Liberado o uso de mosquitos da dengue transgênicos no Brasil

Liberado o uso de mosquitos da dengue transgênicos no Brasil

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou a liberação comercial do mosquito Aedes aegypti geneticamente modificado, OX513A, para combater a dengue.

O mosquito transgênico é uma variedade que contém dois genes adicionais, quando comparados aos mosquitos naturais. A proposta é liberar no ambiente mosquitos modificados machos (que não picam), para que fecundem as fêmeas já existentes no ambiente. Os descendentes herdam os genes inseridos e morrem antes de chegarem à fase adulta. Também herdam uma marcação visível sob uma iluminação especial, para facilitar o monitoramento em campo.

Organizações da sociedade civil alertam para o fato de que não houve consulta à população, avaliação de risco, dados conclusivos dos estudos de campo, nem plano de monitoramento, e que as consequências para a saúde e meio ambiente não foram devidamente estudadas.

O mosquito transgênico é produzido pela Oxitec, empresa inglesa ligada à empresa suíça do agronegócio Syngenta, concorrente da Monsanto na produção de sementes geneticamente modificadas e agrotóxicos. Há um intenso lobby do governo inglês visando a criar mercado de exportação para o produto.

“Nós precisamos providenciar alternativas porque o sistema que temos hoje no Brasil não funciona,” disse Aldo Malavasi, presidente da Moscamed, empresa brasileira que está criando e testando os mosquitos transgênicos em Jacobina/BA. “É como um inseticida vivo,” ele acrescenta.

Mas Helen Wallace, diretora da ONG GeneWatch do Reino Unido, se concentra nos potenciais perigos. Ela aponta que se um pequeno número de fêmeas de mosquitos geneticamente modificados for inadvertidamente liberados junto com os machos e picar pessoas, há a possibilidade de reações alérgicas.

A Dra. Wallace realizou uma publicação para expor as preocupações e perguntas não respondidas relacionadas ao mosquito transgênico. “Os mosquitos ineficazes da Oxitec apresentam risco e são um péssimo exemplo de produto que a Inglaterra exporta para o Brasil. Trata-se de uma tentativa desesperada de promover a biotecnologia inglesa e remunerar o capital de risco, mas isso não deveria cegar os governos do Brasil e da Inglaterra para o risco da tecnologia”, disse a doutora Wallace.

Dentre os argumentos contra a liberação dos mosquitos estão os resultados de experiências realizadas nas Ilhas Cayman, indicando a ineficiência da tecnologia, que requereria a liberação de mais de 7 milhões de mosquitos, seguida por 2,8 milhões de mosquitos por semana, para suprimir uma população original de apenas 20 mil mosquitos nativos.

Os experimentos da empresa tampouco incluíram os impactos do mosquito geneticamente modificado sobre a incidência da doença. Além disso, há o risco ecológico de que a população de Aedes aegypti seja substituída pelo Aedes albopictus, outra espécie vetora de doenças, inclusive dengue.

Para que os mosquitos transgênicos possam chegar à idade adulta em laboratório, devem ser alimentados com ração que contenha o antibiótico tetraciclina. O mecanismo de supressão dos mosquitos geneticamente modificados pode falhar caso este entre em contato com esse antibiótico no ambiente.

Como resultado das operações da Oxitec no Panamá, Chin Li Lim, pesquisadora da ONG Third World Network, com sede na Malásia, alertou o governo panamenho quanto às consequências do uso do mosquito, tais como o risco de adaptação natural do mosquito à modificação genética e sua consequência sobre a incidência de dengue. Outro tópico abordado pela pesquisadora foi o fator econômico, já que o governo teria que pagar anualmente à empresa britânica para a liberação de milhões de mosquitos transgênicos para manter o programa.

Mas agora os mosquitos já estão liberados no Brasil. Resta-nos esperar que dê tudo certo. Até porque, como disse a Dra. Helen Wallace, “é ainda mais difícil fazer recall de mosquitos que de plantas, caso algo dê errado”.

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Fonte foto: wikipedia.org