza algo muito importante para nós, a nossa luta e o nosso futuro”, disse ao Procurador da República o tradutor munduruku, Antonio Dace. Este canto do menino, em língua munduruku, mostrou aos presentes que a cultura da etnia é uma cultura viva.

Assista o vídeo do canto acima mencionado:

O que dizem e denunciam os Munduruku

“O Diálogo Tapajós (nome fantasia do consórcio de empresas que quer construir as usinas) está trabalhando para iludir algumas lideranças. Nós queremos que o governo respeite o nosso protocolo. Foi falado aqui várias vezes que a terra é nossa mãe e nos alimenta. Foi falado também sobre os nosso vasos funerários sagrados, retirados do Teles Pires. Nós não queremos indenização por eles. A gente não vende o que é nosso. Foi falado sobre o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da nossa terra Sawré Muybu, que a Funai se recusa a publicar. As mulheres relataram o medo que sentem quando os maridos viajam para longe para negociar com o governo. Porque nós sabemos o genocídio que está acontecendo com nossos parentes Guarani-Kaiowá em Mato Grosso do Sul. Quando os maridos voltam, é um alívio. Nós só queremos que o governo nos deixe em paz para viver e para ver nossas crianças crescerem”,também disse o tradutor munduruku, traduzindo a maioria das questões mencionadas.

“Para os indígenas, não se pode separar a natureza das pessoas. Agora que os brancos estão começando a aprender isso. Eu estudei anos na universidade, mas só fui aprender isso lá na Missão Cururu (aldeia Munduruku no alto Tapajós), que foi a primeira vez que fui a uma aldeia indígena, 20 anos atrás. Agora, esse ensinamento que os índios sempre tentaram passar para os brancos, é o que há de mais moderno nas universidades do mundo. Por isso vocês têm toda razão ao dizer que não podem entregar o rio e a floresta que são de todos em troca de escola e posto de saúde. Isso é direito dos indígenas, é obrigação do estado, não é favor de empreiteiras. Isso vale para os índios e para os ribeirinhos, é direito de todos. Posto de saúde não pode ser oferecido em troca de aceitar usina hidrelétrica”, concordou o procurador Felício Pontes Jr, ao se dirigir à assembléia, já no fim da noite de 24 de setembro de 2015.

Denúncias feitas, que sejam apuradas

A Assembléia Munduruku denunciou os abusos que vêm sofrendo por parte das empresas formadoras do Diálogo Tapajós assim como por parte dos organismos governamentais, que até o presente não efetuaram as demarcações de terras tradicionais necessárias e de direito da etnia. Todas essas denúncias serão apuradas pelo MPF/PA, por meio de investigações que tramitam em Santarém e Itaituba, segundo afirmou o Procurador da República presente.

Mas não só a etnia Munduruku sofre com esse projeto de hidrelétricas. Também as populações ribeirinhas já vêm seu entorno ser destruído, suas terras serem alagadas, sua vida perdida. O mesmo ocorre com a população das cidades existentes na bacia hidrográfica, que serão inchadas com os deslocamentos de população.

Veja o vídeo Um rio em disputa que reúne várias declarações de todos os interessados em defender o Tapajós contra as hidrelétricas planejadas:

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Leia aqui o link da declaração final da XI Assembleia Geral Munduruku. Veja aqui as ações ajuizadas pelo MPF-PA sobre as barragens na bacia do Tapajós.

Avanço das barragens no Tapajós

foto: valor.com

As informações são do Ministério Público do Pará.

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Fonte foto capa: argentinaindependent.com