Encíclica sobre o meio ambiente: os 5 mandamentos verdes do Papa Francisco

Encíclica sobre o meio ambiente

Não à poluição, ao lixo e à cultura do desperdício. Atenção também aos OGMs e a vivissecção. Foi apresentada oficialmente a Encíclica do Papa Francisco: "Louvado seja o cuidado da casa comum". Um compromisso intensamente muito aguardado em todo o mundo.

A Encíclica invoca a São Francisco de Assis: "Louvado seja meu Senhor” que no Cântico da Terra, nos lembra que a nossa casa comum é como uma irmã, com a qual partilhamos a existência, e como uma bela mãe, que nos acolhe em seus braços.

"A referência a São Francisco também indica a atitude que sustenta toda a Encíclica, a da contemplação do orar, e nos convida a olhar para o “pobre homem de Assis” como fonte de inspiração. Como indicado na Encíclica, São Francisco é o “exemplo por excelência do cuidado com o que é frágil e com uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade [...] Nele encontramos até que ponto são inseparáveis ​​a preocupação com a natureza, a justiça aos pobres, o compromisso da sociedade e a paz interior"(n. 10)", explicou o diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, padre Federico Lombardi.

Trata-se portanto de um chamado à responsabilidade, com base na tarefa que Deus deu aos seres humanos "criar e manter o jardim”. O Papa pede claramente uma mudança radical no consumo do planeta encontrando ao centro do “Louvado seja” esta pergunta: "Que tipo de mundo queremos passar para aqueles que virão depois de nós, para as crianças que agora estão crescendo?”.

A Encíclica é dividida em seis capítulos, cuja sucessão delineia um percurso histórico preciso, que leva a atenção do mundo à importância de ter no coração o futuro do Planeta Terra.

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Convido urgentemente a renovarmos o diálogo sobre o modo pelo qual estamos construindo o futuro do planeta.

Encíclica Tweeter 2

Existe uma relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta.

1. A  crise ambiental corresponde a crise social

Para o Papa, as razões pelas quais um lugar é poluído exige uma análise do funcionamento da sociedade, a sua economia, o seu comportamento, suas formas de compreensão da realidade. Dada a magnitude das mudanças, não é mais possível encontrar uma resposta específica e independente para cada parte individual do problema.

É essencial procurar soluções abrangentes, que considerem a interação dos sistemas naturais uns com os outros, juntamente com os sistemas sociais. "Há duas crise separadas, um problema ambiental e outro social, mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As orientações para a solução exige uma abordagem abrangente para combater a pobreza, para restaurar a dignidade aos excluídos e ao mesmo tempo para cuidar da natureza", diz o texto.

2. Não à poluição, ao lixo e à cultura do desperdício

A cultura do desperdício é prejudicial aos seres humanos excluídos, porque as coisas se transformam rapidamente em lixo. Papa Francisco explica:

“Perceba, por exemplo, que a maior parte do papel que é produzido é jogado fora e não reciclado. Quase não reconhecemos que o funcionamento dos ecossistemas naturais é exemplar: As plantas sintetizam nutrientes que alimentam os herbívoros, e estes, por sua vez alimenta os carnívoros, que fornecem quantidades importantes de resíduos orgânicos, o que dá origem a uma nova geração de plantas. Em contraste, o sistema industrial, no final do ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar o desperdício e o dejeto. Ele ainda não conseguiu adotar um padrão circular de produção para garantir recursos para todos e para as futuras gerações, o que nos obriga a limitar o uso dos recursos não-renováveis, moderar o consumo, reutilizar e reciclar. A resolução desta questão seria uma maneira de combater a cultura do desperdício que acaba prejudicando todo o planeta, mas vemos que os progressos nessa direção ainda são muito limitados."

3. As mudanças climáticas dependem do homem

O ponto de partida consiste de uma escuta espiritual dos melhores resultados científicos disponíveis hoje sobre o meio ambiente, para se deixar tocar profundamente e dar uma base concreta para o caminho ético e espiritual que segue. "A ciência é o instrumento-chave através do qual podemos ouvir o grito da Terra. Na perspectiva da Encíclica - e da Igreja - é suficiente que a atividade humana é um dos fatores que explicam a mudança climática, pois resulta em uma grave responsabilidade moral de fazer tudo o que pudermos para reduzir o nosso impacto e para evitar os efeitos negativos sobre o meio ambiente e os pobres.

"O clima é um bem comum de todos e para todos. Ele, no nível mundial, é um sistema complexo em relação a muitas condições essenciais para a vida humana. Há um consenso científico muito significativo que indica que estamos testemunhando um preocupante aquecimento do sistema climático. A humanidade é chamada a tornar-se consciente da necessidade de mudar de vida, da produção e do consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou o acentuem", escreve o Papa.

4. Abraçar o decrescimento

"É hora de aceitar uma certa diminuição em algumas partes do mundo procurando recursos para que possamos crescer de forma saudável em outras partes. Sabemos que é insustentável o comportamento de quem consome e destrói mais e mais, enquanto outros não conseguem viver em conformidade com a sua dignidade humana. Portanto, é hora de aceitar um determinado decrescimento”, disse Bergoglio.

"O que está acontecendo nos faz enfrentar a necessidade urgente de proceder a uma revolução cultural corajosa. A ciência e a tecnologia não são neutras, mas podem implicar do começo ao fim em um processo diferente de intenções e possibilidades, e podem se configurar de várias maneiras. Ninguém quer voltar para a caverna, mas é essencial retardar a marcha para ver a realidade de outra maneira, acolher os desenvolvimentos positivos e sustentáveis e, ao mesmo tempo recuperar os grandes valores e propósitos destruídos por uma megalomania desenfreada”.

5. Atenção ao OGM e à vivissecção

O Papa observou como em muitas áreas, em decorrência da introdução de organismos geneticamente modificados (OGM), plantas ou animais, viu-se uma concentração de terras produtivas nas mãos de poucos, devido ao "desaparecimento gradual dos pequenos produtores, que, como resultado perderam suas terras cultivadas e foram forçados a abandonar a produção direta".

A propagação destas culturas destrói a teia complexa de ecossistemas, diminui a diversidade da produção e afeta o presente e o futuro das economias regionais. Em vários países existe uma tendência no desenvolvimento de oligopólios na produção de sementes e de outros produtos necessários para o cultivo, e a dependência se aprofunda quando se considera a produção de sementes estéreis, que acabaria forçando os agricultores a comprar dos produtores.

"Na visão filosófica e teológica do ser humano e da criação que tentei sugerir, é evidente que a pessoa humana, com a sua peculiaridade da razão e da ciência, fator externo que deva ser excluido completamente. No entanto, embora os seres humanos possam intervir nos mundos vegetal e animal e usá-los quando precisar deles para a sua vida, o Catecismo ensina que a experimentação animal são legítimas apenas se "permanecer dentro de limites razoáveis ​​e se contribuir para cuidar ou salvar vidas humanas" continua o Papa, recordando com firmeza que o poder humano tem limites e que "é contrário à dignidade humana causar inutilmente sofrimento aos animais e dispor indiscriminadamente de suas vidas”. Qualquer uso e experimentação animal “exige um respeito religioso pela integridade da criação", diz a Encíclica.

Leia aqui a Encíclica completa