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Whatsapp do 'Dia do Fogo': o que se sabe até agora

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Dia do Fogo

As queimadas na Amazônia chocaram todo o mundo. E o choque continua após a descoberta de um grupo de Whatsapp cujos membros parecem ter organizado o chamado "Dia do Fogo".

Conforme havíamos divulgado, o "Dia do Fogo" foi um evento organizado, no dia 10 de agosto, por produtores rurais que deram início a incêndios na floresta amazônica. Embora nesta época do ano haja bastante queimadas, o aumento do número de focos – exatamente a partir do dia 10 de agosto - chamou a atenção para uma atividade criminosa haver sido orquestrada.

Apurações

Uma reportagem do jornal paraense Folha do Progresso, publicada em 5 de agosto, mostrou uma conversa de Whatsapp da qual participava uma liderança de produtores rurais que prometia promover incêndios florestais no dia 10. O texto dizia:

"(Os produtores) querem o dia 10 de agosto para chamar atenção das autoridades. (...) Na região, o avanço da produção acontece sem apoio do governo. 'Precisamos mostrar para o presidente (Jair Bolsonaro) que queremos trabalhar e o único jeito é derrubando para formar e limpar nossas pastagens é com fogo'".

A BBC, em uma reportagem, relata que dados de satélite mostram que, no Pará, queimadas aumentaram justamente a partir do dia 10 em reservas florestais localizadas nas cidades de Novo Progresso, Altamira e São Félix do Xingu - todas margeadas pela rodovia BR-163. Somente em Novo Progresso, houve 124 registros de focos de incêndio ativos no dia 10, o que representa um aumento em 300% em relação ao dia anterior.

O governador do estado do Pará, Helder Barbalho, comentou que cerca de 3.000 hectares queimaram nos últimos dias em Áreas de Proteção Ambiental (APA).

"É queimada de floresta para fazer pasto. O sujeito vai lá, desmata, queima, faz um pasto e aluga a área para um produtor rural", constata.

A Revista Globo Rural também apurou informações sobre o "Dia do Fogo". Segundo a reportagem, o grupo de Whastapp “Jornal A Voz da Verdade” foi formado para debater temas de interesse dos seus 246 membros ativos, que são produtores rurais, grileiros, sindicalistas e comerciantes do município de Novo Progresso. Desse total, 70 consentiram com o projeto “Dia do Fogo”, que consistia em incendiar, no dia 10 de agosto, áreas de matas e terras devolutas, com o objetivo de fazer o fogo avançar sobre a Floresta Nacional do Jamanxim, uma reserva ambiental de 1,3 milhão de hectares que foi demarcada através de decreto assinado em 2006, mas que sempre foi alvo de ameaça da exploração predatória. O intuito era fazer o fogo chegar à Terra do Meio, uma área de conflitos agrários na Amazônia.

A apuração do Globo Rural ainda relata que quatro membros do grupo já haviam sido presos por crimes ambientais. Hoje, eles estão em liberdade usando tornozeleira eletrônica graças a um acordo feito com a Justiça.

Para o "Dia do Fogo", o grupo contratou motoqueiros para atear fogo no capim seco dos acostamentos da BR-163. Com o tempo seco, o fogo se alastrou facilmente, atingindo habitações próximas.

Não bastassem as queimadas, no começo do mês de agosto, várias APAs foram atacadas por motosserras. A ação planejada foi desmatar e, depois, atear fogo. De acordo com um operador de motosserra da região, que pediu à Revista Globo Rural para não ser identificado, “ninguém ficou sem serviço". Segundo ele, faltou foi gente, a ponto de outros terem sido trazidos de diferentes regiões da Amazônia e, até mesmo, do Nordeste. Pistas clandestinas de pouso foram construídas no meio da mata para que essas pessoas pudessem desembarcar.

Houve um momento em que "bateu desespero em todo mundo”, segundo o operador de motosserra, porque acabou o óleo queimado, com o qual não é possível derrubar as toras das árvores maiores. O óleo serve para untar as correntes das motosserras, facilitando que os seus dentes penetrem as toras e derrubem as árvores.

Fiscalização ignorada

A reportagem da "Folha do Progresso" chamou a atenção do Ministério Público Federal (MPF), que, no dia 8 de agosto, enviou um alerta de urgência para o Ibama, solicitando reforços na fiscalização das APAs – algo que não foi feito pelo órgão ambiental. Em resposta ao MPF, o Ibama explicou que

"devido a diversos ataques sofridos e à ausência do apoio da Polícia Militar do Pará, as ações de fiscalização no Estado estão prejudicadas por envolverem riscos relacionados à segurança das equipes de campo".

O texto ainda diz que foi pedido apoio à Força Nacional, órgão ligado ao Ministério da Justiça, que lavou as mãos para a prevenção aos incêndios.

A reportagem da BBC apurou que agentes do Ibama foram ameaçados de morte nos últimos meses, aumentando a tensão com os grileiros.

O MPF e Polícia Federal ainda não identificaram os autores do crime ambiental. O procurador Paulo de Tarso Moreira Oliveira, que está na equipe de investigação do "Dia do Fogo", acredita que será muito difícil responsabilizar alguém por causa da extensão dos territórios que estão sob investigação.

Além desse fator dificultador, as queimadas foram resultantes de uma ação coletiva premeditada.

"É possível que centenas de pessoas tenham participado desse crime",

disse o procurador à BBC News Brasil. Ele ainda ressaltou que a investigação pode envolver pessoas que praticam desmatamento e fraudes fundiárias.

"Nós sabemos que existe uma pressão em torno das áreas que foram objeto do fogo. Há pessoas da região que há muito tempo exercem pressão nessas áreas (que foram queimadas). Essas pessoas são naturalmente alvos prioritários para nossa investigação", explicou Oliveira.

Impunidade

Para outro procurador, Luís de Camões, os crimes de grilagem e desmatamento, no Brasil, ocorrem de forma impune, servindo como incentivo para episódios como o "Dia do Fogo". Ele lamentou à BBC que:

"Hoje, se você furtar um celular, talvez fique mais tempo preso do que se botar fogo em floresta. Há processos de desmatamento e queimadas de 2003 e 2004 e que estão sendo julgados só agora. O tardar da resposta do Estado também é um incentivo para essas ações".

Ameaças

Conforme o relato dos promotores atuantes no caso "Dia do Fogo", a impunidade faz com que os criminosos ajam sem temer a nada nem a ninguém - nem mesmo a Justiça.

O jornalista Adecio Piran, proprietário do jornal "Folha do Progresso", está sendo ameaçado, de acordo com o Brasil de Fato. Nessa quarta-feira, ele foi atacado em grupos de Whastsapp com um panfleto apócrifo, que também foi distribuído em versão impressa para a população de Novo Progresso.

No panfleto, ao jornalista é atribuída a frase “Mentiroso, Estelionatário e Trambiqueiro” e lhe é feita a acusação ter inventado o protesto “Dia do Fogo” com o intuito de prejudicar o desenvolvimento do município. De acordo com o Brasil de Fato, o panfleto ainda diz que:

“Não é de hoje que este senhor [Adecio] vem prejudicando nossa região com falsas notícias que é compartilhada por ONG´s e ativistas mundo afora fazendo com que nossa cidade seja vista como vilã em queimadas e desmatamento, o que é mentira”.

Piran contou à agência Amazônia Real que teme por sua segurança.

É ameaça geral aqui. São [as ameaças] de pessoas que não aceitam a verdade e que, de uma forma ou outra, atacam para se esconder dos atos praticados. Eles [os produtores rurais] estão fazendo uma corrente para retirar os patrocinadores do jornal. Nossa situação está muito complicada”.

A Amazônia Real conversou com o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes, que negou o “Dia do fogo”:

"Eles [o Inpe] pegam um fogo de calor de uma fogueira de São João, por exemplo, e dizem que é um foco de calor de derrubada de floresta, certo! Isso interessa muito à comunidade internacional para prejudicar nosso presidente [Jair Bolsonaro]”, disse o sindicalista.

Sobre o desmatamento, ele ainda completou:

“O desmatamento realmente existe, aquelas bolas de desmatamentos existem. Mas você sabe que na legislação brasileira na Amazônia, a pessoa pode usar 20% da área para desmatar com o plano de manejo. Se permite, o que eu posso fazer se não é proibido? ”.

Nós divulgamos, em maio deste ano, que o Brasil é um dos países mais perigosos do mundo para o exercício da profissão de jornalista. A organização não-governamental de direitos humanos Artigo 19 registrou o aumento da violência contra jornalistas nos últimos anos no Brasil: de janeiro a agosto deste ano, houve 26 ameaças, 1 sequestro, 4 tentativas de homicídio e 4 assassinatos na região, sendo que 17 envolvendo profissionais do jornalismo.

Em 2018, foram assassinados o jornalista Ueliton Brizon, em Rondônia, e Jairo José de Sousa, da Rádio Pérola, no Pará. Até o momento, ninguém foi preso por esses crimes.

Tão importante quanto o andamento das investigações sobre o "Dia do Fogo" é os culpados serem responsabilizados – não apenas deste crime ambiental como de tantos que ocorrem no Brasil.

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