Energia que vem do lixo: solução para a gestão dos resíduos sólidos

renovavel pirolise

A Unicamp abre uma nova linha de pesquisa científica diretamente orientada para a solução premente da disposição final dos resíduos sólidos produzidos pelos municípios brasileiros. Neste sentido está o projeto que realiza junto com a empresa INNOVA Energias Renováveis, única empresa brasileira a licenciar a tecnologia italiana de “Pirólise a Tambor Rotativo”, com sua primeira unidade já instalada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. É este um investimento de cerca de R$ 4 milhões, dimensionado para, em três anos, implantar um laboratório completo com equipamentos, infraestrutura para dar início ao processo de pesquisa.

A faísca iniciadora deste projeto foi a dificuldade de solução para a gestão do lixo na cidade de Campinas. O município de Campinas tem mais de 1,1 milhão de habitantes e produz diariamente 1.3 mil toneladas de resíduos. Nestas condições, foi trágico o encerramento do aterro sanitário, Delta A, que servia ao município, que já não pode receber mais resíduos por término da sua vida útil.

Assim, a solução imediata foi a exportação de todo o lixo para um aterro particular na cidade vizinha, Paulínia, o que encareceu bastante o processo da disposição final dos resíduos.  Hoje, com essa solução paliativa, de exportar seu lixo, Campinas gasta R$ 91 milhões ao ano, com o contrato de um consórcio que efetua a limpeza urbana, a coleta de lixo – domiciliar, orgânico, hospitalar e coleta seletiva – e a gestão do aterro sanitário Delta A (que já não recebe lixo porém ainda necessita de muita atenção até seu encerramento total e possibilidade de rehuso da área ocupada). Outros R$ 38 milhões por ano são gastos pelo município para a “exportação” do lixo para o aterro de Paulínia, contrato que envolve transporte, disposição no aterro e gestão. Outra solução, como a abertura de novo aterro sanitário no município, não foi autorizada pela CETESB por causa da proximidade com o Aeroporto de Viracopos e o risco de acidentes entre aviões e aves que freqüentam os aterros sanitários (urubus e garças, são aves comuns nessas áreas).

Nova tecnologia geradora de energia

A pirólise – processo de queima e decomposição da matéria orgânica, a altas temperaturas em ambiente sem oxigênio – em tambor rotativo, mostrou-se ser uma tecnologia interessante para o enfrentamento do problema do lixo.

Interessante pois, do seu resultado, no final do processo, se obtêm um gás que tem 50% do poder calorífico do gás natural, podendo ser usado como combustível doméstico ou na geração de eletricidade, cuja extração é muito mais barata e, como provêm da queima de lixo, é considerado renovável e energia limpa, já que não gasta dos recursos naturais estocados na natureza.

Um primeiro benefício resultante da queima a 450 graus Celsius é que só é reduzida a matéria orgânica permanecendo intactos em suas propriedades físicas os materiais inorgânicos como vidro, metal, areia, pedra e sais. Isso é importante, pois facilita o processo de separação do lixo coletado.

Uma outra particularidade deste processo é que a queima, feita a temperaturas de até 450 graus Celsius, degrada a matéria orgânica sem produção dos temidos componentes voláteis resultantes das queimas em mais alta temperatura, como é o processo de incineração como se pode deduzir da explicação técnica do engenheiro Fernando Reichert, diretor da INNOVA: “É preciso ressaltar a diferença entre a incineração e o aquecimento em ambiente sem oxigênio, que é o caso da pirólise. A queima direta dos resíduos em câmara de combustão produz poluentes, inclusive cancerígenos como dioxinas e furanos. Produz cinzas volantes, que são perigosas e têm alto custo de disposição. E os gases de combustão são altamente agressivos. No caso da pirólise, o processo transforma o lixo em um gás combustível limpo, similar ao gás natural, que pode substituir outros combustíveis sem qualquer risco ambiental ou à saúde pública”.

Como este processo ainda está em fase experimental, só foi montada uma usina mas, para as necessidades de uma cidade como Campinas, seriam necessárias 7 usinas ao menos, já que, cada uma tem a capacidade de processamento de 150 toneladas ao dia.

A tecnologia da pirólise em tambor rotativo, licenciada pela INNOVA, é aplicável a todas as classes de resíduos gerados: urbanos, industrial e hospitalar entre outros, mas, para fins da pesquisa, será usada somente uma baixa amostragem, cerca de uma tonelada/dia, de resíduo orgânico, cujo transporte será feito por containers lacrados para impedir contaminação.

Fonte foto: innova.unicamp.br