Rio Doce: um rio de lama que chega ao mar

Todo rio tem um caminho, e esse caminho, seja onde for, chega ao mar. As águas de um rio, sua vida, chegam ao mar que é onde se reúnem todas as águas para continuar seu ciclo natural, de vida.

O Rio Doce sempre chegou ao mar banhando o estuário criador. No estuário, berçário dos seres do mar e do rio, onde a vida se dá.

Ontem o rio, lama de mineradora, antes transparente e vivo, chegou ao mar do litoral do Espirito Santo. E enlameou.

Ondas de lama, praia coberta de lama fina, lama sem matéria orgânica, lama de minério de ferro e outros mais, arsênio, chumbo, e químicos, das terras agrícolas lavadas e derrotadas pela enxurrada de lama.

O mar de lama da empresa Samarco, Vale, BHP, chegou ao mar.

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E a vida?

Por enquanto a vida no rio morreu - nas terras que o rio banhava, morreu. As nascentes, cobertas de lama, morreu. Os peixes, tantos peixes como nunca antes vistos pelos pescadores das margens do Rio Doce, boiaram mortos, por asfixia. Sim, a lama os matou.

Essa lama fina, cor de laranja, fedida, retirou, de um rompante, todo o oxigênio das águas - peixes, moluscos, camarões, lagostins, tartarugas, morreram de asfixia.

E os animais que povoavam as margens, também morreram, na enxurrada brutal da lama da barragem que estourou.

E ainda duas barragens em Mariana estão em risco - suas paredes, às pressas reforçadas, podem ruir a qualquer momento trazendo mais morte de gente, bichos, peixes, plantas, vida.

Como se salva um rio que morreu?

Todo mundo sabe como - é preciso limpar as águas, as margens, a vegetação. É preciso tirar a lama que se consolida em grandes blocos matando tudo o que está embaixo.

A lama da Samarco não tem matéria orgânica, não tem vida, tem minério que não serve para a vida mas que vai entrar na cadeia alimentar, disso não há dúvida. E durante muito tempo as plantas, os peixes, as gentes do Vale do Rio Doce, acumularão em seus organismos minérios que não servem à vida, que adoecem os vivos, que causarão, com o tempo, a destruição da vida.

Mas, é preciso plantar - urgente é replantar as nascentes, urgente é replantar os morros antes desmatados, urgente é resgatar os animais, urgente é resgatar as espécies que antes povoavam o Rio Doce e que hoje, quem sabe, ainda existem por pequenos córregos que não tenham sido afetados pelo inferno da lama da Samarco.

Como grita André Ruschi “Ótima forma de revitalizar efetivamente um rio é proporcionar a infiltração das águas de chuva e o aumento da umidade local com revegetação intensiva de espécies nativas. O que vai dar abrigo para espécies da fauna e melhorar a qualidade das águas”. O Plano de André Ruschi é: 32 bilhões de mudas de plantas com tratos culturais para recuperar toda a bacia do Rio Doce após sua limpeza. Em 10 anos, 3.200 viveiros produzindo 1 milhão de mudas por ano. 300.000 pessoas trabalhando por 10 anos.

Como grita Sebastião Salgado: “Resolver o problema do Rio Doce é a médio, longo prazo, porque a curto prazo não resolve. E isso precisa de financiamento. O pensamento que a gente tem é de investir nesse fundo. Com o resultado, você consegue trabalhar a recuperação do vale, que não se fará em menos de 30 anos. Tem que garantir uma gestão ética, para poder ter uma utilização decente do fundo, com participação pública e privada”. E propõe um fundo que seja financiado pelas empresas mineradoras, a corporação do capital responsável pela destruição do Rio Doce - a Samarco, a Vale e a BHP.

Durante muito tempo não vai ter mais piracema. Os peixes não subirão o rio para procriar. Durante muito tempo o mar terá menos peixes, pois não terá piracema no Rio Doce, impedido de respirar.

Durante muito tempo os pescadores sofrerão, não terão peixes para pescar.

Mas um dia, longínquo é verdade, a vida voltará ao Vale do Rio Doce. E o Rio Doce renascerá pois a natureza sobrevive, quem pode não sobreviver é o ser que a destrói.

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Fonte foto: fotospublicas